Memórias Breves: Manuel Teixeira Gomes, Um homem na Europa

A 6 de Agosto de 1923, os 193 congressistas elegeram, entre, Bernardino Machado, Duarte Leite, Augusto Soares e Magalhães Lima, o Algarvio Manuel Teixeira Gomes, para a Presidência da República Portuguesa. Os Congressistas sabiam que acabavam de fazer uma escolha de sentido patriótico, confiantes de que assim poderia haver continuidade no sistema Republicano, em Portugal. Só o eleito era portador do prestígio que a República carecia para a sua sobrevivência. O semanário de Faro, “O ALGARVE”, publica ( 12/08/1923), numa notícia de vinte palavras, que foi eleito Presidente da República .

“O nosso comprovinciano sr. Manuel Teixeira Gomes, que há anos exerce em Londres o cargo de ministro de Portugal. O senhor presidente da  república eleito assume as suas funções  constitucionais em plena crise de um Estado que originou a crise da Nação. Na realidade através da guerra – o que estabeleceu o Estado? O Estado estabeleceu o regime de saque nacional! Que vai às derradeiras consequências. De onde partiu o exemplo? O exemplo  partiu de cima, isto é, dos dirigentes da mais perdulária governação pública de que a história tomará conta”.

A 20 de Setembro de 1923, Manuel Teixeira Gomes regressara da Escócia a Londres, onde estivera como hóspede, no castelo de Belmoral, a convite da família real britânica. O  governo inglês despedia-se do diplomata português , num banquete em sua honra e, pondo à disposição do eleito presidente , o cruzador Carysford.

Teixeira Gomes deixa Londres onde granjeara respeito e admiração tanto como  diplomata, como escritor. Embarca em Plymouth. A caminho de Lisboa, teria o  presidente eleito  meditado na exacta situação  política em que se Portugal se encontrava !? Porque era um lutador e também um homem vitorioso.

A 3 de Outubro, o novo presidente desembarcava, no então Arsenal da Marinha. O povo não se esquivou em ir receber o Homem escolhido. E aclamou-o… E assim vai em festejo popular até ao 5 de Outubro, em que o Algarvio, presidente de todos os portugueses… jura, pela sua  honra, manter e cumprir  com lealdade e fidelidade a Constituição da República Portuguesa , numa afirmação marcante :

“Senhores Senadores da Nação, muito lhes agradeço a honra que me fizeram elegendo-me Presidente da República. O Juramento que acabo de fazer torna cioso e inútil  qualquer  declaração  ou  promessa sobre o modo como tenciono cumprir as obrigações do meu cargo. É quase angustiosa a crise que atravessam todas as nações europeias que entraram na grande guerra, a crise financeira, a crise económica, crise política. De todas as crises padecemos nós também. Vastos são, porém, os recursos naturais da nossa Pátria. Foi do patriotismo do Povo português, do seu ardente amor à Liberdade, da sua coragem em defender as regalias conquistadas à força de tantos sacrifícios e à custa de tanto sangue pelo Constitucionalismo e pela República.  Também esse Povo  que trabalhará sem descanso para fortalecer essas constituições, dignificando-as”.

A imprensa regional, em idolopeia regista o acontecimento, mais mundano que político, à investidura do presidente. Os industriais, partidos políticos, associações diversas, do Algarve, enviaram as suas manifestações de simpatia ao novo presidente que chegava conhecedor da situação, e na esperança para novas introduções ao sistema tão debilitado pelos opositores de raiz. A Associação Comercial e Industrial de Faro enviou o seguinte telegrama:

Exmo Senhor Presidente da República:  No momento solene em que V.Exa. acaba de receber da Pátria o mandato que ela lhe confere, a C.I.F. associa-se às merecidas homenagens da Nação, entusiasticamente saúda o Português e Algarvio, por todos os títulos ilustre, que tão acertadamente o país escolheu para a sua máxima representação e faz votos de confiança sincera pelas prosperidades da Pátria e por que elas corram paralelas às da província que lhe foi berço. Saúde e fraternidade. O Presidente Silvestre Ortigão.”

Servimo-nos dos dois órgãos da comunicação regional mais influentes no tempo, os semanários, de Faro: ”CORREIO DO SUL” e “O ALGARVE”. O primeiro dirigido pelo poeta Bernardo de Passos e o jornalista António Santos. E o decano da imprensa algarvia dirigido pelo republicano conservador, Ferreira  da Silva. O jovem universitário de direito, José Dias Sancho, enviava de Lisboa  a reportagem da chegada de Teixeira Gomes ao palácio de Belém, e que o “Correio do Sul” publicou, 14/10/1923:  “Lisboa vibrou com a chegada do sr. Teixeira Gomes, novo Presidente da República- Artista e Algarvio, qualidades que sobremaneira me são queridas  ao coração. Da minha janela vejo passar, lá em baixo, no Tejo,, o “ Carysford”, entre o navio de guerra espanhol,  “Reyna Victória Eugénia” e os quatro barcos portugueses que os foram aguardar fora da barra. O novo Presidente ouviu as aclamações, que outrora, era uso, prestar às famílias reais. Muito admirados haviam de ficar os homens que acreditam no privilégio do sangue… Teixeira Gomes encheu Lisboa com o ressoar do seu nome.”

