Faleceu o Papa Francisco -um homem bom, personalidade ímpar para crentes e não crentes em todo o mundo. Ninguém permaneceu indiferente ao seu pontificado. Humanista, humilde e defensor incansável dos pobres e excluídos, dos migrantes, dos direitos económicos e sociais das massas trabalhadoras, foi também um firme promotor da liberdade, da justiça social e da paz entre os povos. Corajoso crítico do sistema económico dominante, do discurso do ódio e da intolerância, deixou um pensamento e um legado transformador na igreja católica. Um legado que agora gera um vazio difícil de preencher, especialmente se a intenção for dar continuidade à sua política reformista.
As suas Encíclicas, Laudato Si´ e Fratelli Tutti, constituem um avanço progressista na doutrina social da igreja. Defensor de uma economia moral, condenou de forma clara a economia política neoliberal, a “economia que mata”, a “obsessão por reduzir os custos laborais” em detrimento de um “ganho rápido”. Enfatizou que os mecanismos de mercado, quando entregues a si próprios, aprisionam-nos em círculos viciosos.
Na Jornada Mundial da Juventude de 2023, no Centro Cultural de Belém, criticou a Europa pela aposta na corrida armamentista e na guerra, em vez de defender o Estado social e a paz.
Na Universidade Católica Portuguesa, foi contundente: “À universidade que se comprometeu a formar novas gerações, seria um desperdício pensá-la apenas para perpetuar o atual sistema elitista e desigual do mundo como ensino superior que continua a ser um privilégio de poucos.” É preciso coragem e convicção férrea para proferir tais palavras numa instituição rica e elitista, marcada pelo incremento do pensamento neoconservador e belicista e pela defesa dessa mesma “economia que mata”. Não foi por acaso, que tudo isto, passou praticamente à margem dos comentadores de serviço nas televisões e na restante imprensa.
O Papa Francisco dizia que é melhor ser-se ateu do que ir à missa e depois semear o ódio.
Em 2016, afirmou: “São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres – tenham fé em Deus ou não.” É uma afirmação incómoda para muitos. É impossível não reconhecer nas suas palavras uma crítica aos que, em nome da Igreja, perpetuam desigualdades e ignoram as verdadeiras causas do sofrimento humano. Discurso que também encaixa que nem uma luva nos “Barrabás” nacionais, cujo mais fiel representante fugiu da Jornada Mundial da Juventude, “exilando-se” na Madeira. Homenagear o Papa Francisco é celebrar a vida e os valores da paz, da justiça social, da liberdade e da democracia – valores que também estão na base do 25 de Abril, cujo 51.º aniversário agora celebramos.
Apostila– aproximam-se as eleições antecipadas de 18 de maio para a Assembleia da República. Os 230 deputados eleitos determinarão a formação do novo governo. Mais uma vez, os partidos do bloco central de interesses – PSD e PS – recorrem ao apelo do chamado “voto útil”, sob o pretexto da estabilidade política. Na realidade, trata-se de uma narrativa usada para manipular a democracia e distorcer a vontade genuína dos eleitores. A vida política portuguesa dos últimos 50 anos tem demonstrado que a estabilidade governativa não se garante com maiorias absolutas, mas com a eficácia dos governos na resolução dos problemas reais dos portugueses.
Estes problemas incluem: o acesso à saúde, com defesa e investimento no Serviço Nacional de Saúde, o acesso à educação, com valorização da escola pública, a garantia de habitação acessível, com regulação do mercado de arrendamento e aumento do parque habitacional público, o combate à pobreza, às desigualdades e à corrupção, a defesa do emprego com direitos e o aumento de salários e pensões. As recentes quedas do governo – tanto do PS de António Costa, com maioria absoluta, como da AD de Luís Montenegro, com maioria relativa, que se atolaram em casos internos de corrupção e comportamentos condenáveis do ponto vista legal ou ético, aí estão para o provar.
É a natureza e a eficácia das políticas públicas que determinam, ou não, a estabilidade governativa.







