Abacates-desde que se plantou o primeiro pomar em Silves, até ao “ouro verde” e à falta de água

O concelho de Silves destaca-se hoje na produção de abacates, em conjunto com Tavira e Faro.
Para este mês de julho está anunciado o lançamento da marca Abacate do Algarve, um produto que se quer posicionar enquanto referência mundial, a par dos citrinos algarvios.

Nos últimos tempos, porém, a expansão de pomares de abacate que, no nosso concelho podem facilmente ser encontrados nas freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines e Algoz, tem levantado muitas dúvidas e inquietações ambientais, relacionadas principalmente com a falta de água crónica que a região do Algarve enfrenta.

Recentemente, foi apresentado o estudo sobre “A Importância da Cultura do Abacate na Região do Algarve”, realizado pela Agro.Ges, uma consultora especializada em estudos agrícolas, numa iniciativa promovida pela AlgFuturo. Nesse documento recomenda-se que o abacate seja uma opção estratégica para o desenvolvimento agrícola do Algarve, destacando-se que os atuais 1833 hectares da cultura de abacate vão poder gerar 40 milhões de euros anuais. Um valor que é o dobro da verba que essa cultura traz já para a economia regional, numa altura em que os pomares ainda não se encontram a produzir em pleno.

O abacate, conhecido também como “ouro verde”, entrou no Algarve pela iniciativa de Joaquim Mourinho, das Frutas Mourinho. Como o próprio conta em várias entrevistas, foi ele quem, em 1986, plantou, em Silves, o primeiro hectare de abacateiros depois de ter conhecido o fruto em Moçambique, na altura da Guerra Colonial.

Hoje, o abacate, fruto sobejamente conhecido e apreciado pelas suas qualidades benéficas para a saúde, está definitivamente na moda e entrou nos hábitos alimentares de pessoas de todo o mundo.
Não surpreende portanto, que a área de cultivo de abacate esteja a crescer, e se em 2000 havia, no Algarve, 171 hectares plantados, hoje esse número subiu para 1833, sendo de salientar o “boom” registado entre 2017 e 2019 quando a área cultivada quase triplicou (de 650 ha para 1815 ha). Ainda assim, segundo o referido estudo da Agro.Ges, a cultura do abacate representa 1,8 % da superfície agrícola utilizada na região e 3,2% da área de culturas permanentes do Algarve. O que significa que existe ainda uma grande margem de crescimento e que este é, sem dúvida, defendido por várias entidades regionais, nomeadamente pela Direção Regional de Agricultura.

Na discussão em torno do abacate surge, inevitavelmente, a questão da água, havendo números que indicam que um abacateiro necessita em média de 60 litros de água por dia e de cerca de 6.500 metros cúbicos por hectare por ano. Números muito significativos, mas semelhantes aos que outras culturas, como os citrinos, necessitam, tem dito o Ministério da Agricultura.
O que leva os defensores da cultura do abacate a afirmarem que o problema de escassez de água no Algarve não é causado pelas 568 explorações existentes. Ainda mais porque, como também é referido, a maioria dos pomares de abacateiros utiliza, hoje em dia, um num sistema de rega localizada, que possui sondas de telemetria para aferição dos níveis de humidade no solo e que dá indicações ao computador para libertar apenas a quantidade de água necessária naquela altura. Um sistema, dizem, que consome menos água do que um pomar de citrinos tradicional, regado pelo sistema de gravidade.

Na apresentação do citado estudo, José Vitorino, presidente da AlgFuturo, sublinhou que o mesmo dissipa todas as dúvidas sobre a importância do abacate para a agricultura do Algarve e destaca também a sua importância económica, enquanto produto de excelência que se destina quase exclusivamente à exportação, trazendo bons rendimentos para os produtores.

Alguns dados do Estudo

• A área ocupada pela cultura do abacateiro é pequena (1,8% da Superfície Agrícola e 3,2% da área de culturas permanentes, segundo o RA2019 do INE);
• A maior parte desta área encontra-se nos Municípios de Silves, Tavira e Faro;
• A área média de exploração é de 3,2ha;
• A maioria das plantações têm rega gota a gota eletronicamente controlada, bem como em relação aos nutrientes e não aplica herbicidas e fungicidas.
• A cultura utiliza em média 6500 m3/ha por ano, idêntico às outras culturas dominantes e nalguns casos ainda menos;
• Estima-se que empregue, no mínimo, 568 pessoas por ano;
• Estima-se que, mesmo que com área reduzida, a cultura consiga gerar cerca de 20 Milhões de euros de contribuição anual para a economia;
• Quando a área de 2019 atingir o ano cruzeiro (pomares adultos) esta contribuição será de cerca de 40 Milhões de euros anuais;
• O fruto tem um conjunto muito alargado de benefícios para a saúde, descritos em estudos científicos;
• Relativamente à sustentabilidade ambiental, a cultura já recebe as melhorias técnicas para aumentar a sua sustentabilidade, nomeadamente na correta gestão do solo, água, biodiversidade e carbono.

E a água?
Indiferentes a estas questões, os números não deixam dúvidas quanto à escassez de água no Algarve.
O mais recente Boletim Climatológico, datado de Maio de 2021, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) indica que a região do Algarve se encontra em seca moderada, existindo alguns locais em seca severa, nomeadamente nos concelhos de Silves, Portimão, Lagoa e no Sotavento.

No final de maio, acrescenta o IPMA, verificou-se não só um aumento da área em seca meteorológica como também da sua intensidade na região Sul, havendo uma diminuição “significativa” dos valores de percentagem de água no solo em todo o território. No Baixo Alentejo e no Algarve, em muitos locais os valores de percentagem de água no solo são inferiores a 20%.

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Um Comentário

  1. Maria Manuela Jacinto Cabrita

    Não foi só o senhor Mourinho. O meu pai, Manuel Cabrita Matias também foi pioneiro, na várzea do Benaciate.

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