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Teodomiro Cabrita Neto com placa toponímica em Messines

O messinense Teodomiro Cabrita Neto, professor, jornalista, historiador, dramaturgo, ensaísta, foi homenageado na sua terra natal, São Bartolomeu de Messines, com o descerramento de uma placa toponímica.
A cerimónia decorreu no dia 15 de junho, organizada pela Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines. Familiares e amigos marcaram presença neste momento simbólico de reconhecimento e homenagem a um “homem das letras, das artes, da história, da cultura”, como afirmou Samuel Mendonça, diretor do jornal Folha do Domingo.
As suas palavras fizeram-se ouvir no salão da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, após o descerramento da placa toponímica, em rua junto ao quartel dos Bombeiros Voluntários da vila.

O descerramento da placa toponímica com Teodomiro Neto, a sua esposa e a presidente da Junta de Freguesia de Messines

A cerimónia foi presidida por Carla Benedito, presidente da Junta de Freguesia de S.B. Messines, que concluiu assim um processo iniciado com o anterior autarca, João Carlos Correia, há cerca de cinco anos, com a realização de uma reunião aberta a toda a população, com o objetivo de recolher sugestões para os nomes das ruas da Vila. Isso mesmo foi salientado por Paula Bravo, diretora do jornal Terra Ruiva, que considerou esta homenagem como “justa” e representativa da vontade expressa dos cidadãos que compareceram na referida reunião. A mesma agradeceu ainda a Teodomiro Neto a sua colaboração, de muitos anos, no jornal Terra Ruiva, e a sua ação para um melhor conhecimento do concelho e principalmente da freguesia de São Bartolomeu de Messines.

A mesa com Paula Bravo, Carla Benedito, Teodomiro Neto e Samuel Mendonça

Da parte do homenageado houve também agradecimentos aos presentes e aos intervenientes no processo para a concretização de uma homenagem que o próprio não ambicionava. Num discurso, com momentos de emoção, lembrou algumas das dificuldades que enfrentou na sua vida, nomeadamente quando foi forçado a partir para França, devido à perseguição da polícia política, e os anos no exílio, longe do país e da família. E falou também da alegria do regresso a Portugal e de várias pessoas que cruzaram a sua vida, tornando-o mais interessante e rica.

Familiares e amigos estiveram presentes
Com uma amiga de longa data, Lisete Martins, na pele de “Ti Vitória”

No final da cerimónia, vários elementos do Grupo de Teatro Penedo Grande, Hélia Coelho, Lurdes Cabrita e Carminda Fiadeiro, leram excertos de textos de Teodomiro Neto, enquanto Lisete Martins se transformou, mais uma vez, na “Ti Vitória”, uma personagem da peça “Vitória das Amendoeiras” , escrita por este autor e representada com grande sucesso por este grupo de teatro amador de Messines.
Outros amigos deixaram o seu testemunho de admiração e amizade por este homem singular, que, ainda que tivesse corrido o mundo, nunca perdeu a ligação à sua terra natal.

Duas gerações de jornalistas do Terra Ruiva, Teodomiro Neto e Paula Bravo

Teodomiro Cabrita Neto , por Samuel Mendonça

«São Bartolomeu de Messines é terra de notáveis que tem sabido homenagear. Uma lista imensa de personalidades encabeçada pelo grande João de Deus.
Hoje homenageamos justamente Teodomiro Cabrita Neto. Pedagogo também. Mas ainda jornalista, historiador, dramaturgo, ensaísta. Tal como o autor da Cartilha Maternal tem procurado combater a iliteracia. Sobretudo a cultural, a histórica.
Homem das letras, das artes, da história, da cultura. Uma das principais referências destas áreas no Algarve que nos tem ajudado à compreensão, valorização e defesa cultural desta nossa região nas suas dimensões histórica e artística, mas também social, política, económica.

Dois amigos, Teodomiro Neto e Samuel Mendonça

Teodomiro Neto é, de facto, um dos expoentes máximos e memória viva da cultura no Algarve. Tido atualmente como um dos mais prestigiados historiadores da temática regional, tem-se dedicado em particular à história da cidade de Faro.
Casado e pai de três filhos e avô de quatro netos, Teodomiro Neto nasceu nesta vila de São Bartolomeu de Messines, na Rua da Estalagem, a 20 de setembro de 1938.
Aos dezasseis anos foi para Faro completar estudos, onde trabalhava de dia e estudava à noite. Foi leitor na Aliança Francesa e explicador de várias matérias. Do contacto com Arnaldo Vilhena, médico intelectual e anti-salazarista, resulta, em 1958, a oportunidade de começar a colaborar no semanário “O Algarve” como publicista.

Escreveu (e nalguns casos ainda escreve) em diversos outros órgãos de imprensa, entre os quais o “Correio do Sul”, o “Jornal do Algarve”, o “Diário de Notícias” (1975), o “Barlavento” (1977), o “Jornal de Letras”, o “Olhanense” ou o messinense “Terra Ruiva” (2002). “Folha do Domingo” tem sido, de resto, um dos privilegiados desde 1992 com a sua colaboração que aproveito para agradecer.
Não obstante os membros da Comissão de Censura não conseguirem compreender na totalidade o alcance do que escrevia, o desenvolvimento do seu trabalho jornalístico tornou-o alvo da PIDE e dos seus interrogatórios intimidatórios.
Em 1962, decidiu sair do país. Dizemos ‘decidiu’, ainda que o significado do verbo, neste caso, pouco tenha tido a ver com ‘optar’.

