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Rocha de Sousa agradece a homenagem

Terra Ruiva
Última Atualização: 2019/Set/Qua
Terra Ruiva
7 anos atrás
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O nosso colaborador João Rocha de Sousa, um dos homenageados com a Distinção Municipal – Prémio Arte e Cultura, na cerimónia do Dia do Município, a 2 de setembro de 2019,  por motivos de saúde, não pode estar presente para receber o galardão atribuído pela Câmara Municipal de Silves.

Na referida cerimónia, foi lembrado e elogiado o percurso de vida deste silvense, professor de artes, artista plástico, escritor, cineasta, crítico de arte. (Ver aqui: https://www.terraruiva.pt/2019/09/12/distincoes-de-merito-municipal-atribuidas-no-dia-do-municipio/

Assim, João Rocha de Sousa solicita a publicação do seguinte agradecimento público:

João Rocha de Sousa

Rocha de Sousa agraciado pela Cultura e Artes
Agradecimento

Toda a minha vida, até à passagem por Angola, partilhou os passos da minha adolescência, estudos e trabalho em Lisboa, nas Belas Artes. Era como se viajasse comigo em segunda classe, reflexo também da história da cidade natal, da história de Silves, da sua vida e das suas Sociedades Recreativas, entretanto desaparecidas, olhares para a paisagem e nas sessões de cinema, no velho teatro Mascarenhas Gregório, cultura de uma arte superior, hoje mal amada no recreado edifício de tanto teatro, revistas, notícias da guerra e da reflexão fílmica sobre esses anos de maldição. Os filmes eram de escolha bem informada e amados por quase todos os estratos da sociedade silvense.
Também aqui se fez teatro a sério, promovido por Samora Barros, ou trazido pelas companhias de Lisboa. Na cidade proliferaram, de forma amadorística, grupos amadores, assumindo encenações como um verdadeiro serviço prestado àquele lugar e a todas as suas memórias. Muitas vezes se promovia ciclos de palestras (envolvendo artes e cultura, os romances, a poesia, a lembrança dos poetas árabes).

E tudo isso envolvia a reflexão política e o destino de uma juventude cada vez mais dedicada a perceber o seu tempo, entre jogos de recreio e também através de alguns testemunhos importantes publicados na “Voz do Sul”. Isso implicava apoios familiares e locais, sobretudo nos meios dedicados à música e às festas coletivas em datas bem demarcadas. Houve muitas famílias que entenderam a necessidade da leitura (a nossa maior escrita, em particular), alinhando no aviso do bom entendimento das grandes obras da literatura portuguesa. Por mim, também vivi nesse rumo, lendo o que de melhor meu pai juntava, do romance à história, passando pela arqueologia e numismática, assim aspirando a alcançar o entendimento, em geral, do pensamento religioso ou filosófico.

As lembranças foram abertas assim, mas também no contacto com a Natureza, o olhar pela paisagem das hortas, os passeios no rio Arade, os passos belos troços de agricultura, fruticultura, a pesca melancólica nos fins de tarde. Isso trazia à memória hábitos e factos decisivos, como o grande parque de fábricas transformadoras de cortiça, tempo de grandeza e trabalho a crescer até à cedência a diversos poderes de outras latitudes, o rio transportando (em barcas rasas) o fardo da vida e os fardos de aparas de sobreiro, restos de um trabalho complementar que a cidade comandou durante muito tempo com base nos meios e métodos da indústria da cortiça. Assim eu fui um magoado olhador dessas idas pelo rio abaixo, um rio que transportou demoradamente, em marés altas e baixas, a beleza das aparas cintilando ou de enormes arquitecturas bem atadas na cova aberta da embarcação, semelhantes, bem de perto, a paralelepípedos, quase simulação de urnas sem flores, um barqueiro atrás, alinhando tido à frente com gestos e palavras gritadas entre curvas e espaços lineares.

Foi deste modo, entre outros mais festivos, que associei ao estudo, em Silves, o teatro e a escrita, o desenho e a pintura, a banda desenhada e o cinema – ilustração sobre o mundo em volta e a importância de desenvolver qualidades inatas.
O entrosamento destes dados passou também pela abordagem das crenças religiosas, ainda hoje, ou da mistura delas com os sonhos precários de um planeta em crise, onde poucos assumem actos e ideias pela cidade culta, humanitária, num forte testemunho em vez da migalha em forma da própria crise de valores. Aprendi cedo que dar à vida a sujidade moral, a crise ética, cola-nos a indiferenças perigosas e tantas guerras e genocídios por baixo de um céu pesado de lixos tóxicos, tudo a tornar-se vago ou por fim tudo contra todos.

Entre a amenidade das minhas férias em Silves, senti sempre a verdade dos lugares, a consciência da infância e a desprender-se dela para tecto da maturidade, o lugar dos fios que me ligaram com forte interesse à criação artística e ao trabalho de formador plural na semiótica da obra plástica, no domínio da pedagogia em torno dela, e já na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
Longo foi, após o 25 de Abril de 74, o estudo e a experiência de uma nova reforma, após treze anos de investigação e insistência fundamentada junto dos diversos governos. Depois uma nova prática, em pedagogia viva, o contacto direto, em voz dita, com os discentes e o público, o ensaio que passa pela descoberta de nós e dos outros, que entra no ensaio público e nos modos de outros modos de pensar e de escrever – crítica de arte e ensino (assim escrevi durante cerca de trinta anos), aqui e além, revistas e jornais seguindo quase a par pela literatura enquanto autor, teatro, ficção, além de séries de televisão em torno da arte, dezenas de programas, cinema experimental que a revista CINEASTA destacou em termos singulares. A par disso um convite para a Universidade Aberta, exercício docente na cadeira de Mestrado Tecnologia do Vídeo. Além de olhares em prestação, visita a autores expostos na Gulbenkian, além da passagem pela Europa que confirmou muitas das coisas em que tinha meditado.

Mas o tempo que me coloca agora nesta idade e nesse mundo (o outro) obriga-me a meditar nas crises, despojado dos horrores e do consumo alienante. E se trabalhei quase todo o tempo de uma vida fora de Silves, aqui ficarei, aqui ficarei, ponto histórico a que me obriga a nacionalidade, verdade das raízes, de novo as imagens, memória, um corpo, um testemunho com registo de morada.

João Rocha de Sousa

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