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Sobrou fogo, faltam medalhas

No rescaldo do chamado incêndio de Monchique, que atingiu profundamente a zona serrana de Silves, têm-se apurado várias conclusões sobre o que correu mal no combate ao fogo.
A primeira pista foi deixada pela presidente da Câmara de Silves, Rosa Palma, em declarações a televisões nacionais, nas quais, com serenidade e notória escolha de palavras, afirmou em voz alta o que mais se ouvia no terreno: que tinha havido falta de coordenação.

Havendo pessoas mais habilitadas para falar sobre a (des)coordenação dos meios de combate ao fogo, destaco outra lacuna que me parece importante: a falta de informação às populações.

Em determinada altura, tivemos, numa só tarde, a evacuação aflita de pessoas no Enxerim, a deslocação de pessoas de vários sítios das freguesias de Silves e de S. Bartolomeu de Messines, o corte de várias estradas, com destaque para EN 124, entre Silves e Messines, enquanto esta vila era cercada por uma nuvem de fumo e as chamas se avistavam por detrás dos montes.

Enquanto tudo isto se passava, nenhuma entidade oficial teve uma só palavra para as populações, nada que as pudesse orientar, que estradas não deveriam usar, para onde poderiam ir caso se sentissem ameaçadas… Nada.

Já muito ao final dessa tarde apareceu uma mensagem da Proteção Civil, pedindo para que as pessoas se mantivessem em casa. Nesse dia em particular, e nos restantes em que o incêndio esteve ativo, quem procurasse alguma informação nos sites das Câmaras Municipais de Silves e de Monchique, simplesmente não encontrava nada! Veja-se a situação: o concelho a arder, pessoas em risco e os meios de comunicação oficiais da autarquia de Silves (site e página de Facebook) a anunciarem uma festa no Algoz!
A falta de informação sobre o concelho de Silves em particular, pois ainda se falava do “incêndio de Monchique” já as chamas chegavam quase a São Marcos da Serra, provocou uma avalanche de perguntas, mensagens e telefonemas de pessoas que se dirigiam ao Terra Ruiva na busca de alguma informação sobre a localização do fogo, qual o perigo da situação, preocupadas com familiares e propriedades.

Quando procurei, junto da autarquia de Silves, uma justificação para esta situação, fui informada de que as câmaras municipais não estavam autorizadas pela Proteção Civil a dar quaisquer informações… e daí aquela aberrante incongruência nos seus sites…

Confesso que não entendo. Não se trata de colocar os serviços de informação da Câmara a seguir o fogo minuto a minuto, ou a divulgar informações não confirmadas que podem criar alarmismo ou pânico infundado. Mas quando se corta uma estrada tão vital como a EN124, com tantos acessos secundários, não seria de informar a população? Não seria também de anunciar que a Câmara tinha preparados espaços de acolhimento para as pessoas que necessitassem? Não poderia essa informação ter sido tranquilizadora para aqueles que viam o fogo a aproximar-se ou para aqueles que simplesmente se sentiam assustados ou sós?
A “lei da rolha” aplicada aos bombeiros e às autarquias tem de ser considerada, analisada. Foi pensada para impedir que qualquer pessoa pudesse dar informações, sem fundamentação. Mas, na prática, as informações gerais que a Proteção Civil fornece duas ou três vezes por dia, não são suficientes para quem mora ali, naquele mesmo espaço que surge nas notícias. Essas pessoas precisam de saber o que se está realmente a passar e as precauções a tomar… e devem ter orientações de fonte segura e fiável.
Sabendo como sabemos, que os incêndios voltam regularmente, penso que se deveria fazer uma reflexão séria sobre esta questão.
Foram dias que puseram o concelho à prova. Dias de uma luta e trabalho incessante para bombeiros, militares da GNR e do Exército, autarcas, funcionários de muitos sectores da Câmara Municipal. A todos se deve um sentido reconhecimento.

Medalhas– Ainda que os meus estados de alma pouco possam interessar, tenho de dizer que fiquei muito triste ao ver o programa do Dia do Município e constatar que a autarquia optou por distinguir apenas atletas, deixando de lado personalidades de outras áreas, como vinha fazendo. Não é concebível que um concelho se orgulhe apenas dos seus atletas. Este ato recupera uma prática que a autarquia tinha, em tempos anteriores, e que muito critiquei ao longo dos anos. O que não posso deixar de fazer também agora.

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