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História & PatrimónioSociedade

A Sé, a Ponte Velha e outros aspectos de Silves medieval, no testamento do deão Geraldo Pais (1318).

José Manuel Vargas
Última Atualização: 2024/Abr/Qui
José Manuel Vargas
3 anos atrás
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A Sé, a Ponte Velha e outros aspectos de Silves medieval, no testamento do deão Geraldo Pais (1318).

É desde há muito conhecida a escassez de documentos medievais para a história de Silves. Por razões nunca bem esclarecidas, além dos capítulos de Cortes dos séculos XIV e XV, publicados por Alberto Iria, são raras as fontes históricas que chegaram até nós com informação relevante para esse período da vida da cidade, com destaque para o Foral de 1266 e para o Livro do Almoxarifado (meados do séc. XV).

Neste contexto, assume particular importância a descoberta e publicação de um extenso testamento de Geraldo Pais, deão da catedral de Silves, datado de 20 de Maio de 1318 (in Testamenta Ecclesiae Portugaliae (1071-1325), Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2010, pp. 384-391) e de que, afortunadamente, se conservou uma cópia em pública forma, feita em 1335, em Lisboa, e depositada no Arquivo Distrital de Braga (Col. Cronológica, nº 326). Esta cópia já não tinha sido feita directamente do original, mas sim de outra cópia, feita em Silves, a 3 de Dezembro de 1319, a pedido de Gonçalo Pais irmão e testamenteiro do deão.

O documento que nos propomos aqui analisar parcialmente, nos aspectos em que o seu contributo historiográfico se afigura mais significativo, importa não só à história de Silves medieval, mas também doutras povoações algarvias e de aspectos vários da vida religiosa na época, dada a riqueza informativa do seu conteúdo (referências mais antigas e inéditas, confirmação e correcção de dados).

Quem foi Geraldo Pais?

Geraldo Pais, deão (cónego que presidia ao cabido da Sé), era bacharel ou licenciado em Decretos (direito canónico), tendo estudado em França. Era filho de um Paio Peres Surdo, vizinho de Lisboa, falecido antes de 1299, e de Dona Maria, falecida em 1308. Neto materno de Domingos Martins e irmão de Gonçalo Paise de Maria Pais, tinha vários sobrinhos e muitos afilhados, mencionados no seu testamento. Era proprietário de bens de raiz, herdados dos pais, na Azóia (Santa Iria da), Verdelha e Manjões, no termo de Lisboa. Ao que parece, pôr referências no testamento, já seria cónego da Sé, no tempo dos bispos D. Frei Bartolomeu (1268-1292) e de D. Frei Domingos Soares (1292-1296), tendo atingido a dignidade de deão com os bispos D. João Soares Alão (1297-1312) e D. Afonso Anes (1313-1331). Viria a falecer em 1319.

Silves século XVII

A Sé, a “obra da igreja nova”

O testamento do deão tem diversas referências à Sé, com dotações especificadas de verbas e também o legado de uma cruz de prata. Para completa execução da sua vontade testamentária, Geraldo Pais dispôs que os executores do testamento vendessem alguns bens de raiz, em Lisboa e no termo, assim como duas moradas em Silves. E para garantir a continuidade da administração da capela que pretendia instituir em sua honra na Sé, mandou que os testamenteiros “comprem possessões tantas em Silves ou no Algarve que possam render cento e dez libras” de foro ou renda anual, com que se pagaria aos capelães que rezariam as missas por sua alma.

Das passagens do testamento com informações relativas à Sé, destacamos:

“Mando meu corpo à igreja de Silves e rogo o bispo e o cabido que lhes praza de me soterrarem direito onde sê o escrito [lápide sepulcral com inscrição] da mulher de Pero Navarro e me leixem aí fazer um altar cercado de gridizelas[grades]e já isto me prometeu o bispo e o cabido. E se me isto quiserem ter, hajam isto que lhes eu mando adiante em este meu testamento. E se não quiserem ter, mando que me soterrem nas Mártires e quando virem meus testamenteiros que me podem levar que me levem a Lisboa e me soterrem a par de Mestre Fernando se o cabido de Lisboa quiser e haja a Igreja de Lisboa isto que eu mando por razão desta minha sepultura. E se o cabido de Lisboa não aprouguer [aprazer], mando que me soterrem em São Vicente de Fora, ante o altar de São Bernardo que fez dona Maria, minha madre e hajam isto que eu mando”.

“E que quando a capela for feita que digam aí a missa da terça em aquele dia que lhes aprouguer. E seja o altar à honra de Santa Maria Madalena e de S. Geraldo”.

