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Opinião

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António Guerreiro
Última Atualização: 2023/Set/Sex
António Guerreiro
3 anos atrás
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Alguns livros e filmes abordam apenas um dia na vida dos personagens, por vezes nem sequer um dia, apenas algumas horas. Algumas horas, um dia, um verão, um ano, são igualmente transpostos para o cinema, no mesmo tempo cinematográfico, de cerca de duas horas. Tal como nos sonhos, o tempo não existe cronometrado pelos artefactos que regulam os nossos dias, aos quais chamamos de relógios e de calendários.

Nos livros, já me parece diferente, porque depende muito do leitor, do ritmo acelerado ou cadenciado da leitura. Um livro, que pode abordar um século de solidão, pode ser lido em poucos dias, mas também um livro, que pormenoriza um dia na vida de alguém, pode ser intensamente lido ao longo de um verão, quem sabe de um ano. Naturalmente que os filmes podem (e devem) ser revistos, compassadamente revisitados.

Um dia na nossa vida, numa vida de dois minutos, o tempo que sobrevivemos sem respirar, sem oxigénio. Terei alguma coisa para contar sobre um dia na minha vida? Um dia reconstruído ao longo de duas horas cinegráficas? Um dia reescrito nas cento e cinquenta páginas de um pequeno romance? Nada me ocorre como relevante para este exercício de escrita ou de argumentação fílmica. Provavelmente nenhum dos meus dias é diferente de todos os outros medianamente felizes ou insuficientemente infelizes.

Por isso, tenho muita dificuldade em reconstruir, mesmo que mentalmente, um dia, com toda a singularidade dos minutos, das horas, das vinte e quatro horas.

Contudo, por vezes, apenas num momento, compreendemos toda uma vida, todo um porquê do indiscutível posicionamento em defesa da dignidade humana.

Num diálogo entre dois amantes masculinos, na série Hotel Portofino (criada por Matt Baker), sobre as ideologias fascistas, na Itália dos anos 20 do século XX, e a necessidade de resistir:

– Vale a pena virares as costas à tua família, ao teu … aos teus amigos? Vale a pena arriscares assim a vida?

– Achas que são uma anedota. A pavonearem-se como uns galos com aquelas fardar ridículas [os fascistas], mas são pessoas que tentam explorar o pior que há em nós. A nossa ganância, o nosso egoísmo, a nossa capacidade de odiar… Não querem saber de nada do que nos torna únicos. Seres humanos diferentes e amáveis. Só conhecem a mentalidade de grupo. Não há lugar no mundo deles para pessoas como nós.

Surgiu o momento em que pensei em outros protagonistas atuais que exploram o nosso medo, o nosso egoísmo, e nos tiram a energia da revolta, mas também do amor pelo outro. Somos seres humanos diferentes e amáveis, é preciso é resistir, sempre resistir pela dignidade humana.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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