“Déjá vu” é uma expressão francesa que literalmente significa “já visto” e é frequentemente utilizada para resumir aquela sensação súbita e estranhamente familiar de estar a repetir uma experiência, uma situação, uma conversa ou lugar que, na verdade, está a acontecer pela primeira vez. É uma ilusão que nasce da resposta do nosso cérebro que, entre outras coisas, analisa, compara, interpreta, julga, armazena e apaga o que vivemos, mas que por vezes se engana, invertendo a ordem normal de processamento, análise e verificação, transmitindo a ilusão de que já estivemos naquela situação.
Uma estranha familiaridade foi precisamente o que senti quando no passado dia nove de janeiro surgiu o anúncio de que o “Governo aprovou a construção do Hospital Central do Algarve (HCA)”. Só que desta vez não era o meu cérebro a pregar-me uma partida e, passados alguns dias, foi publicado no Diário da República o lançamento da parceria público-privada para a “conceção, o projeto, a construção, o financiamento, a conservação, a manutenção e a exploração do Hospital Central do Algarve”. Um investimento superior a 420 milhões de euros a ser realizado em “modalidade de parceria-público privado [PPP], depois com um encargo ao longo dos 26 anos seguintes, que estimamos, no conjunto das prestações, em cerca de 1.100 milhões de euros de custo total com os encargos financeiros ao longo do tempo” segundo revelou o Ministro da Presidência, António Leitão Amaro.
Estão previstas 742 camas, 18 salas de bloco operatório, 74 gabinetes de consulta, 10 blocos de partos e 80 hospitais de dia, além de equipamento de tecnologia médica avançada, nomeadamente, resposta ao nível oncológico, incluindo os primeiros equipamentos públicos de radioterapia do Algarve e todo o diagnóstico e tratamento, incluindo o PET-TC. Cuidados paliativos, bem como serviços de psiquiatria para adultos, psiquiatria da infância e da adolescência também estarão contemplados.
Este cenário promissor, conduz-me ao “déjà rêvé” – “já sonhado” em francês – a sensação de que algo está finalmente ao alcance, quase como um sonho realizado, decorridas mais de duas décadas de anúncios, de atrasos e de “primeiras pedras” suficientes para construir um pequeno muro, será finalmente desta que o Algarve terá um novo hospital central? Aguardemos, pois estes são os primeiros passos de uma longa maratona para que uma obra desta envergadura possa sair do papel e tornar-se uma realidade.
Enquanto aguardamos, a região continua a enfrentar desafios antigos e persistentes na área da saúde como é o caso da falta de profissionais de saúde, sendo o INEM mais um exemplo, onde na primeira quinzena de janeiro se verificaram, por diversas vezes e em dias consecutivos, a paragem de meios de emergência do INEM o que naturalmente causa transtorno e muita preocupação entre a população e profissionais de saúde. Acresce ainda a existência de relatos de uma eventual extinção da Delegação Regional do INEM no Algarve, situada na Cidadela da Segurança e Proteção Civil de Loulé, que tinha sido inaugurada em Maio de 2024 com o objetivo de “servir toda a região algarvia, reforçando a eficácia, a coordenação e a proximidade do socorro de emergência médica”. Reverter esta medida numa região estruturalmente deficitária do Serviço Nacional de Saúde seria a meu ver um grave erro.
O verdadeiro progresso só acontecerá quando as palavras e promessas se transformarem em ações concretas, como aliás é exemplo o totalmente renovado bloco operatório do Hospital de Faro, num investimento total de 9.3 milhões de euros. Manter a esperança é fundamental, mas também é imperativo que as ações e prioridades sejam orientadas para ultrapassar os muitos obstáculos e transformar em realidade aquilo que, por agora, apenas sonhamos.






