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História & PatrimónioSociedade

Alguns documentos para a história do Algoz, antes do século XVI

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2020/Fev/Qui
José Manuel Vargas
6 anos atrás
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Anteriores à criação da freguesia do Algoz (séc. XVI), são muito raros os documentos escritos que nos informem sobre a história da povoação nos seus primórdios. Na ausência dessa documentação, tem-se recorrido a outras fontes (arqueológicas, toponímicas, tradicionais) para esboçar, por vezes de forma fantasiosa, um quadro explicativo das origens e evolução do Algoz. Assim, continuam a divulgar-se, como certezas históricas, imaginativas teorias sobre um hipotético solar dos Tenreiros, ou outras conjecturas vagamente sustentadas.

Portal de finais do século XV, inícios do séc. XVI, Algoz

Entretanto, nos últimos anos, têm sido conhecidos alguns documentos que poderão, sobretudo a par da investigação arqueológica, lançar nova luz sobre o passado desta antiga freguesia. Desses documentos, apresentamos uma breve síntese, com resumos e transcrições parciais, por ordem cronológica:

SÉCULO XV

– 1403, Abril, 9 – João Eanes do Algoz, morador em Albufeira, referido num contrato de venda (ANTT, Ordem de Avis, nº 752)

– 1444, Março, 25 – D. Afonso V privilegia João Eanes-o-Velho, acontiado em cavalo raso, morador em Algoz, concedendo-lhe aposentação pela idade de 70 anos. (ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 24, fl. 59v

– 1491, Janeiro, 12 – Carta de perdão a Gomes Raposo, morador em Algoz (ANTT, Chancelaria de D. João II, Liv. 25, fl. 58v)

Dom João, cet. «Sabede que Gomes Raposo, morador em Algoz, termo da nossa cidade de Silves, nos enviou dizer que um Lourenço Vasques Neto, querelara dele dizendo que ele suplicante saltara com ele quereloso onde andava no termo da dita cidade alqueivando em uma terra de propósito e lhe dera muitas pancadas e uma ferida pola cabeça, pola qual querela ele suplicante andava amorado. E diz que o quereloso lhe perdoara, como prova o público instrumento apresentado, feito por «Afonso de Magalhães, tabelião por Nós em a dita cidade», aos 28 de Abril de 1490. E enviou-nos pedir que «lhe perdoássemos a nossa justiça (…) porquanto o dito quereloso era são e sem nenhum aleijão e lhe perdoara»… E Nós vendo isso, se assim é, «visto o perdão da parte… Temos por bem e perdoamos-lhe a nossa justiça… contanto que ele pague 1.000 reais pera a [Arca da] Piedade».

SÉCULO XVI

– c. 1525 – Um índice do mapa corográfico de Portugal (Códice nº 130 da Biblioteca de Hamburgo, publ. Suzanne Daveau, Um Antigo Mapa Corográfico de Portugal (c. 1525), Lisboa, 2010) refere a povoação de Algôs, entre Albufeira e Alcantarilha. Assinale-se que no conhecido mapa de Álvaro Seco (1561) não é mencionado o Algôs, mas sim Pêra.

– 1541, Novembro, 12 – Caderno das pessoas de cavalo e armas de Silves

(ANTT, Corpo Cronológico, Parte II, maço 235, nº 45 (publ. Miguel Moniz Côrte-Real, in “O Mirante”, 2007, pp. 57-95)

Título de Alcantarilha e Pera e sua freguesia, termo desta cidade (…): Afonso Anes do Algoz, não tem criação, tem cavalo e couraças e lanças (…);

Fernão Rodrigues do Algoz, não tem criação, tem rocim de marca e lança (…); Diogo Estevens do Algoz, não tem criação, tem rocim de marca e lança.

– c. 1550 – Tombo do Almoxarifado de Silves, (publ. Miguel Moniz Côrte-Real, Silves, 2007

Inês Pincha tem mais no lugar do Algôs termo da dita cidade de Silves um forno de poia de cozer pão que parte de uma parte com casas de Domingas Estevens, viúva, e da outra com casas de Pedro Lourenço e das outras com chãos vagos, o qual forno é da Coroa do Reino e paga dele de foro 300 reais por ano. (…) Item, Rui Lourenço e Breatiz Afonso, sua mulher, moradores em Benesiate … tem um forno de poia no lugar do Algôs que parte com rossio e com casas de Vicente Lourenço e André Afonso.

– 1587 – Início dos Livros de Registo Paroquial (Arquivo Distrital de Faro). Obs.: A freguesia foi criada depois de 1541 e antes de 1587.

– 1589, Setembro, 12 – Presença de ciganos na freguesia

Aos doze dias do mês de Setembro da dita era [1589] bautizei eu António Gonçalves, cura, a Maria, filha de Martim de Fustamante e de Luzia Martins, siganos. Foi padrinho Vicente Vasques e madrinha Domingas Gonçalves. E por verdade assinei (António Gonçalves).

1598 – Informação do Bispo do Algarve ao Papa (Arq. Sec. Vaticano), publ. “Anais do Município de Faro”, 2000, p. 225)

Nossa Senhora da Piedade no lugar do Algoz tem cento e onze fregueses e trezentas e noventa e três almas de confissão. Pagam o Cura à sua custa.

Estes e outros documentos que uma pesquisa mais minuciosa acabará por revelar, analisados comparativamente com os dados da investigação arqueológica que apontam para uma vila romana, depois alcaria islâmica, no sítio de Algoz Velho (próximo à ermida de N. S. Pilar), poderão confirmar o grau de veracidade da tradição referida pelo Padre Luís Cardoso, em 1747 (Dicionário Geográfico, Tomo I, Lisboa, 1747, pp. 289-290): É tradição que fora vila, de que ainda hoje se vêm vestígios de povoação, pelos retalhos de alicerces de grossas muralhas, e outros edifícios demolidos, muitos portais e pedras lavradas.

É um desafio que fica para os investigadores.

 

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TAGGED:AlgozdocumentoshistóriaJosé Manuel Vargas
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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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