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Opinião

Investir na ciência das alterações

Miguel Braz
Última Atualização: 2018/Abr/Qui
Miguel Braz
8 anos atrás
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O tempo está a mudar. O IPCC (Painel intergovernamental para as Alterações Climáticas), fala em fenómenos fora do comum cada vez mais frequentes. Foi desenhado um novo cenário com ameaças concretas a nível global, e os nossos estilos de vida vão mudar, tal como o mapa-mundo que conhecemos. O Algarve é provavelmente uma das regiões portuguesas que será mais afectada pelas alterações climáticas. Menos água, subida do nível médio do mar, fenómenos meteorológicos extremos, incêndios frequentes, ciclos de seca permanentes, entre outros. Muitos destes acontecimentos já são sintomáticos por cá, e é demais óbvio que não estamos preparados.

São necessárias políticas direcionadas para proteger os sectores mais sensíveis a estas mudanças, falo nos recursos hídricos, agricultura e turismo. Para além disto, a prevenção é muito importante, sendo que ainda é necessário reduzir os gases feito de estufa. Portugal faz parte do grupo de países europeus onde as energias renováveis fazem parte da sua estratégia global. No Algarve devemos aproveitar este facto, e agarrar os programas 2020 e fundos europeus estruturais e de investimento, afirmando, por exemplo, modos de mobilidade suaves, prevenindo maiores ameaças à qualidade ambiental e à sócio-economia.

Estas ameaças estão identificadas no Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROT), como a sensibilidade da linha da costa, as dinâmicas de carácter erosivo e a vulnerabilidade do território à desertificação do solo.
Para além da prevenção, temos a correção dos problemas que já estão a acontecer. A subida do mar é uma realidade mais que comprovada, e a nossa costa algarvia é uma das mais afetadas, seja em zonas de arribas ou mais arenosas. Será necessário a deposição de área em locais específicos.
As barragens são um dos fatores a que tem sido atribuída mais importância na redução de sedimentos na costa (redução de 80% dos volumes de areias que antes eram transportados pelos rios). As barragens são um investimento a curto prazo com enormíssimos custos a longo prazo. No Algarve teremos que apostar noutro tipo de investimento para a nossa gestão hídrica. O turismo balnear também é um do sectores que mais irá sofrer, caso não resolvamos esta questão, portanto, será de todo o interesse do sector rejeitar a aposta em barragens.

A agricultura é híper sensível a alterações de clima. No Algarve, graças ao aumento extremo da temperatura, existem espécies que podem migrar. Plantações importantes como a oliveira ou mesmo o eucalipto, podem ter reduções até 90%. Adicionalmente, o risco de incêndios irá aumentar ainda mais, piorando a perca de culturas. Aqui o investimento e a aposta passa por conseguir influenciar o clima e diminuir a suscetibilidade dos ecossistemas, poupando nos recursos, limpando os terrenos e implementado mais tecnologia.

Finalmente, o Algarve tem de apostar em energias limpas. Já tinha falado disto anteriormente, na redução de gases efeito estufa, como prevenção. Mas também faz parte da correção, pois aqui também entram as barragens. Temos um país com 250 barragens e 60 centrais hidrelétricas. O Algarve não pode seguir este caminho. A energia eólica e solar são a principal resposta, pois o vento e o sol não terão grande variação com as alterações climáticas, ao contrário da água (a fonte de energia das barragens). Teremos de agilizar processos e facilitar as licenças de terrenos para a construção de parques eólicos e solares. Mais que facilitar, teremos de incentivar, fiscal e financeiramente.
A fiscalidade verde é um elemento chave aqui. A nível regional, pouco pode ser feito, porque estas são decisões a nível central. Ainda assim, existem certos movimentos cirúrgicos que as Câmaras Municipais algarvias podem aproveitar, nomeadamente com a aplicação da taxa de IMI, beneficiando proprietários de terrenos que apostem em energias renováveis ou técnicas de agricultura inovadoras do ponto de vista climático. A criação de incentivos será sempre uma arma poderosa na mudança de hábitos.

Felicito ainda, a criação de entidades e grupos de intervenção importantes, que farão a diferença na implementação de mudança, como o Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas, da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve.

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para dar os parabéns ao jornal Terra Ruíva, pelos seus 18 anos de história. Que continue a enriquecer o nosso querido concelho de Silves com o melhor jornalismo possível.

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PorMiguel Braz
Natural de Silves, licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora e mestre em Economia e Políticas Públicas pelo ISCTE-IUL. Atualmente trabalha na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, onde é responsável pela área do empreendedorismo e inovação, no âmbito das relações económicas bilaterais entre Portugal e China. Entusiasta por questões da geopolítica, economia internacional e estudos do conflito. Na área económica acredita que as startups criam disrupções de mercado que reanimam mercados apáticos e atraem investimento e empregos.
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