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Opinião

Dia Mundial de Mim

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2026/Jun/Sex
José Alberto Quaresma
2 horas atrás
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O dia 1 Junho é o dia mundial da criança, o dia mundial de mim. Duvidam. Quem tem coragem de jogar fora tudo da criança que foi?

Infelizmente muitos. Eu, nem por isso. Espero conservá-la, sem tabefes nem descomposturas. Aguenta-te Betinho!

Por isso, quando acordo, ligo logo o traquinómetro. Sou um peixe-aranha (Trachinus), sempre à procura de um dedo do pé gordinho para ferrar espinhos venenosos. Nem sempre consigo.

 

Quem se aproxima sabe que vai soltar-se espinho ou parvoíce. E sai. Umas vezes aborrece. Outras pode doer levemente ou dar escangalho de riso.

Já a mãe Laura andava pejada e eu, por dentro, a tentar meter a unhita do indicador no seu umbigo. Queria fugir daquele esconso viscoso uterino. E ir respirar ao ar livre. Ser livre. Continuo assim, há muitas décadas.

Ainda vivi um quarto de século em prisão domiciliária. Quase. Queriam-nos dóceis, ou atemorizados nos cafés. Não fosse a bufaria ouvir falar mal do regime.

O regime, este, não era hipercalórico, pelo contrário. Havia muita gente a passar fome. E muita gente a dar o salto para melhorar a vida de cão ou fugir à guerra.

Nunca passei fome, felizmente. Mas não consegui escapulir-me da guerra. Penei por lá dois anos e mais um, antes, a aprender a arte. Regressei. Incólume. Tive sorte. Muitos dos meus camaradas (na tropa todos somos camaradas) regressaram em esquifes, mutilados ou perturbados.

Menos de um ano após o meu regresso de Moçambique, os militares de Abril ousaram devolver-nos a liberdade. Dívida gigantesca. Construímos a democracia. Misturámo-nos com todos. Organizámo-nos no que nos deu na real gana republicana, que fora interrompida há cem anos, a 28 de Maio de 1926.

Continuamos livres, há 52 anos. Continuo livre, como sempre quis ser. Aguento-me. Ainda faço birras. Como outrora, na imagem, com o fio de ouro ao peito e «Amor de Pae» gravado na medalha de ouro.

No embirrar é que vai o ganho. Perco sempre. E perdi a medalha em Paris, quando para lá fui continuar a estudar. A senhora portuguesa que me limpava o quarto surripiou-a com o fio de ouro.A senhora emigrante a governar a vida, outrora difícil. Governou-se mais do que devia.

O «Amor de Pae» deve ter aparecido no Marché aux Puces. Ou na Feira da Ladra, em Lisboa, onde se vendem objetos amados, esquecidos ou roubados. A ladra, perdão, a senhora estava em Paris. O «Amor de Pae» colou-se-lhe aos dedos. O amor de pai continua no meu peito para sempre.

O Dia Mundial de Mim que seja o Dia Mundial de Cada Um. Em liberdade. Cuidando do que é seu. Não fazendo seu o que é de outro. Cuidando das instituições públicas que a todos servem. A liberdade e a democracia precisam, cada vez mais, de cuidados preventivos primários.

 

 

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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