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Opinião

Ano Novo com problemas antigos

Fabrice Martins
Última Atualização: 2022/Dez/Ter
Fabrice Martins
4 anos atrás
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O final do ano é tempo para desejar Boas Festas, realizar um balanço, manifestar desejos e definir resoluções para o Novo Ano que está à porta. Afinal é uma nova oportunidade que se abre de recomeçar e olhar com renovada ambição, esperança e determinação para as contrariedades. O ano de 2022 ficará indubitavelmente marcado pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia, num regresso a um passado que muitos julgavam distante, mas, enfim, esqueçamos isto.

Portugal entrará em 2023 com um problema demográfico que se vem acentuando. Foram conhecidos há dias os resultados dos Censos 2021 que confirmam que Portugal está a perder população (-2,1%), e a quebra só não é maior graças aos imigrantes que chegaram ao nosso país. A área metropolitana de Lisboa (+1,71%) e o Algarve (+3,62%) foram as únicas regiões que registaram um ténue aumento populacional. Para além disso, a pirâmide etária demonstra simultaneamente a baixa natalidade e o aumento da longevidade, o que coloca sob pressão a reposição da população em idade activa. Um cenário muito preocupante, mas, enfim, esqueçamos isto.

Teremos em 2023 um Orçamento de Estado aprovado, sem surpresa, pela maioria parlamentar que suporta o Governo e que teve por base pressupostos como os 4% de inflação, um défice de 0,9% do PIB e uma redução da dívida pública para os cerca de 110% em 2023. O tempo dirá se estes números eram optimistas ou não. Entretanto, confirmou-se o que já se sabia. Um corte real no valor nominal das pensões, a limitação da actualização das rendas – afinal a lei só serve para quando dá jeito -, impactando não apenas o ano de 2023 como os seguintes. Continuaremos assim com uma elevada carga fiscal sobre os indivíduos e as empresas, sem atacar os problemas reais do país e a empurrar com a barriga pois o Estado é manifestamente incapaz de cortar seja onde for, mas, enfim, esqueçamos isto.

Ingressaremos assim em 2023 com os mesmos problemas de 2022 e sob o espectro da estagflação. Não foram aproveitados os ventos favoráveis, ou se preferir o tempo das “vacas gordas”, para relançar estruturalmente a economia e o país para o seu crescimento. Exalta-se o crescimento anémico da economia como se de uma vitória numa final de um torneio futebolístico de Seleções se tratasse. Um país que nem consegue executar os fundos comunitários que recebe, sendo a execução da “bazuca” (PRR) mais um indício, e onde se insiste em salvar empresas e bancos, com custos ociosos de muitos mil milhões de euros, hipotecando anos de investimento na correcção das debilidades da economia, da justiça, da educação, da saúde e até no combate à pobreza. No próximo ano, faltarão poucos meses para sermos ultrapassados em termos de riqueza produzida no país por aquele que já foi o país mais pobre da União Europeia, a Roménia, que recorde-se entrou na UE há 15 anos e nesse período fez o que Portugal não conseguiu fazer em 36 mas, enfim, esqueçamos isto.

O Algarve, em 2023, continuará a ser aquela estância balnear e de beleza campestre, onde as suas gentes são uns privilegiados pois gozam de sol, praia e tranquilidade todo o ano pelo que não se podem queixar da falta de um novo Hospital Central prometido há vinte anos ou da escassez crónica de recursos humanos na área da saúde, nem das portagens na A22, ou do caos na generalidade dos serviços públicos que atormentam quem cá vive e trabalha, pois como é sabido basta passear pelo campo ou por um dos areais das muitas praias da região para milagrosamente os problemas serem resolvidos.

A expressão “passar as passas do Algarve” perdeu força e por mais que os algarvios se queixem, ninguém os ouve mas, enfim, esqueçamos também isto.

Olvidemos por ora tudo isto pois é época de renovada esperança, de celebrar e de conviver com a família e amigos. De dar amor, carinho, paz e, porque não dizê-lo, alguns presentes que fazem a alegria de miúdos e graúdos. A todos os leitores, colaboradores e pessoas que tornam possível a continuação de um jornal local como o “Terra Ruiva”, bem como para familiares e amigos, endereço os melhores votos de um Feliz Natal e um Próspero 2023, sem estas e outras contrariedades.

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PorFabrice Martins
Nasceu em França em 1982 e desde 1993 que reside no concelho de Silves. Licenciado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, realizou posteriormente uma pós-graduação em Gestão Empresarial pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Tem como principais áreas de interesse a gestão, a geopolítica bem como a segurança e defesa. Após uma passagem pelo sector da banca, assumiu nos últimos anos o papel de gestor assistente e coordenador operacional de proteção de dados. Nos tempos livres, desenvolve as suas paixões pela música, fotografia e desportos motorizados.
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