Manuel Teixeira Gomes

Ainda o pintor Augusto Lyster Franco, dirigente do Partido Republicano do Algarve, não deixou passar a oportunidade para saudar o  escritor presidente, e enviou saudações, logo após a sua posse, nos seguintes termos: Exmo Sr. Presidente da República, o P.R.A. (Partido Republicano do Algarve) tem a subida honra de apresentar as mais respeitosas saudações a V. Exª. Pela Comissão Politica. Augusto Lyster Franco”. Mas é de Portimão que vem a maior manifestação popular pela eleição do mais alto lugar da hierarquia portuguesa, num seu filho, o mais ilustre. E a imprensa regional fez disso testemunho:  “Foi enorme a comoção e alegria que se apoderou da população de Portimão ao ser conhecida a chegada do Presidente da República. Nos rostos sinais da maior felicidade e lágrimas de orgulho. Em sinal de regozijo houve música no cais desta vila. Tendo a Câmara iluminada a fachada.”

Mas que país era esse da esperança para muitos, e ódio para alguns, que o novo presidente veio encontrar, a 5 de Outubro de 1923? Um país, como o algarvio eleito, reconhecido no momento da sua investidura, carecido de tudo, numa Europa entre as fronteiras e os abismos, de fascismo e de políticas incertas? E a população portuguesa, em dois graus, contando-se em 1923 de 5.960.050 num analfabetismo de 4.473.078, dividido entre 59,06 % de mulheres e  40,94%  de homens. Quanto à saúde pública, o país era, preocupantemente, doente. A sua natalidade corria os perigos mais gravosos de toda a Europa. Já o responsável pela saúde pública do Algarve, o monárquico José Filipe do Carmo, punha em público a situação caótica do primeiro hospital do Algarve – o Hospital da Misericórdia.  (Ver a minha publicação “Médicos em Faro : José Filipe Álvares “= F. D. 11/01/2019).

E publicava Filipe Álvares, em 1923 :  “ O Hospital da Misericórdia de Faro, com o nome pomposo de Hospital de Misericórdia, que não é mais do que uma morgue onde o papel mais importante do médico é o de passar certidões de óbito”. Informava, ainda, no seu relatório sobre a morte infantil no Algarve, que só no concelho de Portimão, nos anos 1922/23, já haviam falecido 400  crianças.

 Quanto  ao desemprego, era ver os cordões de pedintes que se formavam pelas cidades e vilas do Algarve sem nenhum apoio social. Entretanto, no  Algarve, vinha-se anunciando novos investimentos, nos que conseguiram acumular  capitais em fins da 1ª guerra.

Apesar da grave crise financeira e económica que atravessávamos, registam-se os progressos na indústria da província do Algarve. Em Faro a  Companhia de moagens aumenta capitais e circulam automóveis. Em Olhão abrem-se fábricas, em fundições de ferro e  bronze e fábricas de peixe, nessa continuidade precária. Em Portimão, Lagos e Vila Real, novas fábricas mecanizadas na conserva de peixe. Mas os áugures da ditadura também se apregoavam na imprensa. Já ao Parlamento se tomam as culpas dos nossos males. Grita-se pelos cafés que o que é preciso para salvar isto é uma ditadura!  Os ventos sopram em determinações europeias, em sopros políticos de Mussolini e de Hitler. O Presidente da República – Manuel Teixeira Gomes sente-se rodeado de ataques pelo Partido Nacionalista de Cunha Leal. O Presidente da República prevê o estabelecimento de uma ditadura. O cerco ao Presidente está determinado. Manuel Teixeira Gomes, a 12 de Dezembro/25 abandona o palácio de Belém. Instala-se na sua casa da Gibalta, onde permanecerá até à sua partida para o exílio voluntário em Bougie, pequena cidade argelina. Até  à sua morte, no Hotel  L´Etoile. A  família Berg, proprietários do hotel, conduz o corpo mortal para o jazigo  de sua propriedade, onde ficou até ao regresso  à sua cidade de Portimão a 18 de Dezembro de 1950.

(Um excerto das minhas 25 publicações no semanário de Faro- “O ALGARVE”,  entre : 1985/1988 : “MANUEL TEIXEIRA GOMES- O PRESIDENTE DA MEMÓRIA)

Veja Também

Novo conjunto escultório na Zona Ribeirinha de Silves

Quem visitar a Zona Ribeirinha de Silves poderá agora encontrar, junto à passadeira vermelha, um …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *