A penúltima casa
Dedicado ao meu irmão José dos Reis Vieira
Acordou cedo. Pela semiobscuridade do quarto apercebeu-se da antecipação da hora, não havia sinais dos dias crescidos e luminosos do Verão. Ergueu a mão sobre a mesa-de-cabeceira, procurou o candeeiro e acendeu a luz.
De repente, não era mais uma vaga percepção, mas a nítida clarividência de uma nova realidade. Estava numa outra casa, num lugar estranho. No começo de tudo o que está ainda por conhecer. Ao levantar-se, o corpo dorido acusou marcas recentes que a memória dificilmente tentava associar: não chegou a perceber bem, foi tudo tão rápido e confuso, a ambulância, o hospital, a vida a esvair-se, a ficar suspensa na inconsciência e finalmente a vitória sobre a morte.
– Um homem de sorte – comentaram as pessoas que souberam do sucedido; familiares, amigos e conhecidos vieram visitá-lo. O filho a viver na América atravessou o Atlântico para o ver, desta vez não repetiu o que dissera em anteriores visitas. Era demasiado tarde, olharam-se em silêncio, ambos sabiam que nada voltaria a ser como dantes. O filho, antes de partir, cuidara de tudo; obtidas as necessárias referências, deixara-o instalado numa boa casa de repouso. Seria apenas o tempo de recuperar e qual seria o tempo de recuperação? – perguntava-se o velho, deslizando pelas paredes nuas do quarto o olhar triste. Não havia uma certeza, alguns meses – dissera o médico.
Quem sabe, às vezes a natureza consegue ludibriar os racionais vatícinios da ciência, neste momento muitas dúvidas e incertezas povoavam-lhe o espírito. Estava cansado. Não tinha mais poder de decisão sobre a sua vida, só lhe restava aguardar os insondáveis desígnios de Deus. Olha agora, demoradamente, as fotos da família sobre a mesa-de-cabeceira e recorda tudo o que deixara para trás na pequena cidade à beira rio.
A casa vazia, as toalhas, as loiças, os vidros e os talheres fechados no silêncio dos armários; o gato não espreita, pelo postigo da janela, a nossa presença, o rumor dos passos pela casa, não fareja o aroma da saborosa caldeirada temperada com ervas aromáticas colhidas no quintal. Era sempre depois do almoço, a despedida e o último adeus à porta de casa, o carro a desaparecer na esquina ao fim da rua.
Caminha agora pelo comprido corredor, é o seu primeiro dia, vai devagar, as costas dobradas, um ombro a descair para o lado; a mão sobre a bengala, um passo em frente e outro e outro, cautelosamente, tentando equilibrar-se sobre as pernas. Da sala chega-lhe o aroma do pão fresco e do chocolate quente a fumegar nas chávenas. Sentados ao redor da mesa estão todos aqueles com quem vai partilhar o mesmo espaço. Senta-se no lugar indicado, o mesmo onde irá sentar-se no dia seguinte. Amanhã será o dia seguinte. Hoje é ainda um lugar estranho, onde a presença não toca a normalidade dos dias.
Terminada a pequena refeição, os seus companheiros afastam-se, retomam conhecidos hábitos, alguns formam pequenos grupos, conversam, outros sentam-se silenciosos frente ao televisor e há ainda aqueles que permanecem imóveis em suas cadeiras, olhando sempre em frente para lugar nenhum. Ele fica, permanece sentado, não sabe para onde ir. O presente é ainda um círculo fechado, sem palavras, onde habitam todas as memórias e o futuro um ponto de interrogação desenhado no tempo.
E se o tempo parasse?… Não existisse mais futuro… E ele retido na imobilidade do tempo… Essa ideia assusta-o, de repente o ar torna-se irrespirável, um sufoco, uma tosse seca sacode-lhe o corpo. Não, não é possível, tem de haver uma saída, faz um esforço, levanta-se e nesse preciso momento um fio de luz atravessa o refeitório e desvia-lhe o olhar e o rumo dos passos.
Aproxima-se da porta e olha para o jardim e para lá do jardim toda a paisagem a estender-se até um horizonte longínquo. É um olhar deslumbrado, como se olhasse todas as coisas pela primeira vez; chegam-lhe sons a ressuscitar a inocência poética de aves que cantam e a luz solar aquece-lhe o corpo com o doce e morno afago de sempre. À sombra das acácias, alguém lê um livro, parece-lhe uma delicada cabeça feminina, à distância não consegue definir-lhe os traços de beleza ou passagem do tempo.
Está sentada numa cadeira de rodas, o busto inclinado sobre o livro. Ele aproxima-se, tem vontade de dizer-lhe bom dia e ficar aguardando o que vier depois. Desiste, não quer ser importuno, não tem pressa, sabe que ela, aquela suave presença humana, está por perto. Recomeça a andar, os passos são lentos, tímidos, mas ganham alento; sabe que terá de aprender e ainda está no começo, vai devagar pela sombra das buganvílias, vai descobrindo novas sensações e pensamentos.
Texto de Maria de Lurdes Águas Vieira









