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Memórias: Homenagem ao fotógrafo Augusto Pires Martins

Na secção Memórias recuperamos o trabalho publicado aquando da homenagem prestada ao fotógrafo Augusto Pires Martins, que fotografou inúmeras gerações de messinenses. Um artigo publicado na edição nº 30, de dezembro de 2002.

 

HOMENAGEM AO FOTÓGRAFO AUGUSTO PIRES MARTINS

Aconteceu no dia 16/11/2002, na Casa Museu João de Deus, em S. B. de Messines, uma homenagem ao fotógrafo Augusto Pires Martins, homem que trabalhou muitos anos em S. B. de Messines e que, por via de ofício, fotografou gerações.

A homenagem decorreu num simpático  clima de amizade, onde foram muitos os que “in vivo” quiseram prestar tributo ao “Sr. Augusto” e agradecer-lhe sentidamente o trabalho que durante décadas prestou aos Messinenses.

Aurélio Nuno e Paulo Penisga falaram do homenageado e da sua profissão, enquanto o vereador da Câmara Municipal, Rogério Pinto, agradeceu a doação feita por Augusto Martins à Casa-Museu João de Deus.

Augusto Martins, ao longo da sua vida de duro labor, fotografou Messines e os seus sob os mais diversos ângulos e perspectivas. Digna de realce, pela sua raridade, é uma foto em que a Vila se mostra completamente coberta com um manto branco de neve – sim, neve.

O espólio fotográfico de Augusto Martins encontra-se patente na Casa-Museu, até 16 de Dezembro, uma exposição que merece uma visita demorada.

Paulo Penisga, Augusto Martins, Rogério Pinto, Aurélio Cabrita (da esquerda para a direita)

 

Homenagem a Augusto  Martins

O seu percurso

Quando em Fevereiro tomei conhecimento que o Sr. Augusto pretendia aposentar-se, recordei-me da cerimónia dos Agraciados do Município que a Câmara de Loulé realiza todos os anos em Loulé, no Dia da Cidade.

Tratava-se neste caso de homenagear alguém que, apesar da sua jovialidade, tem 82 anos, e que foi marceneiro, cabeleireiro e que encontrou na fotografia a sua paixão.  Augusto Pires Martins nasceu em Lagos, a 23 de Novembro de 1919, aos 18 meses parte para Faro onde permanecerá até aos 20 anos, exercendo a profissão de marceneiro. Casa então com a sua prima D. Virgolina Guerreiro Neves e muda-se para S. B. Messines.

Começa por ajudar a esposa como cabeleireiro, acabando por frequentar um curso em Lisboa, para o efeito.

De volta a Messines, Augusto Martins é confrontado com as lamentações das noivas por não haver um fotógrafo na terra. Realiza então a primeira reportagem, uma segunda, e todas as outras que lhe são solicitadas. O rés do chão da sua casa transforma-se lentamente num atelier fotográfico. Por fim acabará por abraçar a fotografia como profissão. Parte de novo para Lisboa onde frequentará um curso de fotografia. De volta á terra adoptiva, acabará por dedicar grande parte da sua vida a fotografar o quotidiano messinense:

  • Os principais acontecimentos que marcaram a história da localidade;
  • O Próprio crescimento urbano;
  • A recolha e restauro de películas antigas, que graças a ele chegaram até nós;
  • Tudo isto sem esquecer as centenas de casamentos, baptismos, e os milhares de retratos que efectuou a várias gerações de messinenses dos mais variados estratos sócio- económicos.
  • Participa ainda em vários concursos de fotografia artística, registando recantos, paisagens, personagens típicas da terra e não só.

 

Agora com o encerramento do atelier fotográfico, todo aquele espólio recolhido no seu dia a dia, ao longo de décadas, corria o risco de se perder para sempre, em qualquer contentor de resíduos.

Mediante o exposto sugeri à Câmara Municipal de Silves, através da Casa Museu João de Deus que esta se tornasse guardiã de tão valioso espólio fotográfico, caso o Sr. Augusto manifestasse essa vontade. E procedesse de qualquer forma, Câmara Municipal de Silves, a uma homenagem de reconhecimento em nome de toda uma população que representa (messinense e concelhia) ao Sr. Augusto pela sua dedicação a Messines e às várias gerações de messinenses.

O Sr. Augusto concorda na cedência do seu espólio fotográfico adicionando-lhe alguns instrumentos acessórios, imprescindíveis á fotografia, alguns dos quais aqui presentes. Aproveita ainda para legar, até ao momento, mais de uma centena de livros e algumas cassetes de vídeo a esta casa.

