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Opinião

Voltaram as Chamas, restam as chamas da política

Rocha de Sousa
Última Atualização: 2018/Set/Seg
Rocha de Sousa
8 anos atrás
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Bem me parecia que esta civilização tem sido a fingir, rasurando por todo o lado o planeta, enchendo paisagens de diversos perigos de funcionalidade e capacidade produtiva, confundindo trocas comerciais e económicas com os mundos contrafeitos dos bancos secretos onde os ganhadores de dinheiro desviado escondem fortunas. Portugal fazia parte de uma zona temperada da Península Ibérica, voltada para o Oceano Atlântico, pelo qual viajou em lanchas e caravelas, entre lendas e achamentos deslumbrantes, deuses do mar e da terra, novos continentes, novas gentes, coisas e produções que negociaram durante séculos.

Este Portugal perdeu a monarquia, tentou abrir-se à modernidade do tempo, sobretudo num século XX capturado pela ditadura e por uma guerra colonial onde o império imaginado se desfez em pouco mais que doze anos, as almas sombrias, a revolução do 25 de Abril de 74 procurando reinventar a portugalidade, provisoriamente, enfim constitucionalmente.

Tudo aconteceu com retornos e fugas e novas emigrações, enquanto o fogo emergia dos conflitos, dos ajustamentos, dos negócios enviesados, da própria aventura da adesão à União Europeia. Enterrado o escudo, todos mudámos para o euro. Emplumados, os portugueses teriam de vencer a crise e a dor para chegar ao patamar de novas instituições. Mas um dia, dominaram mal as crises e a estranha atmosfera do mundo tornou todos os males excessivos. E mais tarde o campo começou a arder, como noutros tempos, e em 2017 ardeu meia face da nossa interioridade, Pedrogão ficou destroçado, e mais zonas, e o governo, e os velhos ou aqueles mortos na estrada, dentro dos carros. De súbito, tudo estava mal, políticos, cientistas, bombeiros, essa míngua de recursos e o imenso cansaço dos homens, inclusive a força de algumas viaturas. Antes de se pensar nas rectificações sustentáveis, os políticos procuravam incinerar os seus homónimos do governo ou do governo na Assembleia da República: era preciso arrumar a casa, limpar a paisagem velha e confusa, refazer todos os projectos de ataque a incêndios, estudar e reordenar a floresta, reconstruir o interior, sobretudo tornando-o parte integrada do próprio litoral.

Calaram-se as vozes, não todas, Cristas nos valha, e o tempo pareceu amenizar e os planos para o verão de 2018, entre gritos soltos, foram trabalhados com maior empenho e muita despesa. Faltou saber-se como seria e quais as estratégias no uso das máquinas e das velhas sabedorias dos bombeiros em parte reequipados.

Neste sentido, começou bem a chamada época dos fogos. Uma dezena de incêndios, que nem chegaram a ser notícia, foram atacados por bombeiros pré-posicionados e extintos em duas, três horas. Mas o mês de Agosto deste ano foi vandalizado por um fogo de Deus ou dos homens, caminhando depressa para Monchique e ilustrando pelo Algarve fora a célebre frase de alguém muito sábio que disse em 2017: «Pedrogão foi este ano; para o ano é Monchique». Estas falas mais do que premonitórias deveriam mobilizar os sábios e antecipar fortemente o futuro. O que tenho visto acontecer no Algarve, da esquerda para a direita e da direita para esquerda, a começar longe de Monchique, rodeando a vila, subindo a Fóia, espalhando-se para Portimão e Silves, contornando breves contra ataques, mordendo o Enxerim, Pereira, obrigando ao fecho da 124, empurrando para fora das suas casas gente da Cumeada e por aí adiante, tudo afinal ao contrário do primeiro projecto em reforços e métodos. O céu de meio Algarve ficou impraticável. A respiração das pessoas agravada.
Depois da balbúrdia do Enxerim, a GNR a retirar pessoas das suas casas, como prevenção, toda a gente a dizer que já os haviam descansado, o fogo já fora apagado. Acendeu-se de novo, dizia a autoridade. A melhoria dos meios, culturas, corpos técnicos, início de uma ordenação florestal, agrícola e urbana – quase nada disso serviu para debate, estudo. É preciso que o país não seja uma lixeira incendiável e que a história humana progrida para a eficácia e para a ordem sábia, pacífica e coordenada contra todo o tumulto e bárbaro belicismo — de que os fogos são um símbolo como os actuais conflitos entre os homens, os Estados e as economias assimétricas ou erráticas.
O fogo de Monchique e as paisagens dantescas que se espalharam até aos horizontes do mar e da terra, não podem vir a ser anúncio dos desastres apocalípticos e da degradação final do planeta Terra.

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PorRocha de Sousa
Natural de Silves. Professor Universitário ( aposentado) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde foi docente. Membro da Academia Nacional de Belas Artes. Com larga atividade artística em vários campos, da pintura, ao cinema, do vídeo à literatura, Participou em dezenas de exposições, em séries de arte para a RTP, tem publicadas vários livros e é colaborador do Jornal de Letras.
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