Mulher: – Sabes qual é o meu problema? Só conheço meio mundo… e meia verdade.
Homem: – Como assim?
Mulher: – Até agora o mundo estava dividido em duas metades. Quando uma pessoa cresce numa metade… nunca conheceu… nem precisou da outra. Eu sempre me senti estranha na RDA. E agora percebo que… que era o meu lar. Lá… lá sei como as coisas funcionam, conheço as regras.
Homem: – Percebo exatamente o que queres dizer. Agora já não há regras.
Mulher: – Sim. Isso faz-me medo.
Homem: – A mim também.
[Excerto, Alemanha 89 (Deutschland89), série alemã (2020) criada por Anna Winger e Jörg Winger]
Normalmente vivemos apenas no nosso mundo, seja ele real ou imaginário, político, económico, social, cultural e emocional. É o nosso mundo e temos medo, pelo menos receio, quando nos aventuramos no mundo dos outros, particularmente quando o nosso mundo constitui uma metade em nada comum com a metade restante.
Quem sempre viveu nestes 17.500 dias (ou em parte deles) de democracia, com maior ou menor envolvimento social, não consegue imaginar, de facto, como era viver em Portugal antes do 25 de Abril. Eu ainda vivi 4.147 dias em ditadura (quase um em cada cinco dias da minha vida) e pouco me recordo desse mundo de falta de liberdade, com exceção, bem presente, de um sistema educativo baseado na repetição e no medo dos castigos corporais. Era um modelo autoritário que, ainda hoje, se manifesta em alguns pequenos poderes do funcionalismo, dos encarregados de pessoal, dos detentores de saber e de poder, em relação aos demais cidadãos.
Acredito que, se esse regime ditatorial tivesse ido além dos 17.499 dias, seria indiscutivelmente opositor do mesmo, mas nada sei sobre o que realmente teria acontecido, o que na verdade teria acontecido.
Se eu tivesse vivido nos anos cinquenta, que conhecimento teria do verdadeiro mundo que me cercava? Como entenderia a falta de liberdade e de opinião? Em que contexto social e económico teria nascido? Acreditando nas probabilidades teria nascido pobre numa população rural ou semiurbana. E nesse caso, que hipóteses teria de rasgar fronteiras e ascender a um outro lado menos sombrio?
Por isso, para mim, não é estranho que sejam os jovens entre os 25 e os 34 anos aqueles que mais valorizam o 25 de Abril, que mais valorizam o seu mundo, o mundo que sempre conheceram e em que vivem em paz. Um mundo já bem distante desse país salazarista, também em guerra, que repetidamente celebramos o seu fim, neste florido mês de Abril.







