O desassoreamento do rio Arade foi considerado, em julho de 1822, em Lisboa, pelas Cortes, como uma prioridade em Portugal.
Nessa sequência, o governo enviou de imediato a Silves dois técnicos especialistas, Francisco Lino e Mr. Deflorence (provavelmente de nacionalidade francesa, ou belga), com o objetivo de elaborarem uma proposta de intervenção. Ainda que, estivesse prevista a redação de uma exposição conjunta, tal não aconteceu, pela antecipação de Francisco Lino, facto que Mr. Deflorence não deixou de lamentar e de transmitir às Cortes.
Na última edição do «Terra Ruiva» recordámos o conteúdo do relatório de Francisco Lino, pelo que analisaremos agora o de Mr. Deflorence.
Assim, informou aquele técnico de hidráulica que, durante a viagem de barco entre Portimão e Silves, efetuara «as observações mais escrupulosas, sondando-o com atenção, achando-o cheio de arêa solta em certas distancias». Areia que considerava «mui fácil de a tirar», propondo para o efeito vários utensílios, cujo desenho e caraterísticas anexou.
Segundo as suas medições, impunha-se remover os sedimentos em «1 800 braças de comprimento e de que o escavamento deve ser de meia braça de profundidade em huns lugares mais e n’outros menos por cauza de sua irregularidade». Se considerarmos que uma braça tem cerca de 2,20 m, aquele técnico propunha uma intervenção, em cerca de 4 km do curso do rio, na qual estimava a remoção de 4 500 braças cúbicas de dragados (na verdade seriam 4 050), advindas do «termo médio em meia braça em toda a sua extensão, sobre 4 braças e meia», qualquer coisa como 43 100 m3. Calculava ainda que, com barcos pequenos, com dois homens cada um, munidos das ferramentas que propunha, fossem retirados uma braça cúbica por dia de sedimentos (10,6 m3).
Quanto ao orçamento, avaliava-o em 9 000 cruzados, quantia a que acrescentava mais 1 000, não só para os apetrechos (que era necessário fabricar), mas também por acreditar que ia encontrar: «antes homens de pouco trabalho do que de muito». A produtividade dos portugueses, como hoje diríamos, já então era notada pelos estrangeiros e não pelas melhores razões.
As ferramentas iam desde as «paviolas e arpias para arrancar as pedras grandes, e leva-las para fora, e pás para descarregar os barcos co’ a maré baixa», às quais se juntavam varas, enxadas e os ditos arpões (?).

Segundo os seus cálculos, depois da obra, o Arade ficaria, na maré alta, com «14 palmos de alto até Silves», isto é, cerca de 3 metros de profundidade.
Procurou ainda inteirar-se da existência de barcos e homens para concretização dos trabalhos: «assegurarão-me, que tanto em Villa Nova e seus arredores e a Silves, se acharão 50 a 60 barcos e tão bem homens». Mais referia e alertava que «grande parte deste escavamento será feito á padiola. Serão percizas pranchadas fortes para resguardar os obreiros dos lodos, sem as quaes não poderão arrancar-se delle». Deflorence ofereceu também os seus préstimos para projetar um porto na cidade, se assim fosse entendido, o que não terá acontecido.
Refira-se que nenhuma das propostas de intervenção, quer a de Francisco Lino ou Deflorence, avançou, mas estes relatórios são primordiais para o conhecimento do rio, do território e também das suas gentes há 200 anos.
A contrarevolução em 1823 levou à queda do regime liberal, degenerando pouco depois na guerra civil (particularmente violenta no Algarve, com a guerrilha de Remexido ativa até meados dos anos de 1840, a que se seguiu a Patuleia), deixando os cofres do Estado exauridos. A partir de 1851, a construção do caminho de ferro e de estradas macadamizadas tornaram-se na prioridade nacional. Paulatinamente, as vias fluviais foram perdendo importância, seja no transporte de pessoas ou de mercadorias. Ainda que no caso de Silves, o assoreamento não tenha impedido o estabelecimento da indústria corticeira na cidade, com o escoamento, através do Arade, dos produtos dela resultantes, até meados do século XX.
O desassoreamento em 2025?
Quanto ao desassoreamento na atualidade, resolvidos que estão os problemas de saúde pública, agrícolas e económicos, tendo as estradas roubado o protagonismo ao transporte fluvial, tal não faz sentido. Reiteramos assim o que escrevemos na edição do «Terra Ruiva», n.º 238, de Dezembro de 2021. O assoreamento é natural e secular e a natureza triunfará sempre nos seus desígnios, pelo que nada impedirá que rapidamente o rio fique como está. A acontecer, o desassoreamento irá favorecer principalmente o turismo, mas turistas a visitar Silves já existem e às centenas por dia (ainda que a cidade pudesse tirar mais partido destes visitantes, mas isso é outro assunto). Urge, por isso, agir no diferenciamento das atividades económicas do concelho e do Algarve.
As entidades públicas municipais deveriam, por exemplo, valorizar o potencial empresarial/ industrial de Silves e do seu território, potencialidades históricas únicas que se impõem, numa altura em que a industrialização da Europa é inquestionável e cada vez mais irreversível. Parques tecnológicos acoplados a áreas de localização empresarial e industrial (tirando partido do campus universitário), deveriam constituir uma das prioridades, qual «lanterna que na frente alumia duas vezes», como diz o adágio popular. O Arade teve a sua importância e o desassoreamento a sua época. Atualmente tal «problema» é útil apenas para os políticos perderem mais algum tempo (ao invés de pugnarem pela «lanterna» do futuro, que há décadas se apagou e perdeu no concelho), qual muro das lamentações, que impede de verem mais além, de refletir sobre tantas outras potencialidades, que infelizmente teimam em não passar disso mesmo, potencialidades…
Votos de um Bom Ano de 2025 para todos.
Nota: Nas transcrições manteve-se a ortografia da época.







