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Opinião

Algarve a ver passar comboios

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2018/Jun/Ter
José Alberto Quaresma
8 anos atrás
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Os comboios no Algarve, sobretudo no Barlavento, são transparentes. Não se veem. Raramente se ouvem. O ronco tonitruante, lá muito de vez em quando, indicia que existem. O material rolante circula com enormes graffitis, mal amanhados, borrados com spray nas estrias metálicas das carruagens. As automotoras são feias, porcas e lentas. Ficam histéricas e aos guinchos quando travam. Máquinas arcaicas, emporcalhadas de fuligem, arrastam caixotes trepidantes. No seu interior os passageiros sentam-se em bancos surrados e ensebados. Espreitam a paisagem pelas janelas embaçadas pelo pó. Às vezes chegam a horas ao seu destino.

O Barlavento algarvio continua à espera de comboios de jeito. Não tem mal. Os impacientes do costume não notam. Andam de carro. E os pacientes? Pacientam. Tudo bem. Se ninguém se queixa, maravilhemo-nos. Sempre assim foi.

Nunca houve pressa. O transporte ferroviário foi inaugurado em Inglaterra, em 1825. A Portugal, só chegou em 1856. Os carris alongavam-se por 36 quilómetros, entre Lisboa e o Carregado. O primeiro comboio estacou em Faro, em 1889, trinta e três anos depois. E a Lagos, em 1922, sessenta e seis anos depois. O tempo de um longo suspiro, um “nunca mais chega”. A conclusão da ponte ferroviária sobre o rio Arade, nesta última data, é que permitiu ver pela primeira vez uma locomotiva a fumegar, entre Portimão e Lagos. Durante muitos anos a linha esteve pronta. Mas, como o ferro não flutua, havia que esperar pela ponte.

Os Alfa Pendular só em 1999 atravessaram o rio Tejo. Estes “pendolinos”, fabricados em Itália pela Fiat, como já cheiravam mal pelo uso intenso, começaram a ser restaurados o ano passado, 2017. Uma mise-en-plis discreta e pouco mais. Existem apenas uma dúzia destes comboios. Os recauchutados parecem novos. Abaixo da primeira camada de maquilhagem, já exibem as rugas da velhice. Nunca chegaram ao Barlavento. Vamos continuar à sua espera, encostados às paredes entaipadas de estações e apeadeiros vazios e vandalizados?

A CP, ou o que resta dela, usa e abusa do seu vetusto monopólio, nos preços e no serviço. É verdade que a democracia lhe foi madastra, quando lhe devia ter dado mais colo. Os sucessivos governos deixaram-na abandalhar-se. Sem dor e, quiçá, com dolo. Ao mesmo tempo, promoviam o sucesso das empresas rodoviárias. E começaram a entregar o património à voracidade da iniciativa privada. Não é lindo observar, por exemplo, toneladas de materiais de construção espalhados a eito pelos espaços exteriores e interiores do armazém da estação de Portimão, outrora ocupados por carga e mercadorias?
Só no último trimestre 2020, se Deus quiser, teremos a rede ferroviária do Algarve electrificada. Estão prometidos 32 milhões de euros para o projecto. A ligação ao aeroporto ficará dependente dos estudos de impacte ambiental. Se não aparecer por ali algum camaleão desnorteado, talvez vá por diante. Até lá, ou muito depois, pelo menos não corremos o risco de apanhar choques eléctricos. As nossas expectativas são de baixa voltagem.

O Algarve e o seu Barlavento têm sido brindados com o pior que a CP tem para vender aos seus utentes. Será que, dentro de poucos anos, deixaremos de ver passar comboios? Daqueles mesmos, velhos, caros e a más horas?

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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