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Algarve a ver passar comboios

Os comboios no Algarve, sobretudo no Barlavento, são transparentes. Não se veem. Raramente se ouvem. O ronco tonitruante, lá muito de vez em quando, indicia que existem. O material rolante circula com enormes graffitis, mal amanhados, borrados com spray nas estrias metálicas das carruagens. As automotoras são feias, porcas e lentas. Ficam histéricas e aos guinchos quando travam. Máquinas arcaicas, emporcalhadas de fuligem, arrastam caixotes trepidantes. No seu interior os passageiros sentam-se em bancos surrados e ensebados. Espreitam a paisagem pelas janelas embaçadas pelo pó. Às vezes chegam a horas ao seu destino.

O Barlavento algarvio continua à espera de comboios de jeito. Não tem mal. Os impacientes do costume não notam. Andam de carro. E os pacientes? Pacientam. Tudo bem. Se ninguém se queixa, maravilhemo-nos. Sempre assim foi.

Nunca houve pressa. O transporte ferroviário foi inaugurado em Inglaterra, em 1825. A Portugal, só chegou em 1856. Os carris alongavam-se por 36 quilómetros, entre Lisboa e o Carregado. O primeiro comboio estacou em Faro, em 1889, trinta e três anos depois. E a Lagos, em 1922, sessenta e seis anos depois. O tempo de um longo suspiro, um “nunca mais chega”. A conclusão da ponte ferroviária sobre o rio Arade, nesta última data, é que permitiu ver pela primeira vez uma locomotiva a fumegar, entre Portimão e Lagos. Durante muitos anos a linha esteve pronta. Mas, como o ferro não flutua, havia que esperar pela ponte.

Os Alfa Pendular só em 1999 atravessaram o rio Tejo. Estes “pendolinos”, fabricados em Itália pela Fiat, como já cheiravam mal pelo uso intenso, começaram a ser restaurados o ano passado, 2017. Uma mise-en-plis discreta e pouco mais. Existem apenas uma dúzia destes comboios. Os recauchutados parecem novos. Abaixo da primeira camada de maquilhagem, já exibem as rugas da velhice. Nunca chegaram ao Barlavento. Vamos continuar à sua espera, encostados às paredes entaipadas de estações e apeadeiros vazios e vandalizados?

A CP, ou o que resta dela, usa e abusa do seu vetusto monopólio, nos preços e no serviço. É verdade que a democracia lhe foi madastra, quando lhe devia ter dado mais colo. Os sucessivos governos deixaram-na abandalhar-se. Sem dor e, quiçá, com dolo. Ao mesmo tempo, promoviam o sucesso das empresas rodoviárias. E começaram a entregar o património à voracidade da iniciativa privada. Não é lindo observar, por exemplo, toneladas de materiais de construção espalhados a eito pelos espaços exteriores e interiores do armazém da estação de Portimão, outrora ocupados por carga e mercadorias?
Só no último trimestre 2020, se Deus quiser, teremos a rede ferroviária do Algarve electrificada. Estão prometidos 32 milhões de euros para o projecto. A ligação ao aeroporto ficará dependente dos estudos de impacte ambiental. Se não aparecer por ali algum camaleão desnorteado, talvez vá por diante. Até lá, ou muito depois, pelo menos não corremos o risco de apanhar choques eléctricos. As nossas expectativas são de baixa voltagem.

O Algarve e o seu Barlavento têm sido brindados com o pior que a CP tem para vender aos seus utentes. Será que, dentro de poucos anos, deixaremos de ver passar comboios? Daqueles mesmos, velhos, caros e a más horas?

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