Na secção Memórias lembramos o texto “Feira do Folar em São Marcos da Serra, A Festa dos Sabores”, publicado na edição nº 12, de abril de 2001.
Decidida a verificar o sucesso da Feira do Folar cheguei a S. Marcos da Serra à tardinha, quando o sol é mais brilhante e menos quente. O recinto com as barraquinhas coloridas, as mesas de merenda dispostas ao centro, a relva verdinha e fofa a convidar ao repouso, estava bonito. A igreja coroava o local, imponente e simples na sua alvura. Ao largo, onde quer que se lançassem os olhos rodeavam-nos os montes da Serra Algarvia. O Caldeirão está em festa, com flores de todas as cores a criarem tapetes que contrastam com o verde predominante.
Foi no meio da azáfama que a Feira, na sua 3ª edição, já angariou, que encontrei a Dª Natalina. Mas, não sem antes ter apreciado as bonitas decorações que cada um fez. Por entre os atropelos e ao som do grupo “Fonte Nova”, encarregue da animação, lá fui eu. Encontrei bonecos de tamanho real, com fatiota a rigor, a cuidarem dos afazeres que as gentes do campo tão bem conhecem, encontrei as mós a triturarem o milho para as papas, fieiras de linguiças e chouriços de sangue reluzentes e a escorrerem a gordura, bonitos escaparates adornados com louças antigas, potes de mel de cores com cores e sabores para todos os gostos, toalhas de linho, arcas de madeira onde as moças guardavam o enxoval e o precioso “medronho” da nossa serra. As mesas improvisadas para os comeres estavam cheias de gente que se esquecia do tempo Santo e da celebração da Quaresma e se entregava aos prazeres de degustação do presunto de porco preto, conservado à nossa moda, acompanhado do pão caseiro.
Como eu ia a dizer, a Dª Natalina, vencedora do concurso do “Melhor Folar” do ano passado contou-nos o seu segredo. A receita é antiga, da avó da sogra, que lha ensinou a ela. Já há algum tempo que faz folares, e outros bolos nas épocas festivas que vende em sua casa para quem lhe encomenda. Nunca teve necessidade de ir vender os seus bolos, as pessoas conhecem-lhes a fama e mais … os sabores. Passam a palavra e nestas alturas chovem as encomendas. Aqui entra em acção toda a família a ajudar, mas só a tender e na cozedura, porque a massa é obra dela própria. Diz a mãe à socapa: “É muito habilidosa esta minha filha, e estes chouriços e o presunto é ela que os faz!”
Isto da Feira do Folar é que foi uma surpresa. Participou logo no início apenas para experimentar, fez uns 200 e vendeu-os todos, este ano aponta para uns 1200. “São tantos que já lhes perdi a conta, agora já arranjei uma amassadeira das pequeninas!” Nunca pensou que os seus folares fossem tão apreciados. “Nem sei que lhe diga, eu nunca tinha ganho nada, nem tinha subido a um palco. Nem sabia o que dizer.” Mas, a comprová-lo lá está um magnífico prato em barro com a famosa chaminé de São Marcos da Serra.
Há dias que não pára , tem que amassar, tender e cozer. É que esta arte tem os seus segredos: no princípio a casa está fria e a levedura demora mais tempo, depois o calor do forno a lenha reduz a espera para metade. Testa-se o calor do forno, “tudo a olho”, que estes não têm termómetro, e é ver os folarinhos a cresceram lourinhos e perfeitos, às fornadas de 30 de cada vez.
À pergunta fatal sobre o seu sucesso diz-nos: “os ingredientes são os mesmos que toda a gente usa… mas o que eu acho que os torna diferentes é que eu não tenho medo de fazer o chá bem forte!”
E é com desejo de uma boa feira e um folar debaixo do braço que abandonamos o largo da igreja da aldeia de São Marcos da Serra.
Texto: Mónica Gonçalves
(Não nos foi possível recuperar a foto original)







