Então já posso sentir que o meu primeiro mergulho de verão pode voltar a ser perfeito e eu morrer ali, afogado, deliberadamente afogado, enquanto olho serenamente as casas brancas a despedir-se de mim no minuto mais perfeito das nossas vidas, tão monótono e igual todos os anos durante vinte anos que parecia eterno até o mundo mudar e tudo começar a ser difícil e o menino se tornar homem e já não vir connosco e termos de cumprir as rotinas de velhos que não deixam espaço para morrer em paz no paraíso que conquistam só depois do cansaço?
Menino, podes vir mais um verão mergulhar com o teu pai despudoradamente no mar antes que o teu próprio corpo já não aguente? Agora o ex-tédio é o meu único sonho. Mergulhar no mar no princípio do verão só mais uma vez e a única confusão ser decidir se aquele instante perfeito em que tudo se suspende, o céu, o mar, a vila, as gaivotas, os tons do mundo, é passado ou futuro. A única saída pode ser carregar no pause e fazer um presente e morrer logo a seguir.
Sangraremos todos em público.
As veias estarão cortadas por inerência.
Antes que vistas a palavra que está para o animal que mencionarei na frase seguinte como dimensão e gordura, pensa que são mais rápidos do que parecem e te podem matar num átimo.
Não sei se sou um hipopótamo assassino aqui, no mar plano e sem ondas, a olhar para terra. Armação voltou a ser uma vila branca e desejada, o que não era desde que arrasaram os gloriosos palacetes que nos faziam sentir príncipes no passeio de mar até ao velho Casino.
A água ficaria pela cintura se eu não estivesse com os joelhos cravados nas conchinhas do fundo, à espera que um peixe aranha me abocanhe um membro, qualquer membro. Morrerei afogado antes que a felicidade se esvaia. Não há uma única onda, do topo da Scampia armacenense verão a mancha de sangue em torno do meu corpo como a derrota de um polvo gigante num volume segundo do Velho e o Mar. Quis morrer, agora não, e vou morrer na mesma. Agora não sei se penso, se sinto. Lembro-me de descer do Porto às cinco e meia da manhã, de parar em Fátima para os outros se ajoelharem no silêncio da madrugada, quando a fé ainda não faz barulho. Durante a pandemia de dois mil e vinte pintei muitas vezes a cara de branco a ouvir o Theme from Limelight, tocada pela orquestra do Ron Goodwin, as lágrimas eram o rímel da minha mulher borratado até às bochechas, os meus lábios grossos mimetizavam o choro surdo num u invertido, como fazia o Bip do Marcel Marceau caminhando através do vento no Teatro dos Campos Elíseos. O menino ficava no carro a dormir. Tomávamos café em frente, quando encontrávamos alguma coisa aberta. Chegávamos ao Algarve pelas onze, a mãe ficava a arrumar as coisas e eu e o menino descíamos à praia, ali em frente, e mergulhávamos sem amanhã. Depois de dois ou três mergulhos e ele me pedir para o projectar no ar como os pais fazem aos filhos e eu o aguentar estóica e heroicamente até ele ter a minha altura e os saltos serem dos meus ombros, a fazer lembrar a pirâmide humana que eu suportava nos verões de Francelos quando o Gregório se sentava nos meus ombros, o Paulo nos ombros do Gregório, o Marco nos ombros do Paulo e deslumbrávamos toda a praia, já não por sustentar uma bola de voleibol no ar durante mais de meia-hora, mas porque éramos profissionais de circo como o Marcel Marceau ou o Chaplin ou o Buster Keaton.
O Governo publicou ontem o decreto que decreta o fim da Pandemia. Acabou assim, por decreto. Há mais de um mês que não há casos, mortes, surtos. As pessoas já tinham deixado de usar máscara na rua e a polícia deixou de as perseguir.
Depois, mesmo sendo proibido, os cinemas e as livrarias voltaram a encher e as pessoas voltaram a dar beijos na boca, também entre estranhos.
Mesmo assim zero casos, zero mortes no mundo inteiro.
E eu, antes de entrar no mar, beijei na boca a vareira de Armação.
E agora é a dor de tudo ser tão perfeito que o presente se torna impossível a não ser que eu morra aqui e alguém o consiga relatar amanhã no jornal Terra Ruiva:
Escritor beija Armação na boca e corta as veias ao largo enquanto fixava a vila nos olhos, esvaindo-se serenamente e em paz. Mesmo morto, conseguiu boiar sobre o círculo perfeito do seu próprio sangue, disse o faroleiro que o observou e registou do topo das velas de cimento.
Noutro registo, a pandemia acabou.
Paz à sua alma.
Texto: Pedro Guilherme-Moreira
Pedro Guilherme-Moreira nasceu e vive no Porto há 54 anos e é armacenense de coração há mais de 40. É advogado e escritor publicado na Dom Quixote. Tem três romances publicados e começou-os a todos em Armação. Foi finalista do Prémio Leya como escritor e venceu o Prémio Pina de poesia e o Prémio Lopes Cardoso como advogado.
Pugna pelo futuro da leitura e da literatura e da cultura no Algarve.







