No âmbito da rúbrica “Abril é quando um Homem quiser”, o Município de Silves organiza um evento musical com Afonso Dias e Dinis Dias, no dia 29 de junho, pelas 21h30, no Largo da Junta de Freguesia do Algoz.
“Este concerto promete uma viagem nostálgica através das canções e poemas que ecoaram durante os anos da revolução dos cravos, preservando e revivendo a rica tradição da música popular portuguesa.
Afonso Dias e Dinis Dias trarão ao palco o espírito de “Canto Livre”, capturando a essência de uma época definida pela liberdade de expressão e pelo fervor cultural”, informa a autarquia.
A iniciativa decorre no âmbito da programação das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril – Silves Abril Presente, Liberdade Sempre!
A entrada é livre.




O termo “cante” tem em si a “impressão digital” da língua árabe e reflecte a influência, designadamente na zona meridional – com particular incidência no Baixo Alentejo – que aquele idioma de cultura, na qualidade de superstracto, deixou entre nós, durante os séculos que mediaram o início da Invasão Muçulmana, no território que viria a ser o nosso país, até à sua expulsão, no reinado de D. Afonso III.
O “Cante alentejano” é, como todos sabemos, a expressão coral tradicional do Baixo Alentejo, melodia que reflecte, superiormente, o espírito gregário e a alma do povo daquela nossa província, que mereceu, pela sua toada simples e beleza envolvente, a distinção, pela UNESCO, de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Defendo, com muito poucas dúvidas, ao contrário de outras origens aventadas, que a bela manifestação do “cante” alentejano, cujo intérprete é, historicamente e por excelência, o trabalhador rural alentejano – ali designado por ganhão –, tem as suas raízes na cultura árabe de antanho, do tempo da sua dominação na Península.
“Cante” é termo que busca a sua origem, remotamente, no lat. “cantus”, formado, a partir do supino “cantum” do verbo “canere”, cantar (donde, por exemplo, ave “canora”).
Quando invadiram a Península, o Latim Vulgar era o idioma corrente falado pelo povo comum, um tipo de latim já muito alterado, língua que se manteve, mesmo após a anterior invasão dos Visigodos.
Muita dessa população indígena, embora, com o passar do tempo, tenha assimilado, não só costumes, mas igualmente o conhecimento da língua árabe, nunca deixaram de cultivar a memória da língua de raiz latina.
São os Moçárabes, os grandes intermediários entre a cultura árabe e o testemunho que nos passaram de muitas centenas de termos de origem árabe, muitos deles já cobertos pelo pó dos tempos e do esquecimento (os chamados arcaísmos), mas igualmente muitas centenas de outros termos que utilizamos, no nosso dia-a-dia e que sabemos serem herança árabe.
Desses termos do chamado Latim Vulgar, alguns nos chegaram até hoje, mas com a marca identitária da fonologia árabe.
Beja, Cante, Sines, Tejo ou Lisboa são alguns deles.
O caso de Beja é bem claro essa aspecto.
1 – “Beja” provém do topónimo romano “Pax Julia”, sendo que, com o passar do tempo o elemento “Julia” caiu, ficando “Pax”, o qual, através da forma intermédia “pace”.
Porém, como a língua árabe, na sua fonologia, revelava manifesta impossibilidade em pronunciar o /p/ de “Pax”, trocou-o, na dicção, pela letra /b/, ficando ao ár. “ bâja ”, donde, o actual Beja.
2 – “Cante”, (com /e/ final), proveio do termo de origem latina “canto” (do lat. “cantus”), numa mesma adaptação à dicção árabe.
3 – Com “Sines”, cidade portuguesa do litoral alentejano, ocorreu um fenómeno muito semelhante ao que teve lugar com “cante”, uma vez que o termo Sines proveio do lat. “Sinus”, curvatura, golfo, enseada (designação dada pelos Romanos, atendendo, precisamente, à bela baia ou enseada que se encontra frente à cidade).
Devido à já acima referida dificuldade na pronúncia do /u/ final, passaram a utilizar, para sua comodidade a designação de “Sines“, com que hoje designamos um dos disputados berços de Vasco da Gama.