“Item mando para a obra de Sé de Silves (lacuna no suporte, verba omissa) esta obra da igreja nova e não em al [outra coisa]”.

Sobre a “obra da Sé”, as informações constantes no testamento de Geraldo Pais vêm confirmar que a sua edificação estava em curso no reinado de D. Dinis, como já era sabido pelo privilégio dado por aquele rei ao bispo de Silves, em 1320, para que gastasse mil libras nas obras da sua igreja. O início da obra foi, certamente, no governo de D. Afonso III e antes de 1279, como se atesta por uma lápide funerária, encontrada durante as obras de restauro de 1940 e de que se conservou um molde em gesso, depositado no Museu de Lagos, em que se pode ler: Era Mª CCCª XVIIª AQUI JAZ DOMINGOS JOH(a)NA(ni)S MEESTRE QUE FUNDOU ESTA OBRA.

A Ponte Velha

A julgar pela “maldição” que o bispo Álvaro Pais teria lançado em 1349 de que nunca se veria a ponte acabada, a sua construção já se teria iniciado algum tempo antes. O testamento de Geraldo Pais informa-nos que em 1318 só existia a intenção de a construir: “Item, mando se quiserem fazer a ponte de Odiarade dez libras em ajuda e se não dêem-nas meus testamenteiros em vestir pobres vergonhosos”. Podemos assim situar o começo da obra em finais do reinado de D. Dinis (1279-1325) ou no início do reinado de D. Afonso IV (1325-1357).

A primeira referência à ponte data de 1439, nas Cortes de Lisboa, em que os representantes de Silves afirmaram; “uma ponte de pedra que nos caiu de uma grande cheia e somos postos em trabalhos e grandes despesas”. Em 1473, nas Cortes de Évora, os enviados de Silves informaram estar “a ponte de novo de pé”. Podemos então deduzir que a reconstrução terá ocorrido em meados do século XV e assinale-se que no Livro do Almoxarifado (c. 1451-1453” surge a localização “além da ponte, a caminho para S. Miguel”.

As ermidas de Santa Maria dos Mártires e de São Miguel

Embora uma tradição, referida por Rui de Pina, nos diga que a ermida de Nossa Senhora dos Mártires (designação actual) foi construída a seguir à conquista de Silves aos Mouros, em 1189, e nele se conservem algumas pedras tumulares de lavor medieval, não é conhecida documentação escrita que ateste a sua existência nesse período, sendo geralmente aceite que foi edificada (sobre ruínas?) em finais do séc. XV ou inícios do séc. XVI, pelo que o testamento do deão, em 1318, ao propor a ermida como alternativa ao seu enterramento na Sé (citação acima) e ao fazer doação de uma vestimenta: “Item mando uma vestimenta a São Miguel e a outra a Santa Maria dos Mártires”, vem comprovar que, pelo menos, no início do séc. XIV, a ermida de Santa Maria dos Mártires estava erguida e com condições para a prática dos actos religiosos.

Quanto à ermida de São Miguel, mencionada no séc. XV (Livro do Almoxarifado) e que sendo arruinada no terramoto de 1755, nunca voltou a ser levantada, restando a designação Cerro de S. Miguel, ficamos agora a saber, com a notícia de 1318, que era uma das mais antigas ermidas de Silves.

A Albergaria de Silves e a Candeia da Mercê

Duas das informações inéditas e mais antigas conhecidas dizem respeito à Albergaria de Silves: “Item, mando à Albergaria de Silves um maravedi” e a uma outra instituição assistencial, singularmente designada “Candeia da Mercê” e que seria também uma albergaria ou hospital, em que se providenciava aos pobres e peregrinos, além dum tecto para pernoitar, lenha para se aquecerem e uma candeia para se alumiarem:“Item, mando à Candeia da Mercê uma cocedra e uma almocela e um chumaço [um colchão, uma manta ou coberta e uma almofada]”

No próximo número concluir-se-á a análise do testamento do deão Geraldo Pais, particularmente com as informações inéditas sobre a igreja de Santa Maria de Porches, o Hospital dos Meninos de Loulé, os conventos de S. Francisco de Loulé e de Tavira, bem como sobre várias igrejas, conventos e instituições de assistência de Lisboa e ainda acerca das romarias e peregrinações.

 

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PorJosé Manuel Vargas
Natural de Lisboa, nascido em 1948. Tem ascendência materna e paterna ligada às freguesias de S. Bartolomeu de Messines e S. Marcos da Serra. Professor do Ensino Secundário ( aposentado), é investigador de história local e regional, com várias obras publicadas.
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