Lixo, lixo, lixo. É um tema do dia a dia que nunca perde atualidade. Um protesto realizado por moradores de Odelouca e Porto de Lagos, contra os maus cheiros e infestação anormal de moscas e outras pragas, no dia 12 de março, voltou a chamar a atenção para o Aterro Sanitário do Barlavento.
Há 28 anos, a Câmara Municipal de Silves recusou a instalação do aterro no seu território. No entanto, o mesmo viria a ser construído na fronteira entre os concelhos de Portimão, Monchique e de Silves, encostadinho à freguesia de Silves. De lá para cá, os protestos dos moradores têm acontecido regularmente, por uma ou outra razão, Agora, além dos problemas já referidos, está em causa também a ampliação prevista do aterro.
No protesto, que teve o apoio do Município de Silves, representado pelo vice-presidente Maxime Sousa Bispo, o mesmo defendeu que, em lugar de se avançar para a ampliação, “o foco deve estar na correção das anomalias”.
São cerca de 500 os moradores que se queixam que os problemas provocados pelo aterro sanitário se têm agravado, talvez por este se encontrar muito próximo de esgotar a sua capacidade. Situação negada pela ALGAR, empresa responsável por aquela infraestrutura, que não lhe encontra problemas.

Mas esta situação do Aterro Sanitário do Barlavento é apenas uma das muitas que colocam o dedo numa ferida muito mais profunda, derivada de uma realidade que não pode ser ignorada: cada vez produzimos mais lixo.
Mais lixo significa mais recolha, mais tratamento, mais aterros. O que é agravado por umas estatísticas pouco simpáticas: embora a melhorar, estamos longe de sermos campeões na reciclagem e aderimos muito pouco às campanhas e iniciativas para a recolha seletiva. Quanto ao civismo, na hora de deixar o lixo, monos e resíduos no local e na hora certa, nem vale a pena falar… a triste realidade é visível por todo o lado…
O problema
Segundo revelados pelo Eurostat, no Dia Internacional do Resíduo Zero, em 2024, cada português gerou, em média, 519 kg de resíduos urbanos. São mais 67 kg do que há uma década, e um valor acima da média da União Europeia. Em 10 anos, o país acrescentou 67 kg por habitante, enquanto a média dos cidadãos na União Europeia é de 38 kg, no mesmo período.
Apesar de todas as campanhas e de todas as medidas, a trajetória do lixo é uma linha ascendente.
No Algarve, o tratamento do lixo é feito pela ALGAR, empresa com capitais privados que detêm a maioria da empresa e que tem ainda como acionistas minoritários os 16 municípios do Algarve.
Em 2024, entraram nas instalações da ALGAR 433.404 toneladas de resíduos. Dessas, 231.150 toneladas tiveram como destino direto a deposição em aterro, o que corresponde a 53% do total. Números que explicam porque não há aterro que aguente…
Mas se a ampliação contínua não pode ser a solução, há que encontrar outro caminho. Está em vigor, em Portugal, o novo Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos 2030- PERSU 2030, que estabelece as metas que todos os municípios têm que atingir.
O PERSU estabelece como metas gerais a prevenção de resíduos, o aumento da reutilização, mais reciclagem e outras formas de valorização com a consequente redução de consumo de matérias primas primárias.
Relativamente à meta para a reutilização e reciclagem a Algar atingiu 28% em 2024, mas até 2030 terá de aumentar para um mínimo de 60%. O cumprimento desta meta depende de vários factores, mas há um que está no centro de tudo – o cidadão comum.
E em Silves?
Alinhados com a realidade nacional, também no concelho de Silves produzimos cada vez mais lixo. Segundo os números da Algar, em 2022, foram 25.199 toneladas; em 2023 foram 25.708 toneladas; em 2024 subimos para as 28.124 toneladas.
O lado positivo é que também acompanhamos a tendência de fazer cada vez mais a separação do lixo. A partir de 2019, a recolha seletiva deu um sinal de vida, com um crescimento de 35% face ao ano anterior, havendo um salto significativo na separação do lixo nos ecopontos. E a partir daí, continuamos. Assim, em 2024, o concelho de Silves teve um dos maiores crescimentos percentuais de reciclagem no Algarve, de 36,6% , o que representa 545 toneladas. Destaca-se também a recolha de resíduos porta a porta, num total de 276 toneladas.
Independentemente destas tendências positivas, há um longo caminho a percorrer e o PERSU 2030 estabelece uma série de objetivos ambiciosos que impõem variadas alterações a aplicar pelas câmaras municipais, as quais, por sua vez, terão de as implementar junto dos seus cidadãos. Como exemplo: em 2025, Silves a taxa de captura para os biorresíduos foi de 8%, número que terá de subir para 13% em 2029.
Pode parecer fácil, mas não o será, se, como já foi dito, os cidadãos não fizerem a sua parte. Em 2025, a Câmara Municipal de Silves recolheu 26.923 toneladas de lixo.
Anualmente, cada habitante do concelho produz em média 712 kg de lixo, O que representa praticamente 2kg por dia. Cada um de nós.
As campanhas do Município de Silves
Muitas pessoas não terão dado por isso, mas a Câmara Municipal de Silves tem sido pioneira, no Algarve, na implementação de algumas medidas e campanhas.
A Campanha Lixo Zero-Ambiente 100%, lançada em maio de 2019, visando sensibilizar para a redução de resíduos, com foco no plástico e na diminuição da pegada ambiental foi a primeira de várias.
Em outubro de 2020, nas freguesias de São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra foi lançada uma campanha de compostagem doméstica e comunitária, na qual os cidadãos se podiam inscrever para receber compositores e baldes de compostagem. Esta campanha, pioneira na região algarvia, desenvolveu-se no âmbito de uma candidatura comunitária, financiada a 85% pelo Fundo de Coesão. Foi progressivamente alargada a todas as freguesias do concelho de Silves e distribuiu 319 compostores domésticos, um número relativamente modesto.