O filho de Messines aventurava-se na Europa fervilhante da Cultura e das Artes. A Europa abria-se a Teodomiro Neto! Abria-se, acolhendo-o, reconhecendo e valorizando a sua dimensão intelectual, já demasiado grande para caber no pequeno e fechado Portugal de então.
Iniciou um longo percurso de estudo e de trabalho em diversas cidades deste velho continente e também do Norte de África. Géneve, Paris, Lyon, Saint-Étienne, Bruxelas, Siracusa, Varsóvia, Tunis. Exerceu diferentes profissões, licenciou-se em História e doutorou-se em História Política Europeia.

Teodomiro Neto tornara-se no que sempre fora: um cidadão da Europa. E desta recebeu uma lufada de cultura, à qual Portugal não lhe permitia aceder. Abriu horizontes.

Nos contactos profissionais e de amizade estabelecidos teve oportunidade de privar com personalidades como o poeta Pablo Neruda, as irmãs Beauvoir, o comediante e encenador Jean Dasté ou os pintores Pablo Picasso e Carlos Porfírio.
Em França desenvolveu atividade literária e jornalística, escrevendo para os jornais “La Gazette de Genéve”, “L’Espoir” e “Aujourd’hui”. Publicou, também em língua francesa, os seus primeiros livros: “Les Noces de Manolo”, “La Nuit de Marie Dumas”, “Poèmes de Marbre” e a biografia de “Jules Massenet”.

Em 1974 regressou a Portugal, mas a sua carreira e o reconhecimento profissional chamaram-no de volta às universidades e consequentemente a França, onde lecionou até à jubilação, com a sua vida dividida então entre Faro e Saint-Étienne.
Para além da parceria intensa com a imprensa nacional e regional, este período ficou ainda marcado pela colaboração assídua com os Anais do Município de Faro entre 1977 e 2009 e pela publicação de cerca de três dezenas de obras em português e francês, algumas com traduções para inglês e alemão.

Entre elas contam-se, por exemplo, “O Último Concerto de Maria Campina” (1988), “Carlos Porfírio na pintura contemporânea algarvia” (1992), “Café Aliança – Sua História – Suas Fotografias” (1995) (reeditado em 2008 no centenário daquele espaço de forma mais completa com o título “Café Aliança – 1908-2008 – Um século de história da cidade”). Escreveu também “Faro no Verbo Amar” (1998), “Teatro na História do Algarve” (2007), “Faro: Romana, Árabe e Cristã” (2009), “O Futurismo Oficializou-se em Faro com o Heraldo” (2010), “As tentações de Maria Lua” (2011) ou “Cidade Monumental” (2012).
O seu nome está ligado igualmente ao teatro pela encenação de várias das suas obras como “La Nuit de Marie Dumas” (1970) ou “Appassionata”. Mas também pela colaboração com o grupo messinense “Penedo Grande”. A representação da peça “Vitória das Amendoeiras”, no Castelo de Silves, em 1994, foi o primeiro grande trabalho conjunto. Seguiu-se “O Processo do Guerrilheiro” (1999 e reposição em 2006).

O seu talento e ação realizada foram reconhecidos através da atribuição de vários prémios como o Prémio Nacional do Teatro, o Prémio de Imprensa Samuel Gacon, o Prémio Infante D. Henrique, o Prémio Internacional de Imprensa ou o Prix Antoine Guichard.
Em 1993 foi agraciado pela Câmara de Faro com a Medalha de Mérito – Grau Ouro.
A Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines distinguiu-o em 2009, juntamente com outras 22 personalidades, na exposição “Notáveis Messinenses: Vivências e Contributos”.

Esta terra que o viu nascer deve-lhe ainda o impulso para a constituição da Casa Museu João de Deus e a doação de parte da sua biblioteca particular.

Já jubilado, Teodomiro Neto continua a desenvolver a sua atividade enquanto jornalista, historiador, escritor. Realiza frequentemente palestras e conferências em diversas instituições, tanto nacionais como internacionais. O seu saber continua a ser solicitado e aproveitado além-fronteiras.

Tem-nos ajudado a admirar, mas sobretudo a reconhecer os nomes maiores da nossa cultura algarvia como António Ramos Rosa, Ataíde Oliveira, Cândido Guerreiro, Carlos Porfírio, Emiliano da Costa, Emílio Coroa, Francisco Gomes do Avelar, João Lúcio, Joaquim José Rasquinho, Justino Cúmano, Manuel Martins, Maria Campina, Mário Lyster Franco, entre muitos outros.
Mas também nos tem dado a conhecer personalidades como as irmãs Beauvoir, Marguerite Yourcenar ou Armand Guibert, personalidades que passaram por Faro, algumas mercê da movimentação de refugiados da Segunda Guerra Mundial, e que abriram portas as tantas outras que se lhes seguiram.
Enorme defensor do Património, Teodomiro Neto tem sido uma personalidade que estuda o passado para nos ajudar a entender o presente e a projetar o futuro.

Exemplo dessa sua visão futurista foi a determinação com que defendeu a criação da Universidade do Algarve com dezenas de entrevistas publicadas sobre o tema no “Jornal do Algarve”, a mesma com que tem sugerido a criação de um Museu da Imprensa em Faro, cidade-berço em Portugal da invenção de Gutenberg ali recriada pelo judeu Samuel Gacon, que nos últimos tempos tem conhecido alguns passos no sentido da sua concretização.

Por tudo o que nos tem dado e ensinado, estamos-lhe gratos, pelo que esta homenagem se apresenta de inquestionável justiça. É bonito ver que a sua terra o reconhece e imortaliza esse mesmo reconhecimento para os vindouros.
Desejamos-lhe longa vida para que nos continue a enriquecer com o seu saber e com a sua amizade.
Muito obrigado, Dr. Teodomiro Neto!»

Samuel Mendonça

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