- Plano geral: Enquadramento
O conceito de Cultura abarca diferentes formas de expressão e de interpretação. Uma das distinções mais comuns, mas insuficiente, é entre cultura popular e cultura erudita. Entre esta separação básica, antiquada, mas persistente na sociedade portuguesa atual devido à desigualdade social e consequentes constrangimentos e limitações no acesso à cultura, à educação e às artes, há um vasto universo.
Tentativas de aproximação entre ambas, entre o que é popular e ao gosto do povo e o que é erudito e ao gosto das elites, emergiram e foram postas em prática em contextos sociais e políticos revolucionários, como é o caso do nosso Prec e das ações de dinamização cultural ou em regimes políticos que puseram os operários a ver ópera.
No estado atual da Cultura e do desenvolvimento da nossa democracia, muitas linguagens artísticas e formas de criatividade emergiram e quer o Estado através de instituições como o ministério da Cultura, quer as câmaras municipais, as associações e até algumas iniciativas empresariais contribuíram para uma expansão massiva da sua fruição.
Do entretenimento puro, sem qualquer preocupação educativa ou pedagógica, à cultura como enriquecimento do espírito humano e interrogação do sentido da vida, individual e social, há um fosso que muitos artistas, agentes culturais e programadores tentaram e tentam superar mas também um gigantesco jogo capitalista de interesses económicos onde a mais valia do entretenimento puro e duro é dominante.
Há formas de cultura que provocam um adormecimento do espírito, outras que nos despertam e acrescentam vida à vida, insuflando sentimentos e pensamentos.
Em 1981, em Silves, houve um festival da Paz e Cooperação, organizado pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (louvável instituição mas manifestamente ideológica em que as ameaças à paz mundial vêm apenas de um só lado), em colaboração com a Câmara municipal. Esta excelente iniciativa trouxe a Silves, nomes notáveis como Carlos Paredes e António Victorino de Almeida, exposições, um ciclo de cinema, enfim, foram dias em que a cidade vibrou (um jovem hoje diria que havia uma boa vibe) com a música, as artes, havia uma alegria festiva e criativa nas ruas e palcos.
Eu e o meu amigo Fernando Vicente, jovens estudantes do Secundário, tivemos então oportunidade de ver um filme, Soldado Azul, de Ralph Nelson, que mostrava o massacre do povo Cheyenne, em Sand Creek, em que crianças e mulheres índias foram violadas e mortas pelo exército dos Estados Unidos. As lágrimas corriam-nos pelo rosto, incapazes de conter a emoção. E mais do que qualquer aula, esse filme foi para nós profundamente significativo, não só nos emocionou como fez compreender e sentir revoltados contra os genocídios da chamada civilização superior para com os povos nativos. E a arte, no seu melhor, é isso, é o que mexe connosco e nos desperta e alerta para as injustiças do mundo. Ouvi e senti também, pela primeira vez, Carlos Paredes esticar as cordas da alma com as cordas da guitarra portuguesa.
- Plano crítico e político: Silves no presente
E a Silves do presente, minha bela e leda cidade adormecida, como insuflar-te vida e animação…Que presente te habita num tempo tramado e de horizontes pouco claros. Não basta viver à conta do passado, do imenso legado patrimonial e histórico da cidade, do facto do Castelo ser um dos monumentos mais visitados do Algarve, da Sé e do belíssimo museu municipal de arqueologia. Sem dúvida, há trabalho feito e reconhecido na recuperação e valorização do património, tão importante para a preservação do sentido de identidade e do sentimento de pertença de uma comunidade. É o caso também do premiado e, infelizmente, fechado museu da Cortiça. Mas até nesta área a cidade já poderia ter aberto ao público mais núcleos museológicos, como é o caso da Arrochela.
Precisamos de uma ambição de futuro e de uma estratégia de afirmação que torne a cidade culturalmente mais atrativa. Que solução para o Cineteatro, esse edifício habitado por tantas e tão belas vivências e memórias por gerações de silvenses e hoje votado ao abandono?… Há vontade política para resolver a situação?!?.. Não é tristemente curioso que o empresário, filho de Silves, que abriu e mantém cinemas em diferentes cidades do Algarve (Lagos, Portimão, Olhão) não o tenha até agora conseguido na sua terra natal… Carlos Matos, de seu nome, exemplo de independência, resistência e persistência no mundo empresarial da exibição cinematográfica dominado por grandes grupos económicos.

