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Opinião

Cidade

António Guerreiro
Última Atualização: 2019/Jan/Qui
António Guerreiro
7 anos atrás
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Coimbra, sábado, treze e trinta, hora de almoço, um jovem musculoso em tronco nu, tipo gladiador romano, passa por mim em passo de corrida, na mesma direção, mas em sentido oposto. Aquela imagem inesperada, num contexto urbano, junto ao estádio municipal, e outonal, meados de novembro, podia constituir parte de um vídeo promocional de algum perfume, nesta época natalícia, mas, em mim, materializou uma das personagens centrais do livro «O caso Sparsholt», que estou a ler, nas últimas quarenta das quinhentas e quarenta e quatro páginas, do escritor inglês Alan Hollinghurst, em que quase todos os intervenientes são homossexuais. Nas primeiras páginas, do volumoso romance, David Sparsholt «se tornou lentamente visível, uma figura com uma reluzente camisola de alças, a levantar e a baixar regularmente um par de halteres» (página catorze). As personagens dos romances concretizam-se nas cidades.

Esta associação entre personagens de romances e realidade, reportou-me para as aulas de português do nono ano, com o professor e padre Joaquim Beato, em que fomos advertidos a não confundir a realidade com a ficção, particularmente no caso do «O Crime do Padre Amaro» de Eça de Queiroz. Dizia-nos que entrar numa igreja, observar uma mulher ajoelhada a rezar e imaginar uma das figuras desse romance era totalmente desadequado e perigoso, porque estaríamos a atribuir a essa imagem um perfil psicológico e comportamental, eventualmente, muito distinto da realidade. Os romances são ilusões, são naturalmente ficção, e o jovem musculado que corre não é necessariamente homossexual.

Leiria, sexta, oito da tarde, novembro, a Livraria Arquivo prepara-se para mais um evento, referência cultural, na urbe. Uma livraria que é também um espaço de galeria, um auditório, um ciberespaço e uma cafetaria. Acontece na cidade. Uma realidade cultural própria das cidades em que, ainda, existem leitores e consumidores de arte, de bem-estar e de pequenos momentos de prazer, reconhecidos apenas pelas elites.

A leitura assídua de romances sem o propósito académico ou profissional, por aquela pequena faixa de cidadãos, é, por si só, um requinte de uma reduzida aristocracia. Eles reconhecem-se trocando oferendas de livros pelo Natal.

Silves, sexta, dezembro, vinte e uma e trinta, teatro Mascarenhas Gregório, Samuel Úria, a sofisticação de um concerto, em que o próprio se assume como não comerciável em termos estéticos, para consumo de jovens adolescentes ou de perfumes, revelando outras qualidades prazerosas que o sustentam e que sustenta um percurso musical. Acontece que na cidade nada acontece por acaso. A particularidade do gosto musical aprimorado do programador não se repercute em outras áreas, como o teatro, a dança, o canto, o que é por si só uma limitação na possibilidade de alguma vez Silves ser uma cidade cultural.
Não existe uma verdadeira estratégia económica, turística e cultural, para dinamizar a cidade, apenas pequenos fogachos que não perduram no tempo. A cidade precisa de uma visão e de desenvolvimento económico para atrair mais e mais investimento. Só assim, a cidade e o concelho poderão usufruir de recursos económicos para uma verdadeira aposta social e cultural. Não adianta andar a espalhar os bens (insuficientes) pelas aldeias, sem uma estratégia clara que assuma Silves como uma cidade que se afirma, apesar de se localizar no interior. O recente episódio da morte da secular Feira de Todos os Santos é bem o exemplo da negação de Silves, da desistência de se reconhecer como cidade.

Boas leituras, neste período festivo.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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