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Reading: O Meu 25 de Abril … e o nosso jornal
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Terra Ruiva > Vida > Pessoas > O Meu 25 de Abril … e o nosso jornal
EditorialPessoas

O Meu 25 de Abril … e o nosso jornal

Paula Bravo
Última Atualização: 2024/Abr/Qua
Paula Bravo
2 anos atrás
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A seguir à revolução, nos tempos da aliança Povo_MFA podia acontecer o improvável, um piquenique do 1º de Maio receber a visita de soldados que à época andavam por todo o país, participando em muitos atos da vida social, política e cultural
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A 25 de Abril de 1974 saí cedo de casa, como de costume, em direção à “praça” de Messines, onde apanhava o autocarro para Silves. Era então aluna do “1º ano do Ciclo Preparatório”, instalado na antiga Cerca da Feira, em Silves, em pavilhões pré-fabricados.

A meio da manhã, as aulas foram interrompidas, sem explicações aos alunos. Passava-se alguma coisa em Lisboa, havia um cerco à cidade, ouvia-se dizer. Mais difícil se tornava identificar a origem dos “inimigos”. São “os mouros” alvitrou alguém. E imaginávamos a cidade, que poucos conheciam nessa época, (a tantas horas de distância!), numa situação semelhante à que se retratava nos livros de história…

O minúsculo Fiat da professora Sol (Soledade Ramos) era o epicentro da ação, com o rádio ligado e os professores amontoados ao seu redor. O Rui, amigo da turma, chama-me para o esconderijo dos alunos, entre os pavilhões, para termos uma conversa secreta. Ouvira dizer que era alguma coisa contra o governo. O pai dele não gostava do governo, mas não queria que se falasse disso. O meu pai também não. Eu lembrava-me bem da conversa que tivéramos um dia, sobre o facto de existirem outros países, com outros regimes e nos quais as pessoas viviam de outra maneira. E lembrava-me da minha mãe não ter ficado nada satisfeita quando se apercebera da conversa, que aqueles não eram temas para uma miúda de 10 anos. E também me lembrava de uma viagem a Espanha e que, além dos caramelos, tínhamos trazido, escondido, um livro proibido em Portugal que o meu pai comprara e guardara na parte mais alto do roupeiro para que não fosse visto… E assim, junto ao Rui, eu hesitava, entre partilhar a convicção de que o governo não prestava, ou faltar ao prometido ao meu pai, de não revelar a ninguém as nossas conversas…

Dilema resolvido pela direção da escola, que entendeu mandar os alunos de volta para casa. De regresso à minha rua, juntei-me, ao fim da tarde, ao grupo de vizinhos que se reunia na varanda de uma casa onde havia uma televisão. Numa pequena aldeia da província, em 1974, onde poucos tinham televisão ou automóvel, e onde o telefone era uma raridade, crescia a ansiedade pelas notícias, multiplicavam-se as teorias e as conversas alternavam entre o muito que estava silenciado e o receio de poder vir a ser punido pelo que fosse dito nesse dia.

No outro dia de manhã, o meu pai recebeu no correio o jornal República, de que era assinante, embora isso fosse um ato subversivo, que identificava de imediato um opositor do regime. O jornal não tinha ido à Censura. Começava uma nova vida. Guardamos ainda hoje esse jornal.

Os tempos que se seguiram foram dos mais ricos em aprendizagem e humanização. Já o contei antes, adorava ir a manifestações e na primeira onde fui, marchando lado a lado com o meu amigo Vicente, por não termos percebido devidamente a palavra de ordem, seguíamos no coro de vozes, gritando “Abaixo a PIVE! Abaixo a PIVE!”

Começou depois a altura da participação nas famosas RGA (Reuniões Gerais de Alunos), em que tudo era debatido, rebatido, votado de braço no ar e muito entusiasmo. Embora muito nova, não me furtava a comparecer em nenhuma atividade que “os grandes” da Secundária de Silves convocavam, de reuniões a manifestações. Aprendi o valor das ideias e dos ideais, da opinião e do sentido crítico, a capacidade de defender os próprios pontos de vista e aceitar os  diferentes.

Aprendi a generosidade e a importância de fazer parte da comunidade e estar disposto a trabalhar num coletivo para um futuro melhor.

A seguir à revolução, nos tempos da aliança Povo_MFA podia acontecer o improvável, um piquenique do 1º de Maio receber a visita de soldados que à época andavam por todo o país, participando em muitos atos da vida social, política e cultural

 

O nosso jornal

No dia 25 de Abril de 2000 foi lançado o nº 0 do jornal Terra Ruiva – Jornal do Concelho de Silves, um projeto associativo, sem fins lucrativos, construído sob a necessidade que sentíamos de haver um espaço informativo dedicado às notícias locais, à promoção das nossas gentes.