Não há um horizonte na área da cultura, há uma navegação à vista; e salvo algumas honrosas exceções, como as comemorações do Centenário de João de Deus, a maior parte da programação e oferta cultural Geopalcos, Bezaranha, Orquestra do Sul são iniciativas alargadas, de âmbito regional, não são mérito nascido da iniciativa local. Mais difícil de entender é que um executivo CDU, que tem no poder autárquico uma forte imagem de marca de aposta na Cultura esteja tão afastado desse desígnio na cidade de Silves?!?… A feira medieval realizada no pico do Verão é, sem dúvida, uma grande iniciativa que tem vindo a crescer ao longo dos anos e uma imensa fonte de receita para o comércio e a restauração. Mas a cidade não pode ficar culturalmente refém do grande evento, precisa de novos projetos e mais ousadia política. Para mais num tempo, em que uma pandemia que parece não ter fim, implica fortes restrições a grandes ajuntamentos de pessoas. Assim, mais do que um problema de partido, apesar da importância das opções políticas, penso que temos um problema pessoal de liderança
E ponho o foco na cidade, pois enquanto as freguesias do concelho têm ganho incremento e considerável dinamismo económico e social, Silves apesar do esboçar de algumas iniciativas não consegue rivalizar e ser potencialmente mais atrativa do que vilas e cidades limítrofes, dentro ou fora do concelho. Daí a importância de Silves se definir como cidade rosto e exemplo do concelho, principal pólo urbano aglutinador e centralizador. E aqui talvez discorde do jovem historiador que muito admiro e escreve neste jornal, que uma vez afirmou em entrevista que Silves e o concelho sempre teve melhor vereação com líderes oriundos de Messines. Não me parece ser o caso indicativo no presente, pois há uma manifesta falta de sensibilidade política e cultural para encarar o que é hoje Silves, o que já foi e o que poderia vir a ser.
Mais do que um problema de vontade e poder político será um problema dos silvenses, espécie de letargia colectiva que se apoderou dos seus cidadãos com o declínio da cidade e consequente perda de dinamismo económico e social?… (Não quero entrar nesta complexa questão já aflorada noutro contexto). Mas se for o caso, porque não avivar o orgulho das pessoas através de um conjunto de iniciativas, por exemplo da fotografia, de exposições fotográficas, em que os moradores da cidade são postos em evidência, mostrados e evidenciados nas ruas, em painéis e e paredes, pelas suas profissões, carisma e exemplos de vida. À semelhança do que foi feito em Quarteira, por iniciativa do movimento Sou Quarteira, que tem no artista Dino de Santiago um dos seus principais ativistas.

E em Silves, como em todo o Algarve, em que o turismo é o motor quase único e exclusivo da vitalidade da economia, também assistimos à fusão tão em voga de não conseguir planear a ação cultural sem ser numa perspectiva turística. Não é que esta aliança não seja desejável e produtiva. O chamado turismo cultural é uma alternativa ao sol e praia e traz novos e diferentes turistas. O que é problemático e questionável é o esboçar cada vez mais notório de um pensamento único neste cruzamento entre Cultura e Turismo. Não se deve pensar e estruturar a reboque do factor turístico, mas sim dos que vivem a cidade no dia a dia, da sua vivência quotidiana, da preservação de geografias urbanas de proximidade. E se for bom para os de cá também é para quem nos visita. Por exemplo, faço votos que a Casa do Forno, em tão boa hora reabilitada, não seja tão somente a “Casa Mãe dos vinhos e outros produtos locais” como está enunciado, mas seja sobretudo um lugar de memória associado à história da cooperativa de origem operária A Compensadora e do pão. De lojas e lojecas, de vinhos e licores, de doces e docinhos já temos que baste.
É na Cidade que se projetam e constroem os espaços sociais e cruzam-se todos aqueles sistemas de símbolos e signos, representações e vivências, que a partir da apropriação individual tornam possível uma identidade cultural.








