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Editorial

A joaninha e as alterações climáticas

Paula Bravo
Última Atualização: 2019/Out/Sex
Paula Bravo
7 anos atrás
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Há dias, ao entrar em casa, senti qualquer coisa a pousar-me na mão. Ainda tive um primeiro momento de receio até perceber que era, afinal, uma joaninha. O segundo momento foi dedicado a pensar há quanto tempo não via uma joaninha.

Na sequência desse pensamento facilmente se encadearam outros. Pensei que este ano, não ouvi nenhum cuco, com o seu chamamento caraterístico. E mal tive oportunidade de ver borboletas a esvoaçar no quintal, nem tão pouco as espécies mais vulgares. O meu bocadinho de céu não tem tido a visita da família de gaios que por aqui costumava voar. E pela porta das traseiras, que fica aberta de verão, há já bastante tempo que não entram dezenas de porcas-saras a enrolarem-se sobre si próprias…

Este não é um retrato catastrofista. Nem colorido por uma qualquer necessidade de falar num tema que tem estado nas agendas políticas nacionais e internacionais. Não necessitamos de exemplos juvenis, mais ou menos polémicos, nem de compatriotas com as calças arregaçadas fazendo capa em revista internacional. Não são necessários pelo simples facto de que nós sabemos. Todos vemos como o clima está mudado. Como os nossos quintais e campos não são o que eram. Como entramos no outono com dias de praia melhores do que em julho. Todos suspiramos e nos lamentamos ciclicamente do excesso de calor ou do excesso de frio e de como as estações do ano deixaram de ser distintas e não sabemos o que vestir… Todos sabemos.

É claro que desde a tomada de consciência ao momento de ação, vai uma grande distância. Até porque, convenhamos, não é fácil.

Comparo a nossa atitude com as alterações climáticas, com a que temos com a solidariedade. Todos nos preocupamos, todos estamos dispostos a prescindir de algo a favor de quem precisa. Mas de que estamos dispostos a prescindir? Do par de calças no qual já não cabemos, do casaco novo de que não gostávamos assim tanto?… Estamos disponíveis para adquirir os enlatados que nos sugerem nas campanhas de recolha de alimentos e prontos para deixarmos o nosso saquinho solidário no monte das ofertas ou a ligar para o número que aparece no ecrã. Mas estamos dispostos a ir mais longe? Até onde? Quantos de nós?

Conta-se que o grande poeta messinense, João de Deus, um dia acedeu ao pedido de um pobre e deu-lhe umas botas velhas. E ficou sem poder sair de casa porque dera o único par que possuía. Não há, creio eu, muitas pessoas com este sentido de despojamento. A nossa solidariedade, que tantas vezes nos conforta, não passa, frequentemente, de darmos aos outros o nosso supérfluo.

Nas notícias que publico nas redes sociais a atitude que mais encontro nos comentários que ali são deixados é a de desagrado perante o bem que foi feito ao outro. À outra comunidade, à outra freguesia. Fizeram uma estrada ali, e porque não aqui? E um parque infantil nesta freguesia… então e nós?!!… Raramente, muito raramente, alguém se alegra por uma outra comunidade, uma outra freguesia, uma outra rua. Com esta mentalidade, tão desligada de conceitos como justiça ou necessidade, nem faz sentido falar de solidariedade. E isso complica tudo. Porque, queiramos ou não, é necessário que trabalhemos em conjunto.

Ainda há poucos dias foi apresentado publicamente, um plano de ação para o Algarve, o Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas que os 16 municípios da região querem por em marcha (e que nesta edição se fala). As consequências das alterações climáticas serão tão terríveis para a região, para a nossa economia e modo de vida que só nos resta agirmos. Mas para que tenha sucesso, no próprio Plano se afirma, é necessário que os 16 municípios trabalhem em conjunto, sem fronteiras, nem favoritismos, acrescento eu.

Se optarmos por não ignorarmos o que todos sabemos as mudanças têm de ser sérias, profundas, com consequências. Têm de abalar o nosso consumismo, o nosso comodismo, o nosso egoísmo, a nossa sociedade orientada para o lucro e exploração máxima dos recursos. O que cada um de nós estiver disposto a fazer será decisivo neste combate global. Não basta comer menos um bife. Ou separar o lixo. Não basta prescindir do supérfluo para fazer a boa ação ambiental do dia.

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TAGGED:alterações climáticasjoaninhaPaula Bravo
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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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2 comentários
  • José Domingos diz:
    11 de Outubro, 2019 às 20:31

    Na espécie humana, os olhos e o sorriso têm tudo o que a pessoa é e não pode esconder, restando ao observador a perspicácia de ler e intuir o que dizem, em cada momento, e é muito do que vai na mente dos seus donos e, mesmo, da natureza da sua própria índole.
    Estas duas qualidades, são, além da inteligência e da capacidade inata dos humanos em conseguir articular os sons, transformando-os em palavras, os quatro aspectos que, principalmente, nos distinguem dos nossos irmãos animais, na Escala da Evolução dos seres vivos.
    Ao observar Paula Bravo, nesta foto, assim como noutros números do Terra Ruiva, com o seu sorriso indefinível, indecifrável, misterioso e enigmático, encontrava nele algo que me sugeria um outro qualquer, que tinha visto já algures, sem que me recordasse onde e em quem.
    Andei nisto tempos, até que, por acaso, me passou sob os olhos a imagem dessa personagem : a Gioconda.
    Isso mesmo, a Paula Bravo tem o sorriso lendário da Gioconda … um sorriso que tem sido, desde o Renascimento, o tema de um sem número de obras-primas, um sorriso legado por um dos mais talentosos e versáteis génios de todos os tempos : Leonardo da Vinci.

    Responder
    • Paula Bravo diz:
      14 de Outubro, 2019 às 10:17

      Que posso dizer a este elogio? Muito obrigada.

      Responder

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