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Opinião

Dezembro

António Guerreiro
Última Atualização: 2017/Dez/Qua
António Guerreiro
8 anos atrás
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Aí está ele, o mês de dezembro. O mês dos dias pequenos e, em consequência, das noites grandes, o mês do meu aniversário, da dádiva natalícia e da despedida do calendário.
Recordo aqueles calendários do mês de dezembro, em geral, apenas até ao dia de natal, em que, em cada dia, existia uma janelinha com um número e uma decoração e, por detrás da respetiva portada, de cada uma das aberturas, um pequeno bombom quadrangular, com uma espessura mínima, embrulhado numa pratinha colorida. Esses calendários eram tão bonitos que dificilmente se destapava cada dia e se comia o respetivo chocolate, antes da época natalícia.

Tudo parecia ingenuamente simples e pequeno, como se os próprios chocolates fossem sempre minúsculos e apresentáveis em formas elegantes.

Os invólucros prateados, com formas coloridas, prolongavam o pobre natal, muito para além do dia vinte e cinco de dezembro, enfeitando um livro ou um caderno escolar, após serem alisados com todo o cuidado do mundo. Nessa pequeníssima coleção de chocolates, gulosamente recebida no dia de natal, existia sempre um pai natal em chocolate, oco e quebradiço, e uma sombrinha maciça, simplesmente deliciosa, em chocolate de leite.
Os guarda-chuvas abrigavam-nos da água, no caminho para a escola, com um barranco ao fundo, inundado de esgotos e do sangue dos animais que, em dor, berravam no matadouro, gerando em nós uma total indiferença perante a morte. Animais de algum porte, como as vacas ou mesmo os porcos, entravam no matadouro e eram esquartejados, ali mesmo, e os dejetos atirados para a pequena corrente de água que enlameava as nossas botas de borracha. Eram as férias do natal e o meu aniversário, simbolicamente vivido com um quinhão de bolos caseiros, vendidos em pequenas fatias de pão-de-ló, e de bolos secos de amêndoa.

Tudo simples, subíamos às cadeiras, na batida da meia noite, para crescermos, mais um pouco, e batíamos tampas de panelas para anunciar o ano seguinte e, de novo, voltávamos à escola. Para mim, essa escola primária era universal, a outra, a secundária, não, isso eu já sabia. Quando fui à inspeção militar, tinha dezanove anos, dos quase duzentos mancebos, desse dia, a nossa instrução descrevia uma inquietante continuidade entre os quatro jovens que tinham o ensino secundário e os outros quatro que não sabiam ler nem escrever. Nesse dia descobri que nem a escola primária era universal.

Gosto do mês de dezembro, o mês em que início sempre novos ciclos de vida. Neste momento tudo é diferente, os chocolates e demais doces são proibitivos, as carnes vermelhas, por vezes, sempre com muito verde das saladas ou vegetais, o álcool ou bebidas açucaradas, ainda bem que existe o imposto.

Neste feliz mês de dezembro, muda a folha do calendário, até janeiro de 2018.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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