Há perguntas que fazemos tantas vezes que deixamos de reparar nelas.
“Tudo bem?”
Dizemo-lo quando chegamos, quando nos cruzamos com alguém, quase sem pensar. É uma forma de cumprimentar, uma convenção social, uma maneira rápida de estabelecer contacto. Mas, comecei a reparar numa coisa: O que acontece quando perguntamos a alguém como está, mas não estamos verdadeiramente disponíveis para saber?
A pergunta fica suspensa.
O outro pode responder “sim, tudo bem” e seguimos caminho. Mas também pode dizer: “Nem por isso…”. E, de repente, somos confrontados com algo que não esperávamos. Porque ouvir verdadeiramente implica, muitas vezes, parar. E nós vivemos numa época em que parar se tornou difícil. Temos sempre alguma coisa para fazer, algum lugar para onde ir, uma mensagem para responder, uma preocupação a ocupar espaço na cabeça. Estamos fisicamente presentes, mas nem sempre estamos verdadeiramente disponíveis. Falamos enquanto pensamos noutra coisa. Ouvimos enquanto preparamos a resposta. Cumprimentamos enquanto já estamos a pensar no próximo compromisso.
Talvez seja por isso que, por vezes, um simples “Bom dia” possa ter tanto significado. Não apenas pelo que as palavras dizem, mas pela forma como são ditas. Um olhar. Um sorriso. Um segundo de espera. A atenção inteira naquele breve encontro.
São pequenos gestos, mas o ser humano reconhece-os. Reconhece quando está a ser visto. Reconhece quando existe espaço para si. Reconhece quando, durante alguns instantes, não é apenas mais uma pessoa que passa.
Na psicoterapia, aprendemos muito sobre isto. O vínculo não começa quando alguém conta a sua história. Começa na forma como recebemos, como olhamos, como escutamos, como esperamos pela resposta. Às vezes, não é necessária uma grande intervenção. É suficiente não fugir da resposta. É suficiente perguntar: “Queres falar sobre isso?”
E ficar. Não resolver. Não aconselhar imediatamente. Não tentar transformar aquilo que o outro sente. Apenas estar. Talvez porque uma das experiências humanas mais importantes seja sentir que podemos existir diante de alguém sem precisarmos de fingir que está tudo bem.
Por isso, continuo a dizer “Tudo bem?”
Mas tento lembrar-me de que essa pergunta tem uma responsabilidade. Se a faço, quero poder escutar. Se pergunto, quero poder esperar. Se o outro disser “Hoje não muito…”, quero, tanto quanto possível, ter espaço para ficar mais um pouco.
Nem sempre consigo. Mas talvez a presença não seja estar sempre disponível. Talvez seja reconhecer os momentos em que temos a oportunidade de estar verdadeiramente presentes — e escolher fazê-lo.
Talvez a diferença esteja numa coisa muito simples: não apenas perguntar “Como estás?”, mas estar preparado para descobrir.
“Um cumprimento pode ser apenas uma palavra… ou pode ser o início de um encontro.
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