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Opinião

Biodiversidade, o que é e por que a devemos conservar

Frederico Mestre
Última Atualização: 2020/Out/Sex
Frederico Mestre
6 anos atrás
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Biodiversidade. Para muitos, este é um conceito vago. Para outros, não significa nada, para além de algo que atrapalha o desenvolvimento económico. Outros ainda repetem esta palavra na esperança de aparentar preocupação ambiental. Mas o que é a biodiversidade? Para que serve? Deve servir para alguma coisa?

A ideia mais comum é que “biodiversidade” é o conjunto de todas as espécies que existem no nosso planeta. Mas não é só isso. Biodiversidade é também toda a diversidade que cada uma dessas espécies encerra (a sua diversidade genética) e toda a diversidade de interações que estas espécies estabelecem entre si. Portanto, levando a etimologia da palavra à letra, a biodiversidade encerra toda a diversidade biológica.

A pergunta seguinte é, por que a devemos conservar? Esta pergunta advém do facto que estamos imbuídos de uma perspetiva utilitarista do mundo natural. A biodiversidade é algo que tem de nos servir. Em rigor, não tem. Mas, de facto, serve. O que quero dizer é que não somos nós que lhe devemos atribuir utilidade, nem essa utilidade justifica a necessidade de conservação.

Mas o facto é que, quer queiramos quer não, tem-na. E isso acontece porque também somos parte integrante da biodiversidade.

Este prelúdio vem a propósito de um relatório recente acerca do estado da biodiversidade global, o “Global Biodiversity Outlook 5”. Este relatório reporta o estado de desenvolvimento das Metas de Aichi que deveriam ter sido atingidas entre 2010 e 2020. Devem o nome à Província de Aichi, onde decorreu a 10ª Conferência das Partes na Convenção da Diversidade Biológica em 2010, onde estas metas foram definidas. As 20 Metas de Aichi estão agrupadas em cinco objetivos estratégicos. Estes são, resumidamente: tratar das causas fundamentais de perda de biodiversidade; reduzir pressões; promover a sua conservação; promover os serviços dos ecossistemas; promover o planeamento participativo, gestão de conhecimento e capacitação.

O relatório pinta um cenário catastrófico, com seis metas só parcialmente atingidas e 14 completamente falhadas. Esta falha de cuidarmos de um sistema complexo de interações do qual dependemos é incompreensível. Algumas das metas cumpridas são aspetos relativamente simples, como designar áreas protegidas, definir estratégias nacionais de conservação ou promover e difundir o conhecimento sobre a biodiversidade. Outras, mais ambiciosas, que envolviam mais trabalho no terreno e um efeito mais transversal em outras políticas (incorporar a conservação da biodiversidade em outros aspetos da governação, reformular subsídios – eliminando os que são prejudiciais e promovendo os que forem benéficos) ficaram para trás. Mesmo aspetos relativamente simples, como a promoção do conhecimento acerca do que é a biodiversidade e dos passos que temos de dar para a conservar e usar de modo sustentável, não foram cumpridos.

A diversidade biológica, da qual fazemos parte, interage. As espécies “prestam serviços” umas às outras. Aos serviços que a biodiversidade presta convencionou chamar-se serviços de ecossistemas. São muito diversos, e efetivamente, dependemos deles para a nossa sobrevivência enquanto espécie. São exemplos de serviços de ecossistemas a polinização, o controle de pragas das culturas, a retenção de carbono ou o ar que respiramos.

Mas, a um nível mais profundo, por que precisamos de motivos para conservar a biodiversidade. Sendo que somos parte integrante, que dependemos dela, precisamos mesmo de um motivo? O esforço para conservar a biodiversidade é um esforço para nos salvarmos enquanto espécie. Tem de ser uma preocupação. Os políticos e o público em geral devem também aqui dar ouvidos aos cientistas. Deve ser cuidada por todos, nas nossas casas, na nossa região e no nosso país.

Para que esta comunidade imensa e fantástica de seres vivos que coexistem e interagem neste “grão de areia suspenso num raio de Sol” (Carl Sagan) sobreviva.

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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