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Memórias Breves (38) “João de Deus – Escorço Biográfico”

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2022/Jan/Qui
Teodomiro Neto
4 anos atrás
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TEÓFILO  BRAGA, Figura notável, grau Doutor. Em 1915 é nomeado presidente da República. Figura intelectual na política, foi, desde Coimbra um admirador do Educador-Poeta João de Deus. Nessas amizades mútuas, Teófilo Braga publica o “Escorso Biográfico” do Educador, que se regista em fim do século XIX-XX. Fez publicar, em edição: “PORTUGAL-BRASIL”, esse  “reduzido estudo”, pelo autor assim considerado.

E assim, nas suas 30 páginas, o Amigo Teófilo levou  o Poeta-Educador, aos dois continentes, na Homenagem ao Homem da Cartilha Maternal e da Poesia, já modernista:

“A alma portuguesa caracteriza-se pelo sentimento vivo e pela paixão impetuosa. Assim a definiu Lope de Veja pela alta intuição da arte. Quem melhor der expressão a esta emotividade orgânica, esse representará no seu mais profundo aspecto do génio nacional. Bernardino Ribeiro e Christovam, Camões e Bernardes, Francisco Manuel de Mello e Rodrigues Lobo, Bocage , Garrett e Soares de Passos, fixaram nas suas idealizações nesta vibração collectiva, que os identifica com a sentimentalidade nacional, através das épocas históricas e das correntes do gosto literário. Nesta pleiade fulgurante incorpora-se João de Deus, tendo de todos esses espíritos, o que eles descobriram no mais bello, delicado e expressivo aliado a uma individualidade original, exercendo uma ação de concórdia na crise de instabilidade moral que o tempo atravessa. Nesta crise violenta porque passa a nossa nacionalidade, olhar para João de Deus como poeta que nos pacifica. Como se creou uma tão superior organização poética? A poesia portuguesa da geração actual não pode ser bem compreendida sem se definir a acção que João de Deus exerceu nas vocações dos novos talentos. Na pequena povoação de San Bartholomeu de Messines, nasceu João de Deus, 8 de março-1830. João de Deus foi o 5º filho. O Algarve levou bastantes séculos para que aqui se manifestasse uma organização poética. É significante a frase de Junot, Fevereiro de 1808:” Les provinces d´ Algarve, auront, peut-être, un jour leur Camoens”. Servindo a causa do ensino.

Ilustração: João de Deus – Escorço biographico por Theófilo Braga- Presidente da República Portuguesa = Lisboa- Portugal Brasil. Sociedade editora- Arthur Brandão.

Basta olhar para o retrato de João de Deus. Tem o sorriso de Ariosto, bandoso mas dominativo, que não destôa do seu typo árabe… na sua vida, a melhor parte passou-a na acção do contemplativo. Assim atravessou a Universidade de Coimbra, assim se libertou das intrigas da política, dos partidos médios. No meio académico era estilizante. O Poeta ligava de coração a essa mocidade turbulenta. João, tornou-se o typo lendário. O João… a simplicidade nativa por onde elle soube achar o veio tradicional do lyrismo português, cuja relação entre as “Serranilhas” dos Concioneiros  trobadorescos e as canções populares está hoje reconhecida. Na estreia literária de 1858 encontram-se versões, ao Túmulo, sobre Victor Hugo: “Corre a  Nação aflita a ver se ele está morto”. Sobre  impressões assim intensas, é que se escrevem poesias como  Canção X de Camões : Junto de um secco, duro, estéril monte, como o Crisfal, como a “Vida”, por João de Deus. Estava revelado em todo o esplendor

