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Memórias Breves (29) – António Ramos Rosa, numa memória

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2020/Dez/Seg
Teodomiro Neto
5 anos atrás
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1958, “O GRITO CLARO” encheu a pequena família cultural de Faro em curiosidade. O Poeta tinha a idade de 34 anos. Já passara uma temporada em Lisboa, em circunstâncias de viver e de trabalho: escritório. “Prisão” para um Homem de contrário à sua vida livre e aberta que a juventude permite. Já passara pelo tempo de perseguição, no encontro de juventude, em Bela-Mandil, Faro, na comemoração da Primavera da vitória na 2ª grande guerra mundial: prisão, etc.

Depois, da primeira experiência de Lisboa, regressa a Faro para viver a juventude, em 1958. Vivíamos num “clima” cultural,  tendo o Ciclo Cultural do Algarve, e, sobretudo, o Café Aliança, como centro plural de vivências. A PIDE era uma “circunstância”, para uma cidadezinha de poucos advogados, médicos e um número razoável de professores. O “Grito Claro” foi uma “pedrada no charco”: “Não se entende, é perigoso”, afirmavam os PIDES. Faro era considerada a terra dos “livros perigosos”.

Ramos Rosa aguenta por Faro mais quatro anos. Na sua cidade vai dando aulas de explicação. Eu fui seu aluno “nocturno” na minha puberdade. O poeta-educador era muito calmo, gentil: um Senhor, numa “allure” natural.

António Ramos Rosa e o amigo Duarte Infante, no Café Aliança, 2001

A imprensa da cidade: Semanários “O Algarve”, “Correio do Sul”, “Folha do Domingo”, num silêncio. Só  o ”Correio do Sul” abre as portas à poesia do António. O diretor desse semanário era, em dúvida, um homem culto. O seu jornal estava “aberto” às publicações da melhor poesia ou prosa. Como o tempo político era contrário a toda a novidade poética ou de prosa, o silêncio era cúmplice de tudo: palavras, conferências, publicações.

O Ramos Rosa era um tipo muito silencioso. A Pide chamava-lhe o “gajo”. E assim o poeta ia sobrevivendo entre explicações e poesia. Até que deixa Faro e parte para uma segunda estadia, definitiva. “Grito Claro” chega a Lisboa. Os  amigos “empurraram-no” para a capital.

Eu, emigrante, por decisão, mais tarde, fui lendo a sua poesia no diário francês, “Le Monde”. Um certo dia, por apoio de um colega, que me levou um poema do António a publicar no grande jornal parisiense. O Poeta havia entrado pela Europa. Dei o contributo que pude. Dava voz à sua Poesia. Fui publicando, pela admiração, imensos títulos, que guardo e releio.

Já com o país em voz de Liberdade, em Faro, entrevisto a mãe de Ramos Rosa,  (Jornal do Algarve- 13/11/1981). Fiquei conhecendo o Poeta na pura intimidade, contada pela senhora Vicência, a génese dessa vivacidade original, esse princípio básico da metamorfose do “O Grito Claro”  ao  “Incêndio dos Aspetos”: “Não posso adiar o amor para outro século/ não posso/ ainda que o grito sufoque na garganta/ ainda que o ódio estale e crepite e arda/ sob as montanhas cinzentas/ e montanhas cinzentas/ Não posso adiar/ ainda que a noite pese séculos à minha vida /nem o meu amor/nem o grito de libertação/ não posso adiar o coração. Era a “construção” da nova poesia portuguesa. A sua forte intensidade…

A cidade de Faro, na sua originalidade, desconhecia a poesia  do Poeta. Não o liam. Em 1997, a imprensa publica que o Poeta foi agraciado com a Grã-Cruz do Infante. A 17/10/1998, o Clube Farense, de tradições burguesas, convidava o Poeta. Mas o poeta  faltou… Virá, à sua cidade, mais tarde, numa intensa atividade poética e ensaística.

Foi-se disseminando em projetos editoriais como as revistas de poesia Árvore, Cassipeia e Cadernos do Meio-Dia. Foi recebendo reconhecimento internacional. Em 2003 recebe “Doutor “Honoris Causa”, pela Universidade do Algarve. Por condição de respeito à Escola, o Poeta desce a Faro. Eu publico no semanário de Faro “Algarve”23/10/2003: É preciso decifrar, na obra, a natureza específica de um desejo, de um poder, de um Génio, que procurou atingir-se a si próprio, dando nascença  à obra. Esse desejo inicial, é, sem dúvida, um dos mais seguros dados que permite dar conta da junção que se verifica num acto literário. E resolve assim dialecticamente a eterna e tenaz contradição entre a coisa dita e a forma pela qual é dita.

Depois vem o reconhecimento dos países que admiram o Poeta Português: França: Prémio Hautvillllieurs (1986); Itália: Prémio Nicola (1991); Liége: Bienal de Poesia (1992); Portugal: Prémio Nacional de Poesia Fernando Pessoa (1992). E vai recebendo Prémio PEN, Grã- oficial da Ordem de Santiago, Ordem militar de Sant´Iago de Espada.

Na Primavera de 2010, estou em Faro, na reabertura do Café Aliança. Publico na “Folha do Domingo”: O Aliança reabriu em Memórias: “ Que nunca ninguém é só o seu tempo”. António encontra-se na sua cidade, vai sentindo que o fim de aproxima. Vem matar saudades. O seu amigo, o livreiro Duarte Infante, espera-o. Têm um encontro marcado: os dois em Memórias! Que os cafés são as grandes casas das memórias… Eu que o diga! Neste Café há tantas que guardo: Desde a publicação das minhas primeiras e entrevistas: Marguerite Yourcenar, 1960; Amélia Rey Colaço,1961, e a Pide a circundar…

Lembro a sua mãe  afirmar: “O meu António é o génio que os grandes homens de bem têm…” Quando a visitei, a seu pedido, vivendo na sua casinha de duas peças, afirmou-me: Aqui se fez o meu Poeta, na nobreza do ser: “O sol do poema é o sol/ para lá do sol”. Recitava-me em continuidade. E eu nesse prazer em ouvir.

O Diário de Notícias, 24 de Setembro 2013, publicava: “ Morreu António Ramos Rosa, poeta da palavra livre. Não era homem de poemas fáceis mas foi um dos que mais avançaram pelos abismos da língua portuguesa. Foi candidato ao Nobel, mas quase esquecido morreu ontem, aos 88 anos, nas suas palavra :  O sol do poema é o sol/ para lá do sol! / O tema da minha poesia passa por uma busca de identidade. Também ando numa deriva à procura daquela outra coisa que quero encontrar e que talvez encontre, uma outra coisa que quero encontrar e que talvez encontre, uma outra coisa que está em tudo, em cada coisa, mas que ninguém vê porque existirá misturada na poeira da existência. Mas eu quero ver, tenho a preocupação de ver.”

 

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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