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Opinião

Valorizar o mundo rural como chave na prevenção de incêndios

Fabrice Martins
Última Atualização: 2025/Set/Seg
Fabrice Martins
9 meses atrás
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Ano após ano assistimos aflitivamente aos incêndios que consomem hectares de floresta e de ecossistemas, levando à perda de vidas humanas e de animais, a feridos e à destruição de bens materiais. Os fatores são inúmeros, mas há um que gostaria de abordar: o abandono do mundo rural. O abandono do mundo rural não pode ser dissociado do flagelo que são os incêndios.

Portugal passou de uma economia assente no sector primário (agricultura, pecuária, silvicultura, entre outros) para uma economia de serviços. Com esta transformação na economia surgiu também o êxodo rural, isto é, o movimento em massa de pessoas da zona rural para a cidade. Por conseguinte, os terrenos perderam valor económico e deixaram de ser cuidados, mantidos e limpos pois deixou de ser viável fazê-lo, perdendo-se assim uma importante barreira de proteção contra incêndios.

Quando se fomenta centralmente (e não só) o êxodo rural, agrava-se o risco de incêndios. Zonas rurais com pouca densidade populacional ficam mais desprotegidas, são sujeitas a menor intervenção em termos de práticas de prevenção, menos investimento local em infraestruturas e meios de defesa contra incêndios florestais por se encontrarem mais afastadas dos serviços do Estado que se concentram nas cidades, e, por conseguinte, têm mais dificuldade em combater os incêndios, sobretudo se essa população for de idade mais avançada, como é o caso de Portugal. Outra consequência é a diminuição da vigilância comunitária nas aldeias e vilas do interior, já para não falar de que o interior e o mundo rural representam poucos votos, agravando-se assim o distanciamento político e as assimetrias em relação ao litoral e ao mundo urbano.

O resultado são terrenos e populações deixadas ao abandono e entregues à sua sorte como temos visto repetidamente. A gestão do território deveria ir além da mera proibição de construção de casas de habitação em terrenos que são definidos como sendo destinados a outros fins (reserva agrícola nacional, reserva ecológica nacional, entre outros), mas que na realidade não têm qualquer valor económico, pois acabam por ficar ao abandono por não serem convertidos economicamente em floresta ou agricultura. Ou seja, no papel esses terrenos são reservas, na prática são combustível para incêndios. É preciso incentivar o uso dos terrenos para agricultores e produtores florestais, plantar árvores de valor comercial e resistentes ao fogo como carvalhos e talvez apostar mais em frutos secos, no mel e plantas medicinais, criar riqueza antes que o país seja uma mancha negra de norte a sul. É preciso valorizar economicamente a floresta e o mundo rural, criar condições para que jovens produtores e agricultores possam produzir e instalar-se.

Termino com mais duas sugestões: conceder um benefício fiscal, por exemplo sob a forma de uma dedução à coleta do IRS como sucede com despesas com a manutenção de veículos ou com ginásios, aos proprietários que cuidam dos seus terrenos e os mantêm limpos. Andar monte acima e monte abaixo com uma roçadora a cortar mato não será exercício físico suficiente? A limpeza de terrenos é onerosa, contribui para a prevenção de incêndios, todavia quem o faz não obtém qualquer benefício. Em vez disso, opta-se pela aplicação de multas, como se a GNR não tivesse mais nada com que se ocupar. Por último, em Portugal, nos tempos do Estado Novo, foram construídas escolas primárias um pouco por todo o lado, escolas essas que são património do Estado e muitas delas estão abandonadas, outras tornaram-se nas sedes de muitas associações com os mais diversos fins. A minha sugestão passa pela requalificação destas escolas abandonadas para que possam albergar bombeiros, protecção civil e população em situação de catástrofes ou de incêndios. Será que enquanto sociedade, enquanto país, não conseguimos fazer melhor do que proporcionar a quem coloca a sua vida em risco ao combater incêndios, uma estrada de alcatrão a servir de cama? Não se conseguirá usar estas escolas para que possam descansar com um mínimo de conforto e recuperar forças? Ou proporcionar um local de abrigo a quem perdeu a sua casa e ficou sem tecto?

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PorFabrice Martins
Nasceu em França em 1982 e desde 1993 que reside no concelho de Silves. Licenciado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, realizou posteriormente uma pós-graduação em Gestão Empresarial pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Tem como principais áreas de interesse a gestão, a geopolítica bem como a segurança e defesa. Após uma passagem pelo sector da banca, assumiu nos últimos anos o papel de gestor assistente e coordenador operacional de proteção de dados. Nos tempos livres, desenvolve as suas paixões pela música, fotografia e desportos motorizados.
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