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Duas bofetadas

1974. Janeiro. Escola Industrial e Comercial de Silves. Começara a dar aulas. Era um pouco menos imberbe do que a gente bonita e cordata que se sentava à sua frente. Como não tinha sido santo, cedo aprendeu a lidar com ela. Tentava espevitá-la. Matéria dada em verbo solto, esquemas e desenhos jeitosinhos a giz na ardósia que soltavam rictos de pasmo, bocejos e embirrações afectuosas. Fazia o que podia com o pouco que sabia.
Um dia, atravessando um dos corredores femininos, viu um aluno e uma aluna trocando risinhos, a dois metros de distância um do outro. O director que os seguia atrás, de voz grossa, chamou-os. Estancaram em pânico. Duas bofetadas secas ecoaram. O indicador da mão directora esticou-se, apontando o corredor por onde devia circular. O rapaz sumiu-se a correr. Ela ficou a soluçar contra a parede.

1974. 25 de Abril. Manhã desabada. Chega à escola. Eufórico (dentro da guedelha farta trazia imagens a preto e branco das cargas da polícia de choque, na cantina velha da Cidade Universitária, em 1969). Alarido alegre já andava desencabrestado nos corredores e salas de aula. A festa alagou a cidade de Silves. Um oceano pacífico de gente e mais gente, ruidosa e feliz. Não havia aulas.

A escola depressa entrou noutra normalidade, democrática, irreverente, excessiva. Uns alunos, provavelmente gaseados, chegaram a ver – inventaram eles – uma bigodeira docente a fumegar na aula. Sentado na secretária, queimava um círculo com a ponta cigarro na página do jornal que parecia ler. Atrás do buraquinho do periscópio improvisado, assomava um olhinho azul maroto. Acreditavam os alunos que os vigiava durante o teste. Enganavam-se. As argolas de fumo não lhes deixaram ver a postura irrepreensível do professor, de sapatos cruzados sobre a secretária como um nababo.
Poucas semanas depois, correu a notícia que o ex-director da escola tinha sido encontrado, na sua propriedade, suspenso de uma corda. Fosse menos angustiado e mais paciente, talvez morresse de velho e constatasse que a democracia, desta feita, reentrava magnânima, a tratar bem os tiranetes, grandes e pequeninos, que governaram o país, entre 1926 e 1974.
Aquela boa prática pedagógica de fumar na aula foi extinta. Também já não há, como antes de Abril, reguadas com a menina-de-cinco-olhos. Nem orelhas de burro. Nem bofetadas. Apenas a falta de memória ou a ignorância de um tempo infame e assim não tão longínquo.
Os filhos dos que foram obrigados a ‘comer e calar’ sempre viveram em democracia. Frequentaram uma escola aberta a todos. Em número cada vez maior, prosseguiram estudos superiores. Muitos são brilhantes. Eles. Elas, em quase todas áreas, já os superam. Não poucos, foram empurrados para fora do país. Outros e outras quiseram, de motu próprio, abandoná-lo. Reluzem lá fora. E, cá dentro, também, quando derrubam obstáculos ou lhes dão emprego.

25 de Abril? Sempre. Com um olho no passado, para que não se repita e outro no futuro, para seguir seguro. Sem vesguice. A democracia pede humanidade. E memória viva, pão diário para a boca, maior igualdade social, justiça lesta, conhecimento largo, atenção tolerante, liberdade infinda. Para que nunca regressem as mãos das bofetadas.

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