Em 2023, também num projeto pioneiro no Algarve, a autarquia de Silves passou a fazer a recolha seletiva de biorresíduos em Armação de Pêra, Alcantarilha, Pêra e Silves. Segundo a informação prestada ao Terra Ruiva, já foram recolhidas 543 toneladas de biorresíduos.
Um pouco mais tarde, no início de 2024, a Câmara Municipal deu início à Recolha Seletiva de Resíduos Porta a Porta, num projeto piloto na freguesia de Silves, nas zonas do Bairro Caixa d´Àgua, Urbanização Quinta do Lagar e Urbanização Quinta da Barrada.
O objetivo passava pela separação do lixo em casa, feita pelos moradores, o qual era depositado em baldes e contentores próprios, que seriam colocados na rua e recolhidos apenas em horários definidos previamente.
O projeto não foi bem recebido por uma parte dos cidadãos destas zonas, que desejavam continuar a deitar o lixo fora quando achassem necessário, ou desejassem, em vez de estarem sujeitos à recolha porta a porta, de acordo com o calendário estabelecido.
O projeto está agora em avaliação e estuda-se o alargamento a outras freguesias.
No entanto, sejam quais forem as reclamações destes ou de outros cidadãos, as diretrizes nacionais, ancoradas nas determinações da União Europeia são muito claras: o sistema de recolha porta a porta terá de se tornar uma obrigatoriedade. Na verdade, há anos que este sistema é utilizado em muitas cidades pelo mundo fora, nas quais os contentores do lixo são colocados na rua, em dias e horas determinadas. Um sistema que elimina a necessidade de contentores comuns na via pública, aumentando a eficiência da reciclagem e a higiene urbana.

Os custos do lixo
Atualmente, segundo dados da autarquia de Silves, existem no concelho 303 contentores subterrâneos e 1765 de superfície. Os resíduos aqui depositados são recolhidos pelos serviços municipais e transportados até às instalações da Algar, para o seu tratamento. Logicamente, à medida que produzimos mais lixo, mais custa aos contribuintes. Em 2024, a Câmara Municipal de Silves pagou à Algar, a importância significativa de 2.699.475,00€. Em 2025, esse valor chegou quase aos três milhões de euros: 2.894.063,82€.
No entanto, e no que à Algar diz respeito, há ainda outro aspeto a considerar: o enorme descontentamento que populações e municípios têm manifestado quanto à qualidade do serviço de recolha a cargo desta empresa. A escassez de ecopontos e um serviço de recolha insuficiente, em particular nas épocas de férias, têm agudizado os problemas. No final deste mês de março, tornou-se pública a denúncia feita pelo presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto, que protestou energicamente contra a decisão da Algar de distribuir três milhões de euros de dividendos, pelos seus acionistas. Uma decisão que teve o voto contrário e unânime dos municípios do Algarve que exigem maior investimento na empresa para melhorar a qualidade do serviço. Mas, mais uma vez, o serviço público não foi a prioridade.
O grande desafio do lixo, usando a terminologia mais simples, é sem dúvida comum a todas as sociedades em desenvolvimento, com a complexidade de estar integrado numa engrenagem com diferentes atores, em que cada um tem de fazer a sua parte.
Começa no nosso nível, o do cidadão e empresas, na aplicação da política dos 5R’s, para alcançar a sustentabilidade: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar.
Uma política que não tem só evidentes benefícios ambientais, como também económicos.






