Pietà, palavra italiana para Piedade, é um tema da arte cristã em que é representada a Virgem Maria com o corpo morto de Jesus nos braços, após a crucificação. Este ícone representa um filho morto nos braços de sua mãe, um filho vítima das guerras presentes e existentes no norte de África, na península arábica e no leste da Europa. Todos os países envolvidos em disputas, além de territórios, ambicionam o controlo de reservas de petróleo, gás natural e minérios fundamentais para a indústria, também para a indústria da guerra, como não poderia deixar de ser.
Neste momento já não aguento mais as imagens das guerras que passam nos jornais televisivos, na minha sala, ou nos espaços noticiosos radiofónicos, nas viagens de carro, nem os comentários das estratégias militares e das posições destes e daqueles.
Atingi o meu limite e ignoro a sua existência (das guerras e dos conflitos) para sobreviver à crueldade dos homens e dos negócios, capitalistas ou não, já tanto me faz, que vão multiplicando os rendimentos dos super-ricos e alargando as suas fortunas até provavelmente ao infinito, o infinito e mais além, como na ficção científica.
Multiplicam-se as pietàs: as crianças quase mortas de desnutrição grave e de fome, nos braços de suas mães, no Sudão; as crianças queimadas, feridas e mortas nos braços de mulheres resistentes na Palestina, no Líbano e, também, em Israel; as crianças e os jovens mortos, na Ucrânia e na Rússia, aconchegados nos braços de suas mães, desgastadas pela dor infringida pelas armas, pelo armamento, oriental e ocidental; as mães e os seus filhos mortos em Burkina Faso, Somália, Iêmen, Mianmar, Nigéria e Síria.
Será possível dormir? Dizem-me que não é bem assim, que algumas destas situações não são guerras, mas apenas conflitos armados. Os conflitos armados não são guerras, são de uma categoria menor. Um conflito armado para ascender à categoria de guerra tem de atingir pelo menos mil mortes em batalhas, ao longo de um ano. Enquanto os conflitos armados são as disputas por territórios ou governos em que resultam pelo menos vinte e cinco mortes em batalhas num ano. Afinal, acho que podemos dormir descansados porque as crianças com fome, por todo o mundo, não são contabilizadas como vítimas de guerras.
Aqueles que morrem, até vinte e cinco por ano, em resultado da cobiça e do poder, não têm direito à designação de vítimas de um conflito armado nem de uma guerra. Estas medidas estatísticas são interessantes e não contabilizam as mães, sejam senhoras da Piedade ou senhoras das Dores.
Apesar de ter atingido o meu limite de guerras e conflitos militares não tenho dúvidas sobre a urgência da Paz.







