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História & PatrimónioSociedade

A antiga casa da Câmara de Silves

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2016/Jan/Ter
José Manuel Vargas
10 anos atrás
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Antes da construção do edifício dos Paços do Concelho de Silves, em finais do século XIX, a sede do poder municipal estava instalada no torreão medieval das portas da cidade que chegou quase intacto aos nossos dias e onde, até há poucos anos, funcionava a biblioteca municipal.

Os antigos Paços do Concelho. Foto de Pedro M. Júdice, 1934
Os antigos Paços do Concelho. Foto de Pedro M. Júdice, 1934

A primeira notícia conhecida sobre a utilização da velha torre para as reuniões do concelho data do séc. XIV e diz respeito a uma assembleia realizada em 13 de Julho de 1383 para nomear os procuradores de Silves às Cortes de Santarém:

“Saibam quantos esta carta virem que nós Gil Gonçalves e Vasco Eanes, juízes, João Afonso e Afonso Eanes, vereadores, Vasco Martins, procurador do concelho da cidade de Silves, e Afonso Martins e Pero Fernandes, Fernão Vasques, Fernão Martins, Lourenço Eanes, Gonçalo Eanes, Afonso Peres, Afonso Martins, Gonçalo Gil e Martim Vicente e os outros homens bons do concelho da dita cidade e de seu termo, sendo juntos em nosso concelho na torre do concelho dessa cidade (…).” (publ. Cortes Portuguesas, Reinado de D. Fernando I, 1993, p. 331).

No século XV, provavelmente no reinado de D. Afonso V, foi colocado um brasão com as armas reais sobre a porta de acesso à antecâmara (casa da audiência) da sala maior (casa da câmara) onde se faziam as reuniões da vereação. O brasão, então colocado e ainda existente, assinalava a posse régia da torre usada pelo concelho.

Em meados do séc. XVI, além da “casa do concelho” na torre havia uma outra: “A casa do concelho da dita cidade é da coroa do Reino e lhe pertence como direito real, a qual está à porta da dita cidade entre duas torres e parte com o muro da dita cidade de uma parte e da outra com casas de Pedro Vaz e são duas casas, uma nova de entre ambas as torres e outra em uma torre grande (publ. Miguel Côrte-Real, Tombo do Almoxarifado de Silves (1552-1553), Silves, 2007, p. 57).
As duas janelas que ainda hoje se observam na “torre grande” já existiam nessa época, pois foi a partir delas que D. Sebastião e outros fidalgos assistiram a uma tourada, aquando da sua visita a Silves em 27 de Janeiro de 1573: “à tarde teve touros, os quais foi ver da Câmara da Cidade, onde lhe concertaram uma janela. E o Senhor D. Duarte e o Duque de Aveiro os viram de outra.” (João Cascão, Relação da Jornada de El Rei D. Sebastião quando partiu de Évora, 1573)

Tanto a casa da câmara como a casa da audiência sofreram as consequências do terramoto de 1 de Novembro de 1755: “A cidade de Silves, que dista uma légua deste lugar e que tinha neste tempo a sua grande feira, perdeu-se a sua Sé, Torre, Castelo e Muralhas, Casa da Câmara e da Audiência, a Cadeia, um Convento de Religiosos Terceiros de S. Francisco, situado fora dos seus muros, e ruas inteiras ficaram arruinadas, perdendo-se nelas infinita gente, que se anda desenterrando para se lhe dar sepultura, e as fazendas de mercadores, ourives, e outros oficiais”. (carta de 3 de Novembro de 1755, publicada na Gazeta de Lisboa).

A reconstrução das duas casas (audiência e câmara) não foi imediata, nem conservou as abóbadas de cantaria, como se deduz das informações paroquiais de 1758: “A nobreza da casa da câmara, que sendo muito grande e formada sobre uma torre, era coberta de abóbada, e a casa da audiência em igual correspondência formada sobre arcos em segura cantaria”.
Ainda actualmente se pode observar que a antiga casa da audiência é sobradada e com um tecto estucado sobre masseira, enquanto a chamada casa da câmara tem uma cobertura de madeira e não abobadada como a primitiva. De assinalar que o tecto com estuques ainda deve corresponder à reconstrução pombalina, enquanto o tecto piramidal de madeira no salão onde funcionou a câmara será talvez das obras dos Monumentos Nacionais nos anos 40-50.
Estas alterações são pormenores que não desvalorizam a importância histórica e patrimonial da antiga casa da câmara de Silves, uma das raras torres concelhias medievais que, junto com a Torre da Almedina, em Coimbra, manteve a sua configuração original.

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TAGGED:Camara de SilvesJosé Manuel Vargas
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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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