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PsicologiaVida

Pandemia, Teletrabalho e Saúde Mental

Helena Pinto
Última Atualização: 2021/Mai/Dom
Helena Pinto
5 anos atrás
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Maio é mês de celebrar o trabalho. Mais uma vez esta é uma festa em contexto de pandemia. Comemoramos o Dia do Trabalhador, a importância do trabalho para o desenvolvimento das sociedades, mas também do respeito pelos direitos e deveres de quem produz, nas suas diferentes áreas de responsabilidade. O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional nem sempre é fácil, mas é imprescindível para que as duas de complementem. O trabalho faz-se com pessoas; pessoas equilibradas e felizes, respeitadas e valorizadas, geram profissionais de excelência, que completam e se completam.

A pandemia veio acelerar alguns males de nosso tempo. Com ela veio o teletrabalho e as videoconferências. Perdeu-se a riqueza do contato direto, desapareceram os rituais e os espaços comuns de partilha. Exploramo-nos mais do que nunca, contaminando o espaço pessoal e familiar com o trabalho e vice-versa. Os horários e espaços confundem-se, as múltiplas tarefas, assistência à família, aos filhos com aulas online, levam ao prolongamento, muitas vezes não consciente, do horário de trabalho. A rotina altera-se, o cansaço acumula-se, o confinamento limita os momentos e espaços de evasão.

O aparecimento do vírus deu visibilidade aos sintomas das doenças de que as sociedades já padeciam. Um desses sintomas é o cansaço. De uma forma ou de outra, todos nos sentimos cansados e exaustos. Como uma sombra que nos acompanha, mesmo quando o confinamento gera inatividade. Byung-Chul Han, filosofo e ensaísta, no seu ensaio Sociedade do cansaço, apresenta-nos a fadiga como uma doença da sociedade neoliberal do rendimento. Refere o autor que nos exploramos voluntária e apaixonadamente, acreditando que nos estamos a realizar e que o que nos esgota não é uma coerção externa, mas o imperativo interno de ter que render cada vez mais. Esmagamo-nos à base de ter um bom desempenho e fazer uma boa imagem. Como refere o autor “exploramo-nos voluntariamente”, numa, quiçá, falsa sensação de liberdade. Numa mentalidade neoliberal, os homens isolam-se e tornam-se narcisistas. Quem fracassa, fá-lo por sua culpa. Acusam-se a si mesmos e não à sociedade.

As pessoas que trabalham à distância, parecem arranjar ainda mais tempo para se explorarem a si próprias e a maioria das entidades empregadoras esquece direitos, exige desempenhos e produtividade, sem o devido apoio e sem o respeito pelo espaço pessoal, pela pausa, pelo recarregar de baterias, essenciais ao bom desempenho. Mais uma vez pessoas infelizes, não são profissionais produtivos e eficazes. A fadiga não vem só da pressão interna, mas também da pressão externa. As condições mundiais do trabalho, a pressão para crescer e produzir, esgota recursos e a força de trabalho. Vestir a camisola da empresa, implica que também a empresa vista a camisola do seu colaborador.

A síndrome de esgotamento profissional acontece a partir do momento em que o sujeito sente que não consegue mais. Fracassa por considerar não ter correspondido às exigências internas e externas.  A luta interna que se estabelece leva ao esgotamento.

“O início do século XXI, do ponto de vista patológico, não seria nem bacteriano nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), o transtorno de personalidade borderline (TPB) ou a síndrome de burnout (esgotamento profissional) definem o panorama patológico neste início de século.” (Byung-Chul Han)

Também ficamos exaustos com a falta de contatos sociais, com a falta de abraços e de contato corporal com os outros. As estruturas fixas, mesmo que temporárias, e os rituais, dão estabilidade à vida. Estar com amigos, ir ao teatro, ao futebol, passear,…ESTAR é essencial.

Até que ponto refletimos sobre as opções e caminhos que percorremos? É isto o que nos faz verdadeiramente felizes? Até que ponto esse é mesmo o nosso caminho? Cumprimos o socialmente esperado ou aquilo que verdadeiramente desejamos? Encaixamos numa norma, num modelo vendido como o ideal ou escolhemos o nosso modelo de vida?

Em breve teremos vacinas suficientes e até imunidade de grupo, mas teremos vacinas contra a pandemia dos problemas de saúde mental? Que o vírus nos faça repensar a nossa forma de vida e nos impulsione para a mudança individual e para a mudança enquanto sociedade.

É urgente mudar o nosso modo de vida,  por nós, pelo futuro dos nossos filhos, pelo planeta!

Partilhe a sua opinião, reflexão, ideias, … helenamapinto@gmail.com

 

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PorHelena Pinto
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Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Formadora da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Situação profissional dos Psicólogos; Ética e Deontologia, Intervenção em Situação de Emergência e catástrofe) e Membro do Conselho de Representantes da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Consultora da área da Gestão de Carreira
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