O dia 1 Junho é o dia mundial da criança, o dia mundial de mim. Duvidam. Quem tem coragem de jogar fora tudo da criança que foi?
Infelizmente muitos. Eu, nem por isso. Espero conservá-la, sem tabefes nem descomposturas. Aguenta-te Betinho!
Por isso, quando acordo, ligo logo o traquinómetro. Sou um peixe-aranha (Trachinus), sempre à procura de um dedo do pé gordinho para ferrar espinhos venenosos. Nem sempre consigo.
Quem se aproxima sabe que vai soltar-se espinho ou parvoíce. E sai. Umas vezes aborrece. Outras pode doer levemente ou dar escangalho de riso.
Já a mãe Laura andava pejada e eu, por dentro, a tentar meter a unhita do indicador no seu umbigo. Queria fugir daquele esconso viscoso uterino. E ir respirar ao ar livre. Ser livre. Continuo assim, há muitas décadas.
Ainda vivi um quarto de século em prisão domiciliária. Quase. Queriam-nos dóceis, ou atemorizados nos cafés. Não fosse a bufaria ouvir falar mal do regime.
O regime, este, não era hipercalórico, pelo contrário. Havia muita gente a passar fome. E muita gente a dar o salto para melhorar a vida de cão ou fugir à guerra.
Nunca passei fome, felizmente. Mas não consegui escapulir-me da guerra. Penei por lá dois anos e mais um, antes, a aprender a arte. Regressei. Incólume. Tive sorte. Muitos dos meus camaradas (na tropa todos somos camaradas) regressaram em esquifes, mutilados ou perturbados.
Menos de um ano após o meu regresso de Moçambique, os militares de Abril ousaram devolver-nos a liberdade. Dívida gigantesca. Construímos a democracia. Misturámo-nos com todos. Organizámo-nos no que nos deu na real gana republicana, que fora interrompida há cem anos, a 28 de Maio de 1926.
Continuamos livres, há 52 anos. Continuo livre, como sempre quis ser. Aguento-me. Ainda faço birras. Como outrora, na imagem, com o fio de ouro ao peito e «Amor de Pae» gravado na medalha de ouro.
No embirrar é que vai o ganho. Perco sempre. E perdi a medalha em Paris, quando para lá fui continuar a estudar. A senhora portuguesa que me limpava o quarto surripiou-a com o fio de ouro.A senhora emigrante a governar a vida, outrora difícil. Governou-se mais do que devia.
O «Amor de Pae» deve ter aparecido no Marché aux Puces. Ou na Feira da Ladra, em Lisboa, onde se vendem objetos amados, esquecidos ou roubados. A ladra, perdão, a senhora estava em Paris. O «Amor de Pae» colou-se-lhe aos dedos. O amor de pai continua no meu peito para sempre.
O Dia Mundial de Mim que seja o Dia Mundial de Cada Um. Em liberdade. Cuidando do que é seu. Não fazendo seu o que é de outro. Cuidando das instituições públicas que a todos servem. A liberdade e a democracia precisam, cada vez mais, de cuidados preventivos primários.








