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O papel da Cardiologia de Intervenção na prevenção do AVC

O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser a principal causa de morte e incapacidade permanente no nosso país. Nesta patologia, comparativamente com os outros países europeus, a nossa taxa de mortalidade destaca-se negativamente e o custo per capita é o 2º mais elevado. Um em cada três portugueses que sofrem AVC não sobrevive, metade permanece com sequelas major. 85% dos AVCs são de origem isquémica, sendo que destes, pelo menos 25% têm uma origem cardio-embólica.

O AVC é claramente uma doença passível de prevenção. O Cardiologista tem aqui um papel fundamental: a) participando no rastreio e tratamento dos factores de risco vascular clássicos (tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, sedentarismo, obesidade, stress); b) diagnosticando e tratando arritmias que predisponham ao AVC (como a fibrilação auricular); c) intervindo a nível da doença cardíaca estrutural que provoque aumento do risco de AVC.

É este último ponto que se situa o campo de atuação da Cardiologia de Intervenção, uma sub-especialidade da Cardiologia. A redução do risco de AVC é conseguida fundamentalmente através de três tipos de procedimentos:

Encerramento do Apêndice Auricular Esquerdo (AAE): a fibrilhação auricular é uma arritmia comum, cuja prevalência aumenta com a idade. O pulso é irregular e as aurículas deixam de contrair, pelo que aumenta a estagnação do sangue nessas cavidades (em particular numa extensão da aurícula esquerda denominada AAE), com consequente aumento da probabilidade de formação de trombos (coágulos), com potencial de migrarem para a circulação cerebral, provocando o denominado AVC cardio-embólico.

O tratamento de primeira linha para evitar a formação desses trombos são os fármacos anticoagulantes. No entanto, uma percentagem significativa de doentes (até 25%) não pode tomar este tipo de medicamentos, em virtude de já terem sofrido hemorragias graves, ou apresentarem patologias que impliquem um risco hemorrágico muito elevado, ou simplesmente não tolerarem ou aderirem devidamente a este tipo de terapêutica (até 30%).

Para estes doentes, o encerramento do AAE, um tipo de cateterismo que é efetuado sob sedação consciente e anestesia local, usando a veia femoral, surge como uma técnica muito eficaz e segura, uma alternativa aos fármacos anticoagulantes (pelo menos não-inferior) e uma evolução na prevenção não-farmacológica do AVC. Em centros de grande experiência, a taxa de sucesso ultrapassa os 95% e as complicações ficam abaixo dos 3-4%;

Encerramento de foramen oval patente (FOP): o FOP é uma condição cardíaca congénita em que um orifício entre as aurículas não encerra ao nascimento. Em determinadas circunstâncias, e com características anatómicas específicas, pode ser uma causa de AVC (denominado como criptogénico), particularmente em doentes jovens.

Por cateterismo femoral, apenas com anestesia local na virilha, é também possível encerrar esse defeito na parede interauricular, através da implantação de um dispositivo específico que ficará integrado na anatomia;

Angioplastia carotídea: em doentes com aterosclerose (placas) severa, obstrutiva, das artérias do pescoço, principalmente se sintomáticos, com menos de 75 anos e com alto risco de intervenção carotídea cirúrgica, a angioplastia (dilatação) por cateterismo dessas lesões, com implantação de uma prótese circunferencial (stent) que assegure a permeabilidade do vaso, demonstrou benefícios em termos de prevenção de AVC.

Em conclusão: todos os Cardiologistas devem estar envolvidos na prevenção, diagnóstico e tratamento do AVC. Devem trabalhar em conjunto com os colegas de Neurologia, Neurorradiologia e Medicina Interna, tendo em vista a melhoria do prognóstico do doente pós-AVC e diminuindo o risco global dos doentes de alto risco pré-AVC. A Cardiologia de Intervenção tem um importante papel específico nos encerramentos do apêndice auricular esquerdo e foramen oval patente, bem como no tratamento da doença carotídea grave.

A Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) é uma entidade sem fins lucrativos. Para mais informações consulte: www.apic.pt

Artigo de opinião de Lino Santos, Cardiologista de Intervenção, Responsável do Grupo de Intervenção estrutural não valvular da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular

 

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