Quanto à homenagem aqui estamos hoje para que de uma forma singela, mas sincera, homenagear este homem, que registou os principais acontecimentos realizados nesta terra nos últimos 50 anos, bem como todo o modus vivendi permitindo-nos reviver hoje esses acontecimentos, porque o fotografo esteve lá, o mesmo fotografo que agora lega o seu espólio ás gerações presentes e futuras. Um espólio riquíssimo, valioso e único, que urge bem conservar.

Assim antes de terminar quero agradecer: ao Sr. Augusto por tomar esta atitude tão nobre e digna de confiar tão vasto e rico espólio a esta casa, e consequentemente a todos os messinenses e gerações futuras, evitando que o mesmo se perdesse para sempre, como infelizmente tantas vezes acontece; e à Câmara Municipal de Silves por ter aceite a minha sugestão de agraciar o homenageado, constituindo o ponto alto das comemorações do 5º aniversário da Casa Museu João de Deus;

Deixo ainda um repto à autarquia, para que no próximo ano em que se comemora o 30º Aniversário de elevação desta povoação a vila, se edite um livro utilizando algum espólio do Sr. Augusto e a sua preciosa colaboração. Em suma com a história desta terra nos últimos 100 anos em fotografia. jugo que este seria o culminar desta homenagem que aqui hoje se efectua.

Ao Sr. Augusto uma salva de palmas.

Aurélio Nuno (Intervenção lida na homenagem)

Mais do que assinalar uma homenagem

 Mais  do que para assinalar uma homenagem, estamos aqui  para prestar um tributo a um  fotógrafo.  Se me permitem um Senhor fotógrafo. Ele é de facto um homem simples mas é ao fim e ao cabo nas coisas simples e humildes  que se descobre a importância deste seu trabalho. O trabalho da sua vida.

Hoje em dia toda a gente tira fotografias, mas muito poucos FAZEM fotografia. O Sr. Augusto  é daqueles que conhece o cheiro dos químicos e os seus segredos, os vários tipos de papel fotográfico, as contas que era preciso fazer para fotografar e que trata por tu os complicados mecanismos da máquina fotográfica. Um mágico, que passou metade da vida enfiado na câmara escura, câmara encantada, que transforma o clic da máquina fotográfica em prova palpável da nossa existência, que traz à luz do dia as fotografias “daquela viagem”  e que eram o atestado de como estivemos mesmo lá naquele sítio.

O fotógrafo não é mais que um ser, anónimo, que nos entra pela vida adentro e que dela  “rouba” pequenos mas por vezes decisivos momentos.  Imprescindível nos nossos baptizados, na nossa primeira fotografia “oficial”, na primeira comunhão, nos nossos casamentos…

Alguém pode conceber um casamento sem um fotógrafo?

-A noiva está pronta! Onde é que está o fotógrafo? Os padrinhos chegaram, vai lá chamar o fotógrafo!

No jardim, as fotos da praxe, uma constelação de gente a girar em torno do fotógrafo, umas vezes amado, outras odiado.

As fotos para a escola, as fotos na escola com os nossos colegas e a professora, as fotos para o BI, a foto para o namorico, onde é que anda o fotógrafo?

Por detrás da câmera, Clic! Clic! A guardar a nossa memória. E é preciso cuidado porque está sempre lá um…

De geração em geração, pedaços de papel, passam de pais para filhos, pedaços que guardam os que já partiram, os que nos são queridos, ou momentos que só acontecem uma vez, uma fracção de segundo, Clic! Clic! Lá está o fotógrafo a arquivar a nossa vida, a fotografar a nossa terra, as nossas ruas, as nossas casas, as nossas gentes, os nossos costumes, a navegar através da vida  dum povo, torna-se assim  parte dele e cabe-nos a nós todos recordá-lo : O guardião da nossa memória.

Conheci o Sr. Augusto

Na sua loja, onde passei tardes infindáveis à conversa, “pendurado” no balcão, porque o tempo às vezes escoa-se devagar e devolve-nos o prazer da conversa. E era com prazer que ia à pequena loja, suspensa no tempo, como se ela própria fosse uma fotografia do arquivo do Sr. Augusto, com o pretexto de comprar pilhas, e sair de lá, horas mais tarde porque estava na hora de fechar…

 

Nuno Jesus

 

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