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Os Ausentes

Este mês dedico o meu editorial, escrito na véspera do 25 de abril, a uma categoria de pessoas que muito, muito provavelmente não lerão este texto. Falo dos que não participam, dos ausentes.
Quando há eleições fala-se sempre dos que não votam. As pessoas não participam, ouve-se dizer. À exceção do futebol, todos os outros sectores, da política à cultura, parecem impregnados dessa triste constatação… as pessoas não se interessam, não se envolvem…
À medida que a maioria da população se ausenta mais e mais da responsabilidade de decidir a sua vida, torna-se fundamental que quem governa esteja ciente da sua responsabilidade e do grau de compromisso que assume quando é eleito. Isso passa, naturalmente, por estar bem preparado para o cargo que desempenha. Para tal, é obrigatório que o eleito conheça bem o território, a população e as chamadas forças vivas da comunidade, as associações, os clubes, as instituições de solidariedade social.

No caso de um concelho como o de Silves, enorme e com freguesias tão diferentes entre si, não é fácil compreender a sua essência, a dinâmica, as dificuldades. Mas com a aceitação de cargos políticos e decisórios vem a responsabilidade de exercer os mesmos com conhecimento de causa. E digo eu, que nestas coisas sou muito esquisita, vem a obrigatoriedade de estar presente.

Assim como nunca me passaria pela cabeça fazer uma reportagem sem me deslocar ao local ou fazer uma entrevista sem falar com o entrevistado, não concebo a ideia que um autarca, seja qual for a sua função, seja do poder ou da oposição, possa opinar ou decidir sobre políticas culturais, desportivas, sociais ou outras sem conhecer as freguesias, sem visitar as entidades que promovem esse trabalho, sem falar com os seus dirigentes, sem assistir aos espetáculos, aos torneios, às atividades.

Mas a vida tem-me mostrado que é possível. Principalmente no que respeita às atividades culturais existe um grande desinteresse da maioria da classe política. O que tenho observado é que, à exceção dos responsáveis que comparecem em representação do órgão autárquico, é raro estar mais algum eleito presente…

Não os encontro no Teatro, nem na Biblioteca Municipal, nem no fórum de discussão sobre o Museu da Cortiça, não vão às palestras no Museu Municipal, não sabem o que se faz nos Polos de Educação ao Longo da Vida ou no CELAS, não estão nos concertos, na inauguração das exposições, nas homenagens aos corticeiros, nas comemorações do 25 de abril e outras datas históricas e das associações e clubes só conhecem (quando conhecem!) os da sua terra.
E, infelizmente, também são muito poucos os estão nos protestos pela saúde, nas marchas lentas, na luta pela reposição dos comboios.

A maioria dos eleitos do concelho coloca-se voluntariamente à parte de uma importante fatia da vida social da comunidade. Talvez por isso, as pessoas continuem a repetir a velha expressão “só aparecem nas eleições”…

Não é por serem poucos (temos mais de 100 no concelho) que não os vemos a participar. É porque, para muitos, a sua eleição resume-se ao ato em si e em participar nas assembleias ou reuniões para que são convocados.

Falta aos partidos políticos um trabalho preparatório dos candidatos, que os consciencialize das suas responsabilidades perante a comunidade que passam a representar a partir do momento em que tomam posse. E falta os eleitos assumirem que só podem representar e defender devidamente as suas comunidades se as conhecerem, em todas as suas vertentes. Para isso é preciso ir, ver, falar, intervir.
É urgente uma renovação de mentalidades, que possibilite uma abertura de horizontes, que cultive a capacidade de se interessar e admirar mesmo aquilo que (à partida) não se enquadra no gosto pessoal.
Constatar a ausência do cidadão comum é triste. Constatar a ausência do cidadão com responsabilidades ainda é mais.

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