Já então se levantavam algumas vozes do antigamente. Vão lançar o jornal no dia 25 de abril? Vão ficar logo conotados, vão dizer que são comunistas, que são socialistas, de esquerda, não vão ter apoios municipais, vão passar por dificuldades, num ano estão acabados, como os outros antes de vocês…

Teimosamente, porque há momentos em que temos de agir consoante as nossas convicções e um jornal só faz sentido se for livre, a apresentação foi feita no dia 25 de Abril de 2000, numa sala do Racal Clube, em Silves, que resgatamos do pó e do abandono, limpando e organizando para receber os colaboradores e os convidados.

…

24 anos depois, a comemorar os 50 anos do 25 de Abril, comemoramos o 24º aniversário do Terra Ruiva. Em Abril de 2024, editamos a edição nº 264. Além da edição mensal em papel, mantemos, há mais de 10 anos, um site com informação atualizada diariamente e uma página no Facebook. Só com a colaboração permanente e desinteressada de muitas pessoas, que ao longo dos anos têm escrito no jornal, tem sido possível manter este projeto. E muito devemos a algumas empresas, ao Município de Silves e comerciantes locais que nos têm apoiado com a sua publicidade. Sem a conjugação destes elementos não seria possível sustentar este jornal e fazer com que chegue a todo o concelho e a muitos pontos do país e do mundo.

Atravessando uma crise sem precedentes, que afeta toda a comunicação social, a imprensa em papel está realmente ameaçada de extinção. No caso da imprensa regional, já são poucos os jornais que continuam a editar em papel, suportando custos que, além de aumentarem continuamente, são cada vez menos suportados pela publicidade tradicional e institucional.

No Terra Ruiva também vivemos esse dilema, mas temos procurado resistir à tendência das edições  online, onde tudo é mais efémero e porventura superficial.

Uma das contradições deste mundo tão globalizado: enquanto se assiste à morte de vários meios de comunicação locais, estudos confirmam que há um interesse cada vez maior pela informação local. No caos das milhentas informações que nos chegam diariamente através de inúmeros meios, continuamos a querer saber o que se passou na nossa rua, na nossa cidade, qual o menino do clube local que conquistou uma medalha, a pessoa que publicou um livro, quem é o vizinho que se candidata a um cargo político… queremos vivenciar o sentimento de pertença e agregação que nos identifica como parte de uma comunidade. E é por tudo isto, e porque o jornalismo continua a ser uma das grandes barreiras que defendem a verdade, a liberdade e a democracia, que a imprensa ainda faz falta.

Um dia, há algum tempo, estava em Silves, numa esplanada. Nas minhas costas travava-se uma discussão. Um assunto com várias versões, ninguém se entendia. Um homem apresentou então a sua versão. E concluiu, dizendo “li no Terra Ruiva”. Com este argumento acabou-se a discussão. Mas (acho que me entendem), inchou, na mesa ao lado, o meu orgulho. Um orgulho que estendo a todos os meus colaboradores e muito em especial ao Francisco Martins, companheiro da primeira hora, âncora firme em todos os momentos.

Entre os dois, vamos discutindo o futuro próximo, os projetos, as mudanças, as dificuldades  e um certo cansaço, natural ao fim de duas décadas e meia.

Em 25 de Abril de 2014, o Terra Ruiva faz 24 anos. É um jovem mas já ultrapassou muitos obstáculos na sua vida. Apoia-se nos muitos amigos e leitores que tem e em valores como a defesa da liberdade de expressão, a democracia, o pluralismo, a isenção, a procura da verdade, o respeito pela essência do jornalismo. Como diz a canção, enquanto houver caminho para andar, nós vamos continuar… Não será para sempre, mas mantemo-nos empenhados neste labor e profissão que, apesar de todas as suas exigências e dificuldades, precariedade no trabalho, baixos salários e pressões de todo o género, encerra uma espécie de possibilidade. A possibilidade de (contribuir para) mudar o Mundo. E, para isso, todos os dias são bons. Ou, como diz o amigo e colaborador António Guerreiro, numa das crónicas aqui publicadas “não há prazo para mudar o mundo”.

 

 

 

Campanha solidária em Messines e Armação de Pêra apoiou 70 famílias
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TAGGED:24º aniversário do Terra Ruiva25 de abrilO Meu 25 de abrilPaula BravoTerra Ruiva
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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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1 comentário
  • João Jóia diz:
    25 de Abril, 2024 às 12:58

    Felicito o Terra Ruiva pelo seu aniversário e agradeço por se manter ativo com uma diversidade de ideias e textos.
    Bem hajam pela vossa existência e por manterem uma informação diferente mas interessante e atrativa.

    Responder

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