João de Deus achava-se deslocado no meio, regressou a Messines, pelas   conveniências políticas de um jornal político de província. Esgotava-se na polémica. Em 1868, foi o poeta eleito deputado por Silves, por iniciativa de alguns amigos que lhe admiravam a eloquência natural. Em 1870 foi convidado pelo gerente da casa Rolland para fazer uma Cartilha. João de Deus achou-se investido de uma missão: a educação popular. Criou o seu método novo de leitura. Logo se encontrou, em todo o esplendor, o talento poético, revelado. O profundo amor por Camões, foi para João de Deus mais do que uma intuição de artista. Começou por fazer reviver a forma esplendida do Soneto. Revela-se, também , na sátira. O lyrismo em João de Deus, embora derivado de uma individualidade cujas qualidades morais reflete. Caracteriza-se por uma profundidade simples e lapidar. É por isso que o seu lyrismo é inexcedível e, como isso, explica como tão cedo exerceu sobre nós toda uma acção profunda. João de Deus achava-se deslocado no meio das pequenas conveniências de um jornal político. Encarando o problema pelo lado efectivo, achou uma forma racional e simples para a arte de leitura. João de Deus serviu a causa do ensino popular como um verdadeiro apostolado, dotado da doçura de um Froebel e da bondade de um Pestalozzi. O méthodo de leitura propagou-se, com a sua “Cartilha Maternal”. Em 1868, foi o poeta eleito deputado por Silves, por iniciativa de alguns amigos que lhe admiravam a eloquência natural ; elle não conhecia  o que é a política dos  partidos médios, que têm falsificado o regime do constitucionalismo. Com a eloquência única pela espontaneidade e que pelo ideal, achou-se numa camara sem ideias, então denominada dos Possidónios. João de Deus que não sabia intrigar, não quis pôr-se ao serviço de um bando que levava ao poder e ás honras os seus fundibulários. Fugiu a tempo. e contentou-se ser um simples homem de bem. Não tornou a ser eleito deputado. Fixou, então, de vez a residência em Lisboa, que se agitava com as primeiras correntes democráticas. Foi esta a forma com que se propagara  a nova Eschola de Coimbra, que no Porto se manifestara essencialmente crítica. João de Deus sofreu terríveis angustias diante do problema económico da vida. Com o título de “Flores do Campo”, 1868, a impressão provocada foi grande. Mas o poeta ia entrar numa terceira fase da expressão  do sentimento: a paixão da realidade. Em 1870 foi convidado pelo gerente da casa ROLLAND para fazer uma CARTILHA. João de Deus achou-se investido de uma missão : a educação popular. Creou o método novo de leitura na CARTILHA MATERNAL, publicada em 1877. O seu espirito apáthico tornou-se activo; aquela natureza contemplativa mostrou-se armada das mais finas ironias que o fizeram invencível na polémica com que defendeu o seu méthodo do assalto da rotina professoral. Às lutas doutrinárias seguiram-se lhe as complicações da exploração gananciosa da livraria que se apoderou da Cartilha Maternal. Tendo constituído família, lutando com a exiguidade dos meios toda a actividade era dispendida no ensino. Encarando o problema pelo lado afectivo. João de Deus serviu a causa do ensino popular como um verdadeiro apostolado, pondo em acção a bondade infinita. Mas o Poeta teve de lutar para arrancar a Cartilha Maternal da exploração dos ávidos livreiros, numa cruzada de descrédito, pelos normalistas de Lisboa. Nas polémicas diárias da imprensa de Lisboa, João de Deus revelou-se um prosador de primeira ordem e um polemista cuja força era a noção do bom senso. Em Julho de 1888, o deputado açoriano Augusto Ribeiro, apresentou ao parlamento, uma proposta para ser creado o lugar de Comissário Geral do 1método de leitura – Cartilha Maternal- ,com um vencimento anual de 9oo$oo. A proposta passou, mas logo Oliveira Martins eliminou, com um traço de penna, essa despeza.

Quando  João de Deus esteve à morte – 1893, disse que o consolava a lembrança de que estava realizada a edição  dos seus versos. João de Deus ficou pertencendo à História. O Poeta já doente, debilitado. A morte veio consumar-lhe a imortalidade, em 11 de Janeiro de 1896.

 

 

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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