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Editorial

O valor da história

Paula Bravo
Última Atualização: 2019/Mai/Sex
Paula Bravo
7 anos atrás
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Li recentemente um livro de Richard Zimler, no qual o autor aborda a ascensão do nazismo, vista pelos olhos de uma adolescente alemã. Residente na cosmopolita Berlim, integrada na classe média, a jovem partilha a ideia, amplamente difundida no seu meio social, de que um bronco como Hitler nunca alcançará o poder. É com incredulidade que a mesma e seus familiares e amigos assistem à vitória de uma pessoa que consideram social e intelectualmente inferior, sem qualquer capacidade para dirigir um país que acreditam ser forte, desenvolvido e moderno. Da incredulidade ao horror e à derrocada de toda a sua vida, vão apenas alguns meses, enquanto amigos de sempre são transformados em inimigos, de acordo com a nova ideologia que se instala.

Salvaguardando as devidas distâncias, em abril de 2019, este cenário não nos é desconhecido. Lá para os lados das Américas, falantes de inglês e de português, experimentam a mesma incredulidade e certamente o mesmo sentimento de impotência, bem como em muitas zonas da nossa Europa.

O tão falado populismo que conduz à vitória de aspirantes a hitlers tem, frequentemente, o seu rastilho, num aglomerado de reivindicações não satisfeitas, queixas com ou sem qualquer fundamento, suposições e opiniões e quantas vezes total ou parcial desconhecimento da história e da realidade social. Não é por acaso que estes novos representantes do poder evitam a todo o custo os debates e o contraditório na comunicação social privilegiando o contacto direto com os eleitores, através das redes sociais.

A informação sobre o presente e o conhecimento e compreensão do passado tornam-se assim ferramentas essenciais para nos posicionarmos perante a nossa sociedade e entendermos onde vivemos, com quem, como e porquê.
O ensino da história não tem tido, na minha opinião, a valorização e importância merecidas e necessárias. Daí que vejo como muito importantes as comemorações das datas históricas, uma oportunidade para, pelo menos nesse dia, se falar do que foi e de como isso marcou o nosso destino. Tomando como exemplo a recente comemoração dos 45 anos da Revolução do 25 de Abril… nessa memória que se começa a diluir, como se todo o nosso tempo tivesse sido o da liberdade… quantos jovens terão ouvido falar, pela primeira vez, dessa revolução e do país pobre, analfabeto, em guerra e amordaçado que existia antes desse dia?…

Há quem critique as sessões solenes, há quem critique os almoços com animação musical, eu penso que cada um destes eventos tem o seu espaço e que ambos devem coexistir, mais as corridas, os jogos, o teatro, a poesia, as exposições…. e os cravos vermelhos na lapela. Todas as formas são válidas para resgatar a memória, homenagear os que lutaram por uma outra sociedade e trazer aos nossos dias o conhecimento do que era e como era, para que não voltemos atrás.

Fiel a essa convicção, não posso deixar de lamentar que as comemorações do 25 de abril sejam ignoradas por entidades públicas, como é o caso da Junta de Freguesia de Armação de Pêra. Não é esta a primeira vez que tal acontece e não é caso único…. a União de Freguesias de Algoz e Tunes, também está neste triste clube… A evocação dos maiores valores de Abril como a Liberdade, Paz e Democracia fica esquecida nestas freguesias, aparte uma ou outra atividade que é organizada por associações locais (como no Algoz). Não querendo acreditar que são razões ideológicas que estão por detrás deste alheamento da comemoração de tal data histórica, sabendo que não é por falta de condições financeiras ou humanas, sobra-me uma imensa perplexidade…

Abril não foi feito por todos, mas foi feito para todos. Gozar do enorme privilégio de viver em liberdade, em democracia, em paz, usufruir do direito de votar e de ser eleito, confere-nos uma enorme responsabilidade que não pode ser descurada. Mais ainda quando somos titulares de cargos públicos, representando toda uma população.

A história e a nossa vida pessoal mostram-nos todos os dias que nada é garantido.
Um dia, um bronco ganhou as eleições. Meia dúzia de anos depois, 75 milhões de pessoas tinham morrido.

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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