Habitar e construir no Algarve: O Estado de Emergência Climática e Ambiental (1)

No passado dia 2 de Dezembro o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, participou num evento sobre o “Estado do Planeta” e a crise climática, onde uma vez mais referiu a importância de reconhecer a guerra do Homem contra a natureza como como um acto de “suicídio” colectivo. Guterres lançou a todos o desafio moral, e compromisso para com as próximas gerações, de reformar e reconceber comportamentos e a forma com que vivemos. A forma – como vivemos em nossas casas e como as construímos; como comemos e o que comemos; e muito mais coisas que fazemos – são o maior problema para respondermos de forma directa e pragmática à crise climática e a perda de biodiversidade. Só a habitação e a construção civil, e tudo aquilo que envolvem, nomeadamente materiais de construção e transportes, são, na União Europeia, responsáveis pela emissão de cerca de 40% das emissões de gases de efeito estufa.

Em Portugal não há, à data, informação especifica que nos permita assumir valores, no entanto arrisco dizer que no Algarve, onde o peso da indústria é hoje reduzido, é bem possível que a forma como construímos para nós e para ‘os outros’, assim como vivemos, comemos e recebemos ‘os outros’; e o que fazemos para ‘os’ entreter (turismo), represente 80% das emissões de gases de efeito estufa responsáveis pela subida de subida de temperatura e 80% do consumo de água disponível no território.

No Algarve a transformação contínua da cidade em comunidade urbano/rural ou turística determina a natureza do julgamento, ou ‘mão na consciência’, que nos pede António Guterres, nomeadamente a “ profunda revisão das expectativas que temos para os nossos hábitos e costumes” e o “ questionar da resiliência dos nossas territórios e economia”.

No Algarve estas relações estendem-se da construção de uma paisagem urbana/rural à transformação de cidades, vilas, aldeias e praias em produto turístico. Esta indefinição tem sido um desafio para os organismos e entidades de coordenam e gerem o território mas também um desafio a profissionais e disciplinas que estudam e operam na região.

Entre arquitectos foi, no dia 3 de Dezembro, lançado no Porto o repto por um grupo de consignatários do movimento mundial Architects Declare Climate & Biodiversity Emergency (Arquitectos Declaram Estado de Emergência Climática e à Biodiversidade) para alertar consciências entre profissionais e suscitar a discussão que permita entender a responsabilidade que partilham como agentes da construção e enquanto comunidade profissional.

Enquanto agentes da indústria da construção, os arquitectos têm a responsabilidade cívica (social e económica) de ir ao encontro das necessidades da nossa comunidade sem que se comprometam os limites ecológicos do planeta e do Algarve em particular. “Em conjunto com os nossos clientes, precisamos de pensar e promover edifícios, cidades e infraestruturas como partes de um sistema maior e auto-suficiente, em constante regeneração. Todo o conhecimento e recursos tecnológicos existentes permitem começar imediatamente essa mudança. Mas precisamos de trabalhar em coletivo para o conseguir.” (Arquitectos Declaram Estado de Emergencia Climática e à Biodiversidade)

As transformações que se antecipam colocam aos arquitectos o desafio de definir o papel da arquitectura na mediação entre múltiplos lados (velho e o novo, construído e não construído, dentro e fora, público e privado, litoral e interior). Desafio que estabelece no ‘projecto construído’ o potencial de: encontrar um modelo próprio de desenvolvimento sustentável, com capacidade para atrair uma nova ideia de relação entre homem e natureza, trabalho e lazer; do interior ao litoral. Da negociação de espaço e organização, com e entre a divisão e distribuição da propriedade daí resultantes, emerge o potencial do “turismo” para lá da actividade económica – contrariar as assimetrias culturais e políticas presentes no território proporcionando a definição de novos modelos de gestão e ordenamento conscientes e responsáveis face à necessidade e ambição de proporcionar o acesso à habitação e lazer de forma democrática e ambientalmente convicta.

Num território em acelerada transformação durante os últimos 80 anos e continuamente ausente da discussão das boas práticas da arquitetura, da construção e salvaguarda ambiental e climática em Portugal os agentes económicos, sociais e culturais, entre os quais o arquiteto e o pedreiro, deverão reconhecer: a diversidade geográfica e a dinâmica policêntrica do território, a velocidade e a disponibilidade de deslocação de residentes e visitantes, a volatilidade da propriedade e o uso do solo enquanto mecanismos de gestão do território, e a resiliência de uma infraestrutura natural e construída numa matriz sazonal. Estas condicionantes quando combinadas estão, eventualmente, na origem de muitas das catástrofes de consequências naturais, sociais e económicas, fenómenos para aos quais os responsáveis pela construção devem reagir, intervir e colaborar.

É assim, urgente o reconhecimento entre os pares da construção e da política no Algarve e o envolvimento de toda a comunidade para uma discussão alargada e critica dos meios que definem e condicionam as boas práticas ambientais na região, mas também o nosso quotidiano, onde vivemos e o que comemos.

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