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Um mês agitado

Creio que Janeiro nos trouxe dois assuntos verdadeiramente incontornáveis: Donald Trump e a votação da TSU.
De Donald Trump poderíamos dizer que é um político que cumpre o que promete e fá-lo de uma forma muito rápida (não sei se eficaz). O que, dito desta maneira, até nem parece mal. Porém, quando vamos ao conteúdo daquilo que cumpre deixa-nos um calafrio terrível que nos recorda tempos passados. De facto Trump cumpre, mas o resultado desse cumprimento redunda num atroz atavismo que faz ressurgir os nossos piores receios enquanto sociedade.
O completo encerrar-se ao outro, o começar a olhar apenas para nós, buscar sermos os primeiros independentemente do resto e, por fim, o validar que tudo é permitido (incluindo a tortura) deixam-nos um estranho sabor na boca.
A democracia tem destas coisas, dá-nos a possibilidade de escolhermos aqueles que poderão ser a nossa perdição. No limite apenas nos poderemos culpar a nós, afinal de contas fomos nós que os escolhemos. Claro que poderemos dizer “eu não escolhi ninguém, não fui votar”. Pois aí é que está um terrível erro e embuste da nossa sociedade, todos aqueles que não votam, votam, indirectamente, em quem não querem, não desejam e, sobretudo, não merecem.

Há muito que a sociedade e os políticos andam de costas voltadas, e Trump mais não é do que uma consequência desse progressivo afastamento. Nestas falhas há sempre oportunidade para que algum Trump ressurja e nos brinde com uma sucessão de decretos (assinados com a devida pompa), cujo objecto acreditávamos perdido lá atrás.

Este é um assunto bastante sério pois os resultados de toda esta “experiência” serão imprevisíveis, num mundo assente em equilíbrios cada vez mais frágeis. Espero para o bem de todos que Donald Trump compreenda que ser Presidente de um país é, totalmente, diferente de ser presidente do conselho de administração de uma qualquer empresa. O único ponto de contacto é apenas a palavra “Presidente” e tudo o resto (até o conteúdo das funções e definição) diverge.
Janeiro, de novo a recordar-nos essa divindade (Jano) que olha para o passado e para o futuro, numa perturbante analogia com os tempos que vivemos.

Mas saindo dos Estados Unidos e regressando ao nosso país. Janeiro foi profundamente marcado pela votação da TSU (taxa social única). Este tema trouxe para a luz da ribalta o mesmo interveniente que acordou após as últimas eleições legislativas: O Parlamento ou, se preferirmos, a Assembleia da República.
Se bem se recordam quem nos governa não é quem ganhou as eleições, ou seja o partido, ou coligação, mais votado. O nosso governo foi escolhido em sede parlamentar, resultado de um concerto obtido entre os três partidos, individualmente menos votados, mas que no seu conjunto permitiam sustentar uma maioria que garantisse a necessária estabilidade de um governo. Ora na TSU, o Parlamento voltou a funcionar. Dito de outra maneira, a maioria que sustenta o governo não aprovou este detalhe do acordo de concertação social, e o PSD (que desde sempre afirmou não ser muleta de ninguém) também não concordou com os termos em que a TSU era reduzida. Honestamente não vejo porque é houve tanta confusão no parlamento, só porque este funciona. Nem vejo motivos para que tivesse havido tantas acusações de incoerência: este foi um processo regido sempre pelo mesmo princípio, as maiorias obtêm-se negociando entre todos os intervenientes, com cedência e ganhos mútuos.

Não é essa a pedra de toque da democracia?

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