Dá pelo nome de Ovelha Churra Algarvia e é única na sua singularidade um pouco estranha. À primeira vista confunde o olhar, pouco habituado a uma imagem de uma ovelha com cornos.
É hoje uma raça vulnerável mas, como quase sempre acontece, há um grupo de gente atenta e teimosa a tentar preservar uma raça 100% algarvia.
O manual faz a descrição: «É um animal robusto e alto, em que os carneiros pesam cerca de 75kg e as ovelhas cerca de 55kg. A sua lã é geralmente branca, com manchas pretas à volta dos olhos, focinho e patas e ambos os sexos podem ter cornos, embora nos machos sejam mais desenvolvidos e espiralados.»
Esta raça encontrava-se espalhada por todo o Algarve, sobretudo nas zonas do Barrocal e da Serra, estando muito bem adaptada ao clima seco e aos terrenos pobres, alimentando-se de vegetação rasteira e arbustos. Tradicionalmente, era criada pela sua carne, com um sabor forte e intenso; pelo seu leite, usado na produção de queijos; e pela sua lã, muito grossa, mais usada em tapeçarias e enchimentos do que para vestuário.
Nas últimas décadas, a raça sofreu um forte declínio, sendo substituída por raças consideradas mais produtivas e hoje é considerada uma raça autóctone vulnerável, a par da vaca algarvia.
Os esforços para a sua conservação e valorização passam quase todos pelo trabalho desenvolvido pela ALGARCHURRA – Associação de Criadores de Ovinos da Raça Churra Algarvia, junto dos seus associados e entidades. Uma das atividades de divulgação passou pela Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, numa tertúlia a que o Terra Ruiva assistiu.

A ALGARCHURRA foi fundada em 2012, por Rita Guerreiro, formada em Engenharia Zootécnica e tem atualmente a sua sede em São Bartolomeu de Messines.
Rita Guerreiro trabalha com esta raça desde 2002 e é dona de alguns exemplares. Na sua descrição, estes são animais que se distinguem das restantes raças ovinas autóctones portuguesas, por alguns sinais físicos, como os cornos existentes também nas fêmeas, as malhas à volta dos olhos, as manchas pretas, a sua lã espessa e o facto de que, quando tosquiadas, parecerem cabras. Mas aquilo que destaca são outros pormenores: “São animais dóceis, muito inteligentes, que conhecem bem o dono. Quando chego a casa, são quase como um cão, conhecem o carro e vêm ter comigo”.
Poucos criadores e poucas pastagens
Um dos problemas que se coloca à continuidade desta raça tem a ver com o escasso número de criadores. Há poucos e a maioria é pessoas de idade que não têm quem prossiga com essa atividade.
Segundo Rita Guerreiro, para que um rebanho seja economicamente viável “tem de ter pelo menos 100 ovelhas”. Mas essa pretensão esbarra com outra dificuldade: os terrenos para pastagens. Muitos criadores, ou pessoas que gostariam de o ser, não têm um terreno suficientemente grande para alimentar um rebanho dessa dimensão e é difícil encontrar quem permita um rebanho nas suas terras, apesar das vantagem evidente de ter animais a comer as ervas e vegetação.
“Em muitos locais os rebanhos são vistos como verdadeiros “sapadores” contra incêndios, mas no Algarve, os proprietários não querem fazer parcerias com os criadores, mesmo que tenham os terrenos abandonados”, explica Rita Guerreiro.
Atualmente, é na zona de Faro que existe um maior número de rebanhos da churra algarvia. A freguesia de São Bartolomeu de Messines destaca-se a seguir, com vários rebanhos. Há também criadores no Algoz. Nesta localidade existiam também pessoas que faziam queijo, “um queijo muito parecido com o da Serra da Estrela, com muita gordura”, mas abandonaram essa atividade principalmente porque a mesma, além de obrigar a uma ordenha muito cansativa, foi ficando sujeita a legislação cada vez mais difícil de cumprir para um pequeno produtor.
No que se refere à lã, que era uma fonte de rendimento tradicional, também aqui há dificuldades. É muito difícil arranjar tosquiadores e recentemente encerrou portas o único local em Portugal onde se fazia a lavagem da lã. A lã, por sua vez, deixou de ser um produto com valor económico. Não há quem a compre e a maioria acaba no lixo, criando assim um problema ambiental relevante.
A luta pela sobrevivência
A luta pela sobrevivência desta raça algarvia passa por vários caminhos. Um dos fundamentais passa por combater a ameaça de extinção que está ligada ao decréscimo do número de machos que são responsáveis pela diversidade genética. “Depois de se perder a diversidade já não se pode recuperar”, alerta Carolina Sousa, engenheira agrónoma com especialização em genética animal.
Atualmente, há apoios a 100% para a aquisição de raças autóctones e muitas pessoas sentem-se tentadas a aproveitar esses fundos e criar um rebanho. Mas, para garantir o futuro, é essencial que a criação da raça ovina churra algarvia seja economicamente viável.
Nos últimos anos, uma grande parte do trabalho desenvolvido pela ALGARCHURRA tem sido nessa direção, tentando encontrar novas formas de valorização da lã, da carne e do leite da ovelha churra algarvia. Esse trabalho tem sido feito em parceria com entidades oficiais, autarquias, associações locais e regionais, artesãos e criadores.

Um bom exemplo dessas parcerias aconteceu em março de 2026, com a realização do 1º Certame de Ovinos da Raça Churra Algarvia, organizado com a Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines. Um evento que contou também com a 1ª Mostra de Borrego à Mesa e várias oficinas de tecelagem.

Neste certame, além de estarem presentes vários exemplares da raça, houve uma demonstração de tosquia ao vivo, que causou muito interesse a quem assistiu, dada a raridade de poder testemunhar uma atividade que já foi tão vulgar. Perante a forte e farta lã, que caía a cada passagem do tosquiador, vários foram os que lembraram os colchões que se usavam, cheios de lã, ou as pesadas mantas de lã que cobriram muitas gerações de portugueses.
Hoje, como já foi dito, esta lã não tem praticamente nenhum valor comercial, mas precisamente por ser mais forte e comprida do que a lã de outras raças, começa a ser procurada por artesãos. No referido certame estiveram presentes Ana Seromenho, que se instalou há alguns anos em São Marcos da Serra e que vende as suas tapeçarias, com lã de ovelha churra, para vários países. E também Paula Neves e seu marido, Pedro Neves que no Alentejo são, com os seus trabalhos, os representantes da churra algarvia.
Além da promoção junto de artesãos, a Algarchurra tem divulgado também a possível utilização da lã agricultura. Sendo um material que retém a água, a sua utilização no solo permite diminuir o número de regas.
Noutra linha de atuação, a associação tem procurado promover a carne da churra algarvia, conhecida por não ter um sabor tão forte como as restantes, com eventos gastronómicos de divulgação, também ligados à promoção da Dieta Mediterrânica.
No fundo, como diz Rita Guerreiro, há que trabalhar um pouco em todas as frentes, numa luta que “só começou há cerca de quatro anos”, a tentar recuperar o tempo perdido e a tentar encontrar novos caminhos.
Nas escolas do Algarve também tem sido feito um trabalho de divulgação. Para que as crianças e jovens saibam que há uma raça de ovinos que é só nossa e que merece a nossa atenção.
E talvez que alguns, possam ser como a Rita, que um dia pensou em ter umas ovelhas e com elas fazer o que seria normal. Mas elas trocaram-lhe as voltas “comecei com 5, depois não fui capaz de as vender nem matar, agora tenho 25” – diz, com carinho e riso.






