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Opinião

2 Perros e 1 coche

António Guerreiro
Última Atualização: 2016/Dez/Ter
António Guerreiro
10 anos atrás
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Os meus pais, particularmente a minha mãe, possuíram alguns cães rafeiros, raramente mais do que um em simultâneo. Ao último cão, membro de uma ninhada de cães de uma cadela da minha tia Elvira, demos-lhe o nome de Felini (nome não ficcionado, associado ao cineasta italiano Federico Fellini). O Felini era um cão caseiro (fundamentalmente não o deixávamos fugir), com muito mau génio em relação aos estranhos, especialmente aos carteiros. Todos os cães que minha mãe possuiu já morreram faz algum tempo, mas ainda recordo as suas imagens rafeiras, especialmente a do penúltimo, um cão branco e preto muito dócil e independente, de nome Fidel (nome igualmente não ficcionado). Vadiava pelo bairro e regressava a casa sem qualquer dificuldade, mesmo quando se afastava das imediações da (sua) moradia dos meus pais. O cão foi nomeado de Fidel com muito carinho pelo animal e pelo protagonista político, Fidel de Castro.
Estive em Havana no início de fevereiro de 2005, ainda na presidência do Comandante, num congresso de educação. Os olhos e os rostos das gentes humildes de Havana resumiam uma saudade genuinamente portuguesa, mas assumiam a dignidade do ser humano, para mim sinónimo da consciência de classe. Contactei com gente profissionalmente empenhada na educação de crianças, genuinamente alegres e afetuosas, que recorriam a brinquedos de papel machê, muito tradicionais na ilha, para as fazer sonhar. Convivi por breves momentos com homens adultos que bebiam cerveja tradicional de fabrico artesanal, sempre afáveis e alegres. Dialoguei com vendedoras de frutas, de legumes, de carne e de mercearias em pequenas bancas de escassos produtos verdadeiramente naturais. Tudo parecia ter uma dimensão desadequada à nossa ideia de consumo, mas (in)suficiente para as necessidades básicas do ser humano. As prateleiras das lojas ou as bancas dos mercados tinham pão, feijão, legumes, carne e acredito que peixe, medicamentos, bebidas e enlatados.
Num desses dias fui ao Instituto Pedagógico Latino-americano e Caribenho e União dos Escritores e Artistas de Cuba (IPLAC), com o objetivo (conseguido) de celebrar protocolo de intercâmbio académico e científico com a Universidade do Algarve, o que aconteceu com diversas entidades de ensino superior. Um carro oficial foi nos buscar ao hotel, para nos transportar ao IPLAC.

Como num filme de espionagem, percorri as ruas de Havana num carro com os vidros traseiros fumados, de certo modo vivi breves minutos da Guerra Fria.

No encerramento do referido congresso – Pedagogia 2005 – discursou Fidel de Castro, penso que durante algumas horas. Os avisados educadores cubanos e provavelmente de outros países latino-americanos foram para o Teatro Karl Marx de lancheira. Comiam enquanto ouviam o discurso do Comandante. Não estava avisado e abandonei o encerramento do congresso pela hora do jantar. Nessa noite fomos à La Bodeguita del Medio com duas cubanas amigas (uma delas tinha anteriormente realizado uma estância na Universidade do Algarve), local turístico famosamente frequentado por Ernest Hemingway. Foi uma noite de convívio invulgar. Aquele sítio só era frequentado por turistas, atendendo que o custo de uma refeição era similar ao ordenado mensal de um cubano.
Regressado ao nosso país, li, numa pequena notícia num jornal nacional, que o Comandante tinha proibido as interações (como eu fizera, de levar duas amigas a jantar num local interdito aos cubanos) entre os turistas e os locais.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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