O sismo de 26 de Agosto não me beliscou o sono. Às 5 horas e 11 minutos, o abanão bem medido, de intensidade 5.3, segundo Richter, agitou quem o sentiu.
Coiraço velho, fui ficando insensível a infinitas trepidações. Não dei por nada. Não pude participar da farta caturrice que o dia alto provocou entre quem estava acordado, tinha o sono leve ou, mesmo nada sentindo, se viu obrigado a opinar.
O sismo provocou-me, isso sim, uma réplica tardia na memória. Uma crónica publicada há um quarto de século, em O Independente, fora inspirada por uma onda gigante que, nunca existiu, mas assustou muita gente. Morrer no Algarve, a expirar borbulhas de água salgada, seria um fim triste num destino de férias de sonho.
Antes de reproduzir a crónica, só uma pequena evocação de tremeliques muito anteriores, com mais de meio século. Cagaço, mesmo, apanhei-o em Lisboa, na madrugada do dia 28 de Fevereiro de 1969. Estava por lá a estudar. Vivia com o meu irmão mais velho num quarto alugado, na Pampulha. Às 3 horas e 41 minutos, fomos sacudidos por violentíssimos abanões que nos arrancaram bruscamente dos braços de Morfeu. Em pânico, quis rapidamente saltar para a rua. O meu irmão, estremunhado, perguntava-me se eu achava que devia calçar os sapatos para abandonar o prédio.
A devastação pelo país, soube-se no dia seguinte, foi brutal. Só no concelho de Silves, no pequeno povoado de Fontes de Louzeiros, na freguesia de Alcantarilha, das dezasseis habitações só uma ficou de pé. Na Pampulha, felizmente, nem uma pequena nuvem de pó para tapar brilho dos sapatos pouco apressados do mano.
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Na crónica de O Independente, que intitulei «Tremores», para além da onda gigante, que nunca chegou a terra nem existiu, recordo outros sismos, muito anteriores. É fácil verificar que, no século XVIII, a minha carcaça ainda estava inerte. Por isso não os senti. Não é um testemunho directo. O cagaço telúrico mantém sempre a actualidade.
«Em 1722, no dia 27de Dezembro, pelas seis da tarde, o Algarve estremeceu. Frei Jerónimo de Belém conta que Albufeira, Loulé, Faro, Vila Nova de Portimão “experimentaram o maior estrago, com a morte de muitas pessoas e a admiração de todas”. Em Tavira, o pânico foi tal que o povo julgou ver “um retrato ou sombra do dia do juízo”. Cada um “saíra de sua casa como estava, do nobre ao pequenino, antes parecendo todos pobres pelo desalinho”. Tão “formidável abalo de terra surgiu porque uma grande quantidade de fogo rebentou no mar entre Faro e Tavira”. Muitas pessoas viram subir as chamas que saíam “de dentro das águas”, com enorme estrondo, como que “impelidas por uma violenta tempestade”.
Em 1755, no dia 1 de Novembro, pelas 9 horas da manhã, o Algarve tremeu de novo, com “espantosa violência”. Ouviu-se um “grande trovão surdo”. O mar recolheu-se “mais de vinte braças, deixando as praias em seco”. Arremeteu depois, com tamanho ímpeto, entrando pela terra adentro “mais de uma légua, sobrepujando as mais altas rochas” e arrastando, “no fluxo e refluxo, enormes massas de penhascos e edifícios”. Quase todas as povoações marítimas foram arrasadas. Só nesse dia, mais de mil pessoas morreram em todo o Algarve.
Em 1999, no dia 22 de Agosto, pelas duas horas da tarde, algarvios e veraneantes a banhos estremeceram. Muitas pessoas viram, ao largo de Carvoeiro, uma onda gigante. Tinha cerca de trinta metros de altura e seiscentos metros de comprimento. Avançava lentamente para terra. As praias, por ordem das autoridades marítimas, foram evacuadas. Gente bronzeada, atónita, até parecendo rica pelo desalinho, concentrou-se junto à falésia e ficou a observar o mar calmamente, confiando que, se a onda chegasse, teria inteligência para lhes poupar a vida. Uns poucos, mais crentes do que eu, ainda lá estão à espera. Outros, mais cépticos, acharam que as autoridades não tinham sombra de juízo. A onda esfumou-se.
A terra treme. E nós, também. Os terramotos, ao longo da História, têm-nos ameaçado a existência. Ondas gigantes, de origem sísmica, menos frequentes, também. Podem não chegar quando as autoridades o certificam e o povo as espera, e deseja, cuidando que a desgraça irá bater apenas a porta alheia. Mas muito mais perigosos que os sismos, ou as ondas gigantes, são a incúria e a ganância de muitos dos que constroem as casas ou o desleixo de quem fiscaliza as obras.
Em Portugal certamente não haverá problema. Os construtores são escrupulosos. Não poupam no ferro e no cimento. As câmaras estão vigilantes. Bem, não estou muito seguro disso. À cautela, o Diabo que seja cego, surdo, mudo e … analfabeto.»
O Independente,
27 de Agosto de 1999»








