O concelho de Silves continua a manter uma forte tradição, com muitos grupos a cantar “as janeiras”.
Cantar as janeiras é uma tradição muito antiga. Os historiadores dizem que tem uma origem pagã, vinda da Antiga Roma onde se comemorava o ano novo em nome de Janus, o deus do passado e do futuro, o porteiro celestial, que fechava a porta do ano que terminava e abria a porta ao ano que começava. Ao longo dos tempos, essa comemoração “misturou-se” com a tradição cristã de “Cantar os Reis” e deu origem ao Cantar as Janeiras.
Cantar as Janeiras é uma tradição que tem por base um grupo de pessoas que se juntavam no início do ano, normalmente de 1 a 6 de janeiro, e de iam de porta em porta cantando, anunciando o nascimento de Jesus e desejando um bom ano. As deslocações eram feitas, principalmente, às casas mais abastadas, que teriam sobras das festividades.
Em troca das canções, os grupos recebiam comida e porventura algum dinheiro. Era uma espécie de pedir esmola, mas de uma forma disfarçada, num tempo em que havia muita pobreza.
“Hoje em dia cantamos as janeiras, para manter a tradição. Mas nesse tempo, de muita fome, andavam a cantar, porque precisavam, andavam a pedir” – quem o recorda é Afonso Fernandes, um dos elementos mais antigos do Grupo de Cantares de Janeiras da Sociedade Recreativa Alcantarilhense.
Este grupo, o mais antigo do concelho de Silves, formou-se em 1978/1979, na Casa do Povo de Alcantarilha, Pêra e Armação de Pêra. Uns anos mais tarde mudou para a Sociedade Recreativa Alcantarilhense, passando a ter a designação de Grupo de Cantares de Janeiras da Sociedade Recreativa Alcantarilhense, sendo orientado por João Brito, dirigente associativo desta coletividade.
Nesta altura, o grupo conta com cerca de 20 elementos, três dos quais provenientes da formação original: Afonso Fernandes e os irmãos Vasco Santos e Carlos Santos.

Afonso Fernandes, hoje com 71 anos, conta que a tradição de cantar as janeiras começou, para ele, muito cedo, aos 6 ou 7 anos. “Nessa altura ia com a minha irmã, e dois tios do Roberto Cabrita ( atual presidente da União de Freguesias de Alcantarilha e Pêra)”. Desde pequeno que via a mãe sair para cantar as janeiras e recorda-se da “tia Catarina” que era a “solista” (pessoa que canta os versos que os restantes repetem). Muitas outras pessoas conhecidas e familiares dos atuais elementos do grupo também percorriam as ruas de Alcantarilha e arredores, entoando os cânticos populares. Assim, para muitos dos “janeireiros” atuais, manter a tradição das Janeiras é também não deixar morrer as tradições familiares.
“A minha mãe e as minhas tias andavam na rua até à meia-noite, depois vinham para a minha casa e dividiam as filhós e coisas que recebiam. E eu nessa altura já estava à espera, para ir à alcofa, ficavam sempre alguns restos de fritos que eu comia”, lembra Afonso.
Hoje, já não se cantam as janeiras para provar alguma pequena iguaria que noutras alturas não entrariam em muitas casas. Mas o fundamental da tradição mantém-se.
Para o Grupo de Cantares de Janeiras da Sociedade Recreativa Alcantarilhense o início da atividade acontece com o Encontro de Cantares de Janeiras que a Câmara Municipal de Silves promove anualmente com os grupos do concelho (este ano teve lugar no dia 5 de janeiro, em Silves).
Depois da atuação em Silves, o grupo continua, pelo resto do dia e noite fora, percorrendo várias localidades, “onde há pessoas à espera”, em locais onde já é tradição passar, sem esquecer as ruas e casas de Alcantarilha. “É a noite toda e terminamos no outro dia, com um almoço em Armação de Pêra”.
A animação é feita não só com as vozes, mas também com alguns instrumentos musicais que pertenceram à Banda Filarmónica da Casa do Povo de Alcantarilha, o que enriquece a atuação. O elemento mais novo do grupo, Gonçalo Estevão, de 16 anos, toca viola.
As portas abrem-se quando se ouve a música. Em muitas casas abrem-se as portas, os janeireiros são recebidos com comida e bebida e trocam-se palavras e amizade. E votos de Bom Ano.
No tempo de infância de Afonso Fernandes, “havia muitos grupos, grupos de moços, o grupo das galegas, vinham grupos de fora…” . Hoje já não é assim, mas a tradição mantém-se e, ao que se vê, em boa condição para continuar viva durante muitos mais anos em Alcantarilha.
A tradição no concelho de Silves
No concelho de Silves, a tradição de cantar as Janeiras continua bastante presente, havendo vários grupos organizados. Além do Grupo de Cantares das Janeiras da Sociedade Recreativa Alcantarilhense, destacam-se, pela antiguidade, o Grupo de Cantares do Grupo Amigos da Pedreira e o Grupo do Rancho Folclórico de Messines.
Outros grupos marcam presença: o Grupo de Cantares das Janeiras da Casa do Povo de São Bartolomeu de Messines, o Grupo de Cantares das Janeiras da Sociedade Filarmónica Silvense; o Grupo de Cantares das Janeiras da Associação das Comunidades de Tunes, o Grupo de Cantares “Os Alegres” e o Grupo de Cantares das Janeiras da ACRAP – Associação Cultural e Recreativa de Armação de Pêra. Atuam ainda o Grupo de Cantares “Os Charolas de Armação de Pêra”.
(Refira-se que as charolas são uma derivação das janeiras. Nestas cantam-se os cânticos tradicionais e nas charolas há mais inovação e instrumentos. As charolas são mais comuns no sotavento algarvio do que no barlavento.)
No concelho, além do já referido encontro promovido pela Câmara de Silves, realizam-se anualmente, encontros de cantares de janeiras em São Bartolomeu de Messines, Silves, Alcantarilha, organizados por diferentes grupos e associações. Mais difícil será encontrar grupos improvisados, como “antigamente”, à espera de receber filhós, chouriças, frutos secos… uma ou outra moeda.
Mas ainda se ouvem as músicas, com quadras simples, com louvores ao Menino Jesus e às pessoas que abriam as portas e que davam a sua contribuição. Não se escutarão, talvez, as quadras, com menos consideração, (insultuosas até), com que se brindavam os donos das casas cujas portas não se abriam aos janeireiros.
Texto: Paula Bravo
Fotos: João Brito (Grupo de Cantares das Janeiras)










