Estávamos em 2016 quando a maioria de nós despertou para uma ameaça tecnológica real dentro das instituições democráticas. Nesse ano, operadores russos organizaram um esquema de interferências nas eleições americanas. Sem querer entrar em muito detalhe, as redes sociais encheram-se de “bots” (perfis falsos) russos que espalharam desinformação acerca da campanha da Secretária de Estado americana Hillary Clinton. Tal operação influenciou a decisão de milhões de eleitores, que permitiram, em maior ou menor medida, a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.
Escândalos como a Cambridge Analytica, que aconteceu poucos anos antes, estão intimamente ligados com esta questão. Ou seja, a utilização de dados pessoais de todos nós para uma qualquer influência política ou comercial. O que todas estas operações maliciosas provaram é que realmente a estratégia resulta. Em alguns casos essa estratégia é abertamente executada, como foi o caso do Brexit e do seu “mastermind” Dominic Cummings. A utilização de uma ferramenta neutra na política não é algo novo, e a tecnologia é apolítica. Mas o humano é um animal extremamente político e a tecnologia, como a temos hoje, nunca existiu antes.
Aquilo a que estamos a assistir é a uma época de adaptação, em que a política e o direito estão extremamente atrasados em relação ao progresso tecnológico. Existe falta de regulação nesse sentido. Irá existir, o que não me faz ficar menos preocupado, porque esta adaptação poderá demorar muitas décadas e, até lá, muitas desgraças poderão acontecer, inclusive guerras civis ou mesmo guerras totais.
Se a estratégia está a resultar, os ataques vão continuar. Para além da política estar atrasada em relação à tecnologia, o próprio humano também o está. A maioria de nós não entende ainda os conceitos da inteligência artificial e como a recolha de dados funciona. A maioria desses operadores e especialistas, além de perceberem desses conceitos tecnológicos como poucos, também conhecem a biologia e a psicologia do humano melhor que nós próprios. Sabem quais os botões a clicar para que cada um de nós faça aquilo que eles querem.
Esta é uma ameaça totalmente diferente, em que a nossa vida é um livro totalmente aberto a estes operadores que, deliberadamente, tentam alterar as nossas ações sem que saibamos, utilizando essa estratégia a toda a hora, todos os dias. Melhor que tudo, nós queremos mais, e voltamos sempre. O que descrevi parece uma prisão da mente, sem que nós saibamos verdadeiramente que estamos numa prisão. Pode ser um exagero, mas estamos a assistir a resultados reais nas nossas instituições e sociedade, que advêm destas estratégias.
Outro tópico importante nas novas tecnologias é o papel relevante que teve no desinteresse geral pela política. Na verdade, podemos falar num desinteresse geral na maioria dos assuntos, não porque ficamos mais desinteressados, mas simplesmente porque acontecem muitas coisas ao mesmo tempo na internet. A velocidade da quantidade aumentou exponencialmente, sendo que tudo é efémero, num prazo cada vez mais inferior. A consequência disto é que ações anteriormente reprováveis começam a tornar-se normais, transformando-nos em seres dormentes. Assistimos a isso cada vez mais no palco político, onde antes escândalos e indícios de crimes significariam a queda de dirigentes políticos, hoje já não é bem assim.
Numa dualidade absolutamente incrível, e devido à capacidade de “tocar nos botões certos” do humano, como referido anteriormente, estamos muito mais apaixonados e tribais em certos assuntos que nos parecem mais pertinentes ou importantes. Outra consequência que surge deste facto é a incapacidade de termos uma conversa civilizada, moderada, e fica extremamente debilitada a vantagem de chegar a consensos. O tribalismo político e social aumentou muito nos últimos anos, por esta causa. Vemos isso atualmente com qualquer assunto, mas eu gostaria de sublinhar principalmente as causas identitárias. Muitas das nossas instituições democráticas atuais, que nos permitiram melhorar muito as condições sociais, económicas, de justiça social e igualitária, foram construídas sobre consensos políticos. Porque a sociedade moderada atual é uma ideia de muitos anos e avanços momentâneos. Sim, revoluções sociais e económicas existiram anteriormente. Mas é impossível haver revoluções todos os anos sobre vários assuntos e ao mesmo tempo ambicionarmos uma sociedade estável e justa para todos.
Este não é um texto anti-tecnologia. Pelo contrário, gostaria de referir que a tecnologia é a ferramenta que vai resolver muitos dos nossos maiores problemas. Este é um texto de critica à utilização política e comercial maliciosa da tecnologia contra pessoas, que é contrária aos valores de liberdade, pensamento livre e democrático que se estabelecem no nosso e outros países. É bom que as pessoas comecem a pensar em direitos tecnológicos, porque são hoje mais necessários que nunca.







