Comemoramos mais uma vez, neste mês de março, o Dia Internacional da Mulher.
Há quem diga que a igualdade entre homens e mulheres é um assunto ultrapassado, quase resolvido. Mas basta olhar com atenção para perceber que essa ideia é, no mínimo, ingénua. A verdade é que, mesmo em pleno século XXI, a mulher continua a carregar um peso desproporcional — no trabalho, na família, na sociedade — e a receber em troca menos reconhecimento, menos oportunidades e, muitas vezes, menos direitos.
Há histórias que nunca chegam às notícias, mas que sustentam o país inteiro. Histórias de mulheres que não aparecem em relatórios, que não sobem a palcos, que não recebem medalhas — e, no entanto, são elas que mantêm tudo de pé.
Penso na Dona Emília, que trabalhou 40 anos numa fábrica e que, mesmo depois de oito horas de pé, chegava a casa para cuidar dos pais, dos filhos e da casa. Nunca se queixou, porque “era assim que tinha de ser”. Hoje, aos 70, ainda diz que teve sorte. Sorte. Como se carregar o mundo às costas fosse uma bênção e não uma injustiça.
Penso na Ana, que estudou, tirou curso, fez tudo “como mandam as regras”. Entrou no mercado de trabalho cheia de vontade, mas descobriu depressa que, para uma mulher, competência não basta. Tem de provar o dobro, justificar o triplo e pedir metade. Quando engravidou, ouviu comentários que nenhum homem ouvirá: “Agora vai abrandar”, “Já não é prioridade”, “Vamos ver como corre”. A maternidade, que devia ser celebrada, tornou-se um obstáculo invisível.
Penso na Sofia, que cuida da avó com demência. Trabalha, gere a casa, leva a avó às consultas, dá banho, dá medicação, dá tudo. E quando lhe perguntam como consegue, sorri. Mas ninguém pergunta porque é que quase nunca é um homem a fazê-lo. Em Portugal, mais de 70% dos cuidadores informais são mulheres. É um número que diz muito — e que devia envergonhar-nos.
E penso na Joana, que ganha menos do que o colega que faz exatamente o mesmo trabalho. Não é exceção: em Portugal, as mulheres continuam a ganhar menos, a ocupar menos cargos de liderança e a ter menos oportunidades de progressão. Não por falta de talento, mas por falta de reconhecimento.
Estas histórias não são exceções. São o retrato de um país onde a igualdade ainda é promessa, não realidade. Onde as mulheres continuam a ser as primeiras a chegar e as últimas a ser lembradas. Onde se espera delas força, resiliência, disponibilidade infinita — mas raramente se lhes dá descanso, espaço ou voz. E, no entanto, são elas que seguram tudo: as famílias, as escolas, os lares, as empresas, as comunidades. São elas que fazem avançar o país, mesmo quando o país insiste em deixá-las para trás.
A verdadeira mudança começa quando deixamos de tratar estas histórias como normais. Quando percebemos que a desigualdade não é um detalhe — é uma ferida aberta. Quando entendemos que a igualdade não é um luxo, é um direito. E quando finalmente reconhecemos que uma sociedade que não valoriza as suas mulheres está, inevitavelmente, a limitar o seu próprio futuro.
Talvez seja tempo de reescrevermos estas histórias. Não para apagar o que foi, mas para garantir que as próximas gerações de mulheres não tenham de carregar o que as anteriores carregaram. Que possam viver num país onde talento não tem género, onde cuidar não é destino, onde ser mulher não significa fazer tudo — e ainda agradecer.
São elas que mantêm famílias unidas, que dinamizam associações locais, que lideram projetos sociais, que fazem avançar escolas, empresas e instituições. São elas que, muitas vezes em silêncio, seguram o que está prestes a cair.
A pergunta que se impõe é simples: como pode uma sociedade prosperar se continua a desperdiçar o talento, a energia e a visão de metade da sua população?
Num país que se quer moderno, justo e competitivo, não há espaço para desigualdades silenciosas. A mulher não precisa que lhe abram portas — precisa que deixem de as fechar. Precisa de oportunidades reais, de reconhecimento efetivo e de uma sociedade que não a trate como exceção, mas como igual.
A mudança não acontece de um dia para o outro, mas começa sempre com uma decisão: a de não aceitar como normal aquilo que nunca deveria ter sido normal. E essa decisão cabe a todos nós.
Porque a verdade é simples:
Quando uma mulher avança, a sociedade inteira avança com ela!
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