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Opinião

Autárquicas 2017 – A derradeira oportunidade?

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2017/Set/Ter
Aurélio Cabrita
9 anos atrás
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O poder local prepara-se para encetar um novo ciclo a partir do próximo dia 1 de outubro. O país e o Algarve em particular têm vindo a atravessar no último ano um tempo de bonança, de tal forma que muitas autarquias depauperadas financeiramente viram a sua situação alterar-se de um pesado défice para um superávite (excedente).

Todavia, a incerteza que se vive a nível mundial, com uma hipotética “corrida” às armas, seja pelos Estados Unidos ou pela Coreia do Norte, a cada vez mais evidente ascensão da China a primeira potência mundial, a agonia/ implosão da União Europeia, a perda de fulgor da maioria das democracias ocidentais, ensombradas pelos populismos/regimes totalitários, ou ainda o terrorismo internacional, devem-nos causar alguma preocupação. Na verdade o mundo nunca foi estático, mas sim extremamente dinâmico, e o “nosso mundo”, que parece estar a esboroar-se, é ainda o reflexo da II Guerra Mundial, terminada há mais de 70 anos.

Os próximos autarcas, especialmente das câmaras municipais, presidentes e vereadores, têm por isso um papel crucial nestes tempos de mutação, não só fruir dos ventos favoráveis, como traçar estratégias para os seus concelhos, que tornem a sua gestão mais eficiente e sustentável, permitindo a breve prazo atravessar com maior facilidade a tempestade, que parece despontar no horizonte. É preciso pois que os candidatos estejam à altura das funções que vão ocupar, com visão, determinação, dinamismo e inovação, sob pena de virmos a desbaratar mais uma oportunidade, que pode ser decisiva.

No caso concreto do nosso concelho estas características ganham uma outra importância, pelo facto de nas últimas décadas os sucessivos executivos terem pautado a sua atuação, sobretudo, na resolução dos problemas do dia-a-dia, sem grande estratégia ou ambição a longo prazo. Tal não quer dizer que nada foi feito, pelo contrário, contudo muito ficou inexplicavelmente por fazer.

É certo que em Silves foram criados eventos âncora de grande sucesso, como a “Feira Medieval”, ou e mais recentemente, ainda sem histórico, a “1ª Mostra de Silves, capital da laranja”. Este último renascido depois de o modelo seguido nos anos de 1990 se ter esgotado, levando ao seu abandono.

Nas últimas décadas foram também concretizadas obras de grande envergadura, como o programa Polis em Silves, a requalificação da frente marítima de Armação de Pêra, a via dorsal na mesma vila, escolas, jardins, museus, piscinas ou mesmo estações de tratamento de águas residuais, um pouco por todo o concelho. Porém, e no campo destas últimas infraestruturas básicas, nomeadamente as redes de distribuição de água, com exceção de Silves e de uma parte de Armação, nada foi substituído, remontando os materiais das mesmas à sua construção, isto é, aos anos de 1960 (Algoz, Alcantarilha, Pêra, em 1964, S. Marcos, em 1966 e S. B. de Messines, em 1968). Situação incompreensível quando Portugal recebeu logo na década de 1980 fundos comunitários específicos para a sua substituição. Com uma vida útil de 30 anos, mantêm-se ao serviço mais de 50 anos depois, com perdas elevadíssimas de água, e como senão bastasse constituem a “espinha dorsal” de todas as condutas mais recentes.
Um outro exemplo é o Plano Diretor Municipal (PDM), que como o próprio nome indica é um instrumento fundamental na gestão do território. Aprovado em dezembro de 1995, com um prazo de validade de 10 anos, não obstante as várias alterações de que foi alvo, continua em vigor 22 anos depois. Apesar de diferentes executivos terem anunciado, por mais de uma vez, a conclusão do novo PDM, tal ainda não aconteceu, condicionando o presente/ futuro do território.

Por outro lado é primordial captar investimento privado, tornar o concelho atrativo, pois se excluirmos o empreendimento Amendoeira Golf Resort ou a Jerónimo Martins, foram muito poucos os empresários que aqui apostaram, gerando riqueza e fixando pessoas. Note-se que as freguesias de S. Marcos e S. B. de Messines têm vindo a perder população, pelo que se torna urgente corrigir essas assimetrias, com discriminações positivas, afinal só com emprego se pode fixar ou atrair população para o concelho.

Por fim, uma breve comparação com os municípios vizinhos permite-nos visualizar uma outra atuação, um outro dinamismo, que em Silves teima em não surgir, seja nos executivos permanentes ou não permanentes, salvo raríssimas exceções, e sem esquecer que a autarquia foi gerida nos últimos 30 anos por diferentes forças políticas. Aliás, a leitura das atas de vereação, onde ficam registados os assuntos discutidos e soluções apresentadas em cada reunião, demonstra esse vazio. A política local deve ser/ é muito mais que dar beijinhos e abraços, organizar festarolas ou tapar buracos.

Com um concelho multifacetado e repleto de potencialidades, sucessivamente desprezadas, devem os políticos estar à altura das suas responsabilidades, na defesa e valorização do território, na gestão sustentável dos recursos e acima de tudo conceber uma estratégia para o concelho.

Em suma que tornem Silves mais próspero, dinâmico e sustentável, pois só assim será mais fácil a travessia de uma tempestade que parece avizinhar-se, de dimensões e consequências imprevisíveis. Afinal, como diz a sabedoria popular, “candeia que anda à frente alumia duas vezes”, apressemo-nos pois a acendê-la.

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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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1 comentário
  • Guerreiro diz:
    19 de Setembro, 2017 às 20:23

    Concordo com este artigo, mas tenho que ressalvar algo, como exemplo: alterar muitas mentalidades que vêm de traz e foram-se enraizando nas gerações actuais, acabar com um poder burocrático que corrói a nossa sociedade.
    Comparar o nosso concelho com alguns concelhos vizinhos, é o mesmo que comparar um Ferrari com um renault, pois o concelho de Silves sofre de um grande atraso em relação aos mesmos, penso que esse atraso vem da muitos anos.
    Claro que o concelho de Silves podia ser muito mais desenvolvido, com outro tipo de dinâmica, pois para isso claro que tinha que existir outras mentalidades nas nossas gentes, lembro aqui um exemplo o centro prisional que era para ter sido construído na freguesia de S. B. Messines a alguns anos atrás, e logo ouve contestação por parte de algumas mentes retrógradas, claro que não foi construído por causa destas mentalidades, penso que os factos teriam sido outros.
    Os concelhos vizinhos terão uma maior dinâmica de desenvolvimento devido terem uma maior frente de mar comparativamente com o concelho de Silves que tem a maior parte do seu território na parte serrana.

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