4 – O nome do nosso rio “Tejo” provém, como se sabe do lat. “Tagus” (donde, por exemplo, as Tágides, ninfas do Tejo, que o Príncipe dos Poetas canta em “Os Lusíadas”).
Também o nome Tejo, tal como o conhecemos actualmente, foi recebido na língua portuguesa, por meio do Árabe e sua influência, com a mudança do /g/ para /ʒ/.
Vários outros fenómenos linguísticos ocorrerem em termos actuais portugueses, por influência da adaptação fonológica árabe a palavras do Latim Vulgar, então correntes na Península, que nos foram transmitidos por via moçárabe.
Ainda em relação a “Sines” – as palavras são mesmo como as cerejas, como sói dizer-se – o sentido de “curvatura” do lat. “Sinus” mantém-se em vários outros termos, dos quais, à primeira vista, talvez não notemos a relação.
Falo, por exemplo, de “seno” e “cosseno”, funções trigonométricas, cuja expressão gráfica nos mostra isso mesmo, através de arcos, acima e abaixo do eixo ou, dito de outro modo, de funções sinusoidais de diferentes frequências.
Os próprios belos “seios” femininos, cujo perfil da forma é curvo, são, também eles, derivados do mesmo lat. “sinus”.
As minhas desculpas a algum eventual leitor destes comentários, pelo facto de, em vez de um apenas e completo comentário, dividir o meu contributo por mais do que uma peça.
A explicação é que, como creio que acontece com qualquer de nós, as ideias não chegam de uma única vez.
Ainda no seguimento do termo “cante”, faltou referir-me a algo que me diz respeito, muito particularmente, na qualidade de natural de São Bartolomeu de Messines.
Não hoje, em que o analfabetismo é já quase nulo (não confundir com iliteracia, porque essa existe e em quantidades reforçadas, uma vez que o saudável hábito da leitura foi trocado pela omnipresença do telemóvel), mas na minha infância, em que a percentagem desse analfabetismo era ainda altíssima, as pessoas falavam, como se costuma dizer, “de ouvido”, atendendo a que desconheciam como se escreviam as palavras.
Tal como ocorria com “cante” e com “Sines”, também, em Messines, essa herança cultural árabe era ainda muito forte e levava os messinenses a trocar, sistematicamente, o /o/ final por /e/ mudo.
Não era apenas o povo analfabeto, mas, por um motivo cultural, também as pessoas letradas que assim se exprimiam.
Antes de rumar a Lisboa, aos 15 anos, onde desenvolvi toda a minha vida profissional, também eu próprio me expressava desse modo, apesar de conhecer como se escrevia aquilo que verbalizava …
Aliás, ainda, nos dias de hoje, se ouve esse tipo de fala.
Exemplos ?
– ‘Eh, môce, levantas-te cede ! (moço e cedo)
– ‘O mé maride na tá. (marido)
– ‘Na dêxes o fôgue s’apagar ! Abana isse c’u capache’ (fogo, isso e capacho)
Não pretendo formular qualquer juízo de valor, mas apenas recorrer à memória do que ouvia, quando jovem …
É interessante constatar como, mesmo decorridos tantos séculos, após a sua existência entre nós, designadamente, no Sul, ainda o cunho da língua árabe permanece (ou permaneceu, até há muito pouco tempo), nesta terra, facto cultural que só pode ser explicado pelo seu isolamento e afastamento do litoral e que tanto reflexo tem tido no seu imobilismo social, só notado, lamentavelmente, quando visto com “olhos” exteriores …
Por lapso, também não abordei a origem do termo “Lisboa” e sua evolução, com influência árabe.
A sua designação era, em Latim, “Olissipo, Olissiponis”.
Os substantivos que recebemos do Latim vieram-nos, através do Caso Acusativo, pelo que, em “Olissipone(m)” ocorreu a apócope (queda) do /m/ final, tendo, pois, restado, “Olissipone”, que os Árabes, enquanto na Península, fizeram evoluir para “al-Lixbûnâ “.
Mais tarde, teria lugar a aférese (queda) do artigo definido árabe /al/, tendo restado “ Lixbûnâ “, que evoluiria para “ Lixbona”, que, finalmente, se quedaria na nossa luminosa e bela “Lisboa”.