O café-concerto do TEMPO – Teatro Municipal de Portimão acolheu, no passado dia 26 de janeiro, a cerimónia de pré-apresentação do livro «Os Judeus do Algarve e o Holocausto – Do Paraíso ao Inferno», de Maria João Raminhos Duarte.
Historiadora e professora na Escola E.B. 2,3 Eng. Nuno Mergulhão de Portimão, a autora tem um vasto currículo, com diversas publicações, livros, artigos e conferências no âmbito da história local e regional contemporânea, nomeadamente sobre os industriais conserveiros e corticeiros, o regionalismo, a instituição do Estado Novo e a oposição ao regime, os movimentos femininos ou a educação e assistência.

A sala foi manifestamente pequena para acolher todos os que, naquele fim de tarde, ali acorreram, de tal forma que dez minutos antes do início da sessão os lugares sentados estavam esgotados. Ainda assim, a mais de meia centena de pessoas que assistiu de pé à sessão, durante mais de uma hora, não arredou pé, ou não se tratasse de uma oradora brilhante, que há muito conquistou um vasto público para os seus trabalhos.
A sessão principiou com a intervenção do editor, Fernando Mão de Ferro, da Edições Colibri, o qual felicitou a autora pelo seu profícuo trabalho e contributo extraordinário para o conhecimento da história do país e da região do Algarve, em particular. Destacou que a data escolhida para a pré-apresentação da obra coincidiu com a véspera do Dia da Memória das Vítimas do Holocausto, e que a mesma «retrata a comunidade judaica do Algarve, especialmente as famílias de Faro e a intervenção de alguns Homens extraordinários que tudo fizeram para salvar milhares de pessoas, tanto em Portugal como em Espanha». Finalizou a intervenção, lendo um texto do professor António Ventura, que por motivos de saúde não pôde estar presente, salientando este último, que a obra «é um valioso contributo para a construção da história dos refugiados em Portugal, destacando o papel relevante dos judeus do Algarve, procurando preservar ao mesmo tempo na memória coletiva dos portugueses, uma imagem do passado recente e dos seus protagonistas, dando a conhecer o contributo dos judeus de Faro na luta pela salvação de milhares de refugiados».
De seguida, a autora, após agradecer a diversas entidades e pessoas, referiu que foi com enorme prazer que iniciou a descoberta da comunidade judaica de Faro do século XIX, que a conduziu ao estudo do holocausto e do papel de Portugal na Segunda Guerra Mundial, um tema que lhe despertou um interesse acrescido e despoletou o aprofundamento da investigação, iniciada em 2015.
Na apresentação, profusamente ilustrada, explanou uma sinopse da presença judaica no Algarve, desde o Império Romano até ao século XX, salientando a importante influência daquela comunidade na sociedade farense do início de 1900, em termos sociais, culturais e políticos.
Traçou o percurso biográfico de algumas das personalidades evocadas, com origens em Faro, nomeadamente Semtob Sequerra, representante da «transição da velha geração judaica farense para a nova que partira para a capital e que ele longamente representou». Debruçou-se sobre a biografia de Augusto Isaac d’Esaguy e as instituições em que se destacou no apoio aos refugiados judeus e não judeus, de Paulo Justino Cúmano, o inspetor da PVDE e de César Augusto dos Santos, um «ínclito jornalista». Narrou igualmente a vida dos irmãos Samuel e Joel Sequerra e a situação dos refugiados fugidos de França para Barcelona, «com os olhos postos em Portugal que era visto como a porta final para a sua salvação».
A obra evidencia que, mesmo nos tempos de maior desumanidade e perigo, existem pessoas verdadeiramente extraordinárias, de que são exemplo os judeus algarvios nela biografados. Em simultâneo, colmata um hiato da historiografia europeia, dada a escassez de bibliografia que ressalve o papel de Portugal naquele conflito.
A autora concluiu a apresentação, com uma citação do padre António Vieira: «Se servistes a Pátria e ela vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma».
No fim da sessão, a Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão serviu um beberete, enquanto a longa fila para os autógrafos teimava em persistir.
O livro foi apresentado no dia seguinte em Lisboa e brevemente em Faro, encontrando-se disponível em várias livrarias do país, bem como no sítio da internet da Edições Colibri.
Texto: Jorge Filipe Palma / Aurélio Nuno